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"Esquecida", Mancuso simboliza o sucesso dos Estados Unidos

24 fev 2010
21h55
atualizado às 22h07
Shira Springer
Boston Globe

Como é possível esquecer uma esquiadora olímpica ganhadora de medalha de ouro que vende lingerie e usa uma tiara de pedrarias? Pareceria impossível, mas Julia Mancuso não recebeu a atenção devida nos dias que antecederam os Jogos de Inverno de Vancouver.

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A máquina de promoção acionada antes da Olimpíada estava concentrada em Lindsey Vonn, que planejava conquistar múltiplas medalhas de ouro, em suas fotos de biquíni para a revista "Sports Illustrated" e na lesão que ela sofreu no tornozelo, e isso parece ter deixado pouco tempo para que Mancuso e suas chances de medalha recebessem a atenção merecida de parte da mídia.

Mas nos dois dias de provas em Whistler Creekside, Mancuso reconquistou nas encostas o seu espaço no pódio das atenções olímpicas. Exibindo seu talento instintivo e sua capacidade de resistir a pressões, ela surpreendeu ao conquistar a prata nas provas de downhill e supercombinado.

"É muito gostoso estar aqui em Whistler, na América do Norte", disse Mancuso depois da prova de downhill. "É ótimo ter Lindsey no primeiro posto e eu no segundo. Não gosto de pensar em estatísticas. Para mim, é tudo excelente. Para mim, é realizar um sonho, é algo com que nós duas vínhamos sonhando desde sempre. Foi uma longa jornada. E serve para provar que uma pessoa consegue fazer tudo aquilo que está determinada a fazer, se acreditar em si mesma".

Mancuso sabe do que está falando. Desde o ouro que conquistou nos jogos de inverno de Turim, em 2006, ela vem enfrentando uma série de lesões e más apresentações, enquanto Vonn emergia como a mais veloz das esquiadoras do mundo. Prejudicada por uma lesão nas costas no ano passado, Mancuso enfrentou problemas no circuito da Copa do Mundo, e terminou apenas no sexto posto. Nesta temporada, ela subiu ao pódio na última prova de Copa do Mundo antes dos jogos, mas não era possível determinar se o terceiro posto que conquistou no supercombinado em St. Moritz se traduziria em resultados olímpicos apreciáveis.

Ao que parece, a tradução foi muito positiva e ela se saiu muito bem no terreno difícil e desafiador tecnicamente da pista de Whistler. Depois de seu sucesso na Copa do Mundo, em janeiro, e aproveitando a experiência adquirida em Turim, Mancuso entrou na olimpíada em boa forma e em bom estado de espírito.

"Quatro anos atrás, eu cheguei aos jogos com força total", disse. "Vencer o ouro lá me ensinou a mensagem de que tudo é possível, e que o importante é sempre encarar os desafios com um sorriso. Sinto a mesma coisa nestes jogos".

Ainda que Vonn seja o rosto público da equipe norte-americana, Mancuso, em companhia de Bode Miller, se tornou um símbolo do inesperado sucesso da equipe alpina do país em Vancouver.

Se Mancuso conseguir repetir seu ouro no slalom gigante, ou mesmo que apenas suba ao pódio, é provável que saia da olimpíada como a mais premiada das atletas alpinas norte-americanas, em Vancouver.

Quando as provas alpinas femininas começaram, essa distinção parecia virtualmente garantida para Vonn, apesar de uma severa lesão de tornozelo. Mas as duas modalidades restantes nessa categoria - slalom e slalom gigante- não estão entre os pontos fortes de Vonn.

Depois de discutir a situação com os técnicos da equipe norte-americana de esqui, Mancuso preferiu desistir da prova de slalom, na sexta-feira.

"Eles me perguntaram se eu queria participar, e a decisão foi minha", disse Mancuso à agência de notícias Associated Press, ontem. "Disputar mais uma prova olímpica representa muito trabalho e, por melhor que seja minha técnica de slalom, não acredito honestamente que bastaria para uma medalha. Eu queria manter o sentimento positivo que trouxe do slalom combinado".

Mancuso já se tornou a primeira mulher na história dos Estados Unidos a conquistar três medalhas olímpicas em modalidades alpinas. Vonn tem duas - ouro no downhill e prata no super-G, conquistadas em Vancouver.

"É excelente para os Estados Unidos ter a nós duas no pódio (do downhill)", disse Vonn. "Julia e eu certamente percorremos caminhos distintos e usamos métodos diferentes para chegar onde estamos. Mas estou muito feliz por termos subido juntas ao pódio".

Mancuso, uma esquiadora conhecida por seu espírito livre, teve de assistir sem poder reagir enquanto Vonn estabelecia um recorde em vitórias de provas da Copa do Mundo. Separadas em idade por sete meses, as duas principais esquiadoras dos Estados Unidos são rivais amistosas desde a infância.

As duas são tão diferentes quanto o estilo que exibem fora das encostas. Vonn realiza um rigoroso regime de treinamento na Áustria, a cada verão. Mancuso, natural da relaxada comunidade de esqui de Lake Tahoe, Nevada, prefere passar seus verões no Havaí.

"A abordagem de Lindsey é realmente analítica", disse Mancuso depois que elas conquistaram os dois primeiros postos na prova de downhill. "Ela passa muito tempo com o marido (e técnico), assistindo aos vídeos tentando aperfeiçoar as coisas, de um modo perfeccionista. Ela realmente carrega com ela sua velocidade, encosta abaixo, e é impressionante assistir".

"Nossas histórias são parecidas no sentido de que chegar ao pódio é realmente difícil. É realmente complicado sofrer toda essa pressão para descer a encosta e vencer. É impressionante. Para mim, prefiro nem pensar que já estive no pódio", diz.

A situação era bem diferente nos jogos de Turim. A medalha de ouro de Mancuso em 2006 foi surpresa muito maior que o seu desempenho atual. Mancuso se tornou a primeira esquiadora olímpica norte-americana a conquistar uma medalha desde que Picabo Street levou o título do super-G nos jogos de Nagano, em 1998. Antes de Mancuso, a última vitória dos Estados Unidos no slalom gigante havia acontecido com Debbie Armstrong, nos jogos de Sarajevo, em 1984.

Agora, Mancuso espera repetir a dose e, uma vez mais, lembrar ao mundo o que ela é capaz de realizar.

The New York Times
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