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Filme conta drama da desocupação de favela para Olimpíada

28 out 2014 - 19h15
(atualizado às 20h30)
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<p>Filme mostra as histórias de famílias atingidas pela obra</p>
Filme mostra as histórias de famílias atingidas pela obra
Foto: Divulgação

Enquanto as obras para os Jogos Olímpicos estão a todo vapor e por toda a cidade do Rio de Janeiro, o escritor, psicólogo, professor de roteiro da Universidade Federal Fluminense, e agora cineasta, Felipe Pena preferiu registrar o que ele chama de lado B da Olimpíada. "Se Essa Vila Não Fosse Minha" é um documentário que conta um pouco da história da desocupação da favela da Vila Autódromo, que fica incrustada no que será futuramente o Parque Olímpico de 2016, onde há uma longe disputa entre moradores e a prefeitura pela posse do terreno.

O filma está inscrito em vários festivais internacionais - e é fora do país que Felipe Pena espera conseguir dobrar a intenção da prefeitura de acabar com a comunidade antes de 2016. No dia 18 de janeiro, o filme terá a primeira exibição no Rio apenas para convidados.

Durante oito meses, Felipe e equipe ouviram história de cerca de 583 famílias que moravam e moram no local. Isso porque muitas já saíram por conta de realojamentos feitos pelo munícipio. Mas muitos preferiram ficar. E que os que ficaram viram seu local se transformar em uma verdadeira zona de guerra, pela destruição dos imóveis que foram desocupados.

Terra: Quando você foi pela primeira vez à Vila Autódromo e quando teve a ideia do documentário?
Felipe Pena:
A história e inusitada. Sou pesquisador de televisão e ano passado fui a um evento em Cannes, na França. Na volta, vim ao lado de alguém da comunicação do Comitê Olímpico de Londres, que me convidou a visitar as obras do Parque Olímpico. Acabei não indo com ela, mas a Vila Autódromo me chamou a atenção. Entrei e comecei a conversar com as pessoas e tive a ideia de registrar isso. Chamei uns amigos e falei que não tínhamos dinheiro, mas que tínhamos uma missão de mostrar o que estava acontecendo.

Terra: A prefeitura alega que fez acordo para que os moradores saíssem e que quem não quisesse não precisava sair. A história é essa mesmo?
Felipe Pena:
A prefeitura acenou com um grande pavão de um condomínio habitacional a dois quilômetros dali. Metade se encantou com o projeto e isso causou uma divisão e faz com a Vila Autódromo atual pareça a Berlim de 45. Isso porque uma família se muda, a prefeitura vai lá e destrói a casa. E quem fica, fica em um ambiente insalubre. Mas as pessoas resistem. Tem gente que tem registo de imóveis e até agora não tem decisão judicial obrigando que elas saiam. A prefeitura está forçando as pessoas a sair. É uma comunidade que existe lá há 40 anos. Agora eu pergunto: por que é que ali nunca houve um programa favela-bairro? Será que é porque o metro quadrado custa 9 mil reais? Estou perguntando. Todas as pessoas tem certificado de posse. A politica habitacional do rio é excludente.

Terra: Você chegou a saber das pessoas que saíram, se elas melhoraram de vida, se estão arrependidas?
Felipe Pena:
A maioria se arrependeu de ter saído, mas não querem voltar. Uma das que saiu me disse: ”as pessoas que ficaram serão massacradas. Porque a prefeitura quer aquelas terras”. A prefeitura usou o poder de forma mais perversa. Teve gente que ficou feliz em se mudar sim, claro. O que me motivou a fazer o filme é mostrar que mesmo mesmo com toda violência muitas pessoas insistem em ficar. Muitos criaram os filhos e os netos ali, tem história no lugar. É a história de suas vidas e elas não querem deixar isso para trás.

Terra: Você acha que com o filme vai conseguir mudar a intenção da prefeitura?
Felipe Pena:
Minha tese é a do Leon Tolstói: quando você fala de sua vila, você fala do mundo inteiro. Esse é um exemplo. Não acho que o filme vá ter grande repercussão no Brasil. Minha esperança são os festivais internacionais. Fomos selecionados para o festival em Pequim, na China. Os chineses estão interessados porque eles tiveram olimpíadas e aconteceram coisas muito parecidas por lá. Agora estou esperando a resposta de outro festival no Egito. Se tiver pressão internacional talvez a prefeitura faça algum tipo de urbanização no local. Existe até um projeto pronto. A Vila onde está não atrapalha em nada o projeto das Olimpíadas.

Fonte: Terra
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