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Jogador mata seis pessoas além de si, mas encefalopatia traumática crônica pode não ser a explicação

Descoberta ligada à ETC pode ajudar a explicar casos de violência e comportamento errático por parte de ex-jogadores de futebol americano, mas não oferece um quadro claro no caso de Phillip Adams

22 abr 2021
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O macabro padrão já ficou conhecido: pouco após a morte de um jogador da NFL, liga de futebol americano dos Estados Unidos, a família precisa decidir se o cérebro dele será doado a cientistas que investigam indícios de encefalopatia traumática crônica, a doença degenerativa cerebral ligada a golpes sucessivos na cabeça.

Os parentes de Phillip Adams enfrentaram essa decisão recentemente, depois que ele, aposentado da NFL ao fim da temporada de 2015 com seis anos de carreira, matou a tiros seis pessoas, além de si mesmo, na cidade em que morava, Rock Hill, na Carolina do Sul. A família pediu que o cérebro dele fosse enviado ao Centro de ETC da Universidade de Boston, principal núcleo de pesquisa da doença, que é encontrada em centenas de jogadores de futebol americano e outros atletas. Mas seu diagnóstico só é possível após a morte.

Mesmo se a investigação exigir um diagnóstico acelerado - essa solicitação ainda não foi feita -, os pesquisadores da Universidade de Boston ainda precisariam de aproximadamente quatro meses para dar uma resposta definitiva.

Embora tenha se tornado comum entre as famílias de jogadores e ex-jogadores da NFL questionar se um atleta é afetado pela ETC, e até que ponto, a natureza súbita e atípica do surto violento de Adam e as pressões na comunidade em que ele vivia, formada por fãs de futebol americano, devem eclipsar um pouco as respostas que um exame cerebral pode produzir.

"A doença pode aumentar a probabilidade de depressão e até suicídio, mas jamais saberemos se ela foi a única ou a principal causa desse desfecho tão trágico", disse Adam M. Finkel, calculador de risco quantitativo da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de Michigan. "Mas a incapacidade de provar que a doença causou um resultado específico não deve ser usada para lançar dúvidas em relação à questão central, que é o fato de a exposição individual a repetidos golpes na cabeça estar fortemente associada a uma doença que aumenta a incidência de diferentes resultados negativos."

Mesmo se descobrirmos que Adams tinha ETC, isso seria apenas uma pista para os motivos que o levaram a matar seis pessoas além de si. A doença já foi associada a uma série de sintomas, incluindo comportamento impulsivo e agressivo e até pensamentos suicidas. Em muitos casos, parentes e amigos de jogadores que tiveram ETC dizem que os sintomas não condiziam com a personalidade da pessoa que conheceram, e se agravaram com o tempo.

Nesse caso, a irmã de Adams, Lauren Adams, disse ao USA Today que o irmão, 32 anos, tinha recentemente se tornado surpreendentemente agressivo. "A saúde mental dele se deteriorou muito, e muito rápido", disse ela. "O comportamento dele mudou."

A doença também foi associada a lapsos de memória, perda do foco e problemas para seguir instruções e cumprir tarefas do cotidiano. Mas os pesquisadores encontraram apenas associações - e não elos causais - entre a doença e seus muitos sintomas aparentes.

Ainda é difícil ou até impossível determinar posteriormente a motivação de um suicídio, pois muitos fatores podem influenciar a situação, incluindo problemas mentais persistentes e o uso de drogas. Adams parece não ter deixado um bilhete tentando explicar seus motivos, e as mensagens desse tipo são frequentemente consideradas como pouco confiáveis.

Embora a agressividade seja comum em jogadores que, posteriormente, são diagnosticados com ETC, raramente eles recorreram ao assassinato ou suicídio. Junior Seau e Dave Duerson são talvez os jogadores de futebol americano mais conhecidos que se suicidaram e tinham ETC. Um grupo muito menor - incluindo Jovan Belcher, linebacker do Kansas City Chiefs - matou outras pessoas antes de cometer suicídio. Ainda assim, a ETC ganhou destaque conforme aumenta o número de atletas com esse diagnóstico, levando a um feroz debate a respeito do papel que ela teria desempenhado em suas mortes.

Pouco se sabe publicamente a respeito do tipo de tratamento médico que Adams teria recebido ou de qual seria o relacionamento de Adams com o Dr. Robert Lesslie, um dos seis assassinados. Lesslie era um médico de destaque local especializado em medicina de emergência e ocupacional.

O deputado republicano Ralph Norman, da Carolina do Sul, disse à WBTV em Charlotte, Carolina do Norte, disse que autoridades policiais o teriam informado que Adams seria paciente de Lesslie. O gabinete do xerife de York County, Carolina do Sul, não confirmou a existência desse vínculo.

Em 2017, Adams tentou solicitar os chamados benefícios de linha de frente como compensação pelas lesões recebidas quando estava na NFL, mas teve dificuldade em obter parte da papelada necessária por parte de algumas de suas ex-equipes, de acordo com um conselheiro de invalidez que trabalhou com Adams. Não se sabe ao certo quantas das seis ex-equipes de Adams apresentaram seus exames médicos.

Pessoas próximas a Adams descreveram a dificuldade dele em aceitar o fim de sua carreira na NFL, dizendo que o atleta tomava conta da família. Era muito próximo da mãe, Phyllis Adams, e vinha passando mais tempo na casa dela nos meses mais recentes, de acordo com vizinhos. Seu antigo empresário, Scott Casterline, disse que Adams recusou uma oferta de emprego porque não queria se mudar para o Texas, onde ficaria longe do filho pequeno.

Adams cresceu em Rock Hill, que recebeu o apelido de Football City USA (Cidade americana do futebol, em tradução livre) por causa do grande número de astros do futebol americano vindos de lá.

Casterline e alguns dos amigos de Adams disseram que ele exigia muito de si e nunca superou o fim da carreira profissional, motivado por lesões e outros fatores.

Como alguns outros ex-jogadores, Adams dedicou muitos anos da juventude ao aperfeiçoamento de suas habilidades para a NFL, e talvez tenha ficado perdido sem saber o que fazer em seguida.

"Tudo começa e termina com as expectativas", disse Seth Abrutyn, sociólogo da Universidade da Colúmbia Britânica que estuda o elo entre suicídio nos jovens e saúde mental. "Quando a pessoa se considera a principal responsável pela família, ou acredita que seja a responsável, as pressões que ela enfrenta podem ser mais intensas. São pressões invisíveis que pesam pra valer em nós." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Estadão
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