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Desafios, drama pessoal e contusão: Renan dá volta por cima no Goiás

10 ago 2013
07h45
atualizado às 08h29
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Não é fácil a missão de substituir um ídolo, de ocupar um espaço que foi de alguém por tanto tempo. Esse foi o desafio lançado ao goleiro Renan quando foi contratado pelo Goiás por quatro temporadas para assumir a condição de Harlei. No entanto, isso não é nenhuma novidade para o goleiro criado no Internacional. Após passar por um drama em sua vida pessoal, Renan vê no Goiás a oportunidade para voltar a brilhar e, quem sabe, voltar a vestir a camisa da Seleção.

<p>Goleiro conseguiu se firmar no Goiás e fazer torcedor começar a esquecer Harlei</p>
Goleiro conseguiu se firmar no Goiás e fazer torcedor começar a esquecer Harlei
Foto: Rosiron Rodrigues / Goiás EC / Divulgação

“Na minha carreira eu sempre fui marcado por ter que substituir goleiros, no Internacional foi o Clemer, quando fui para o Valencia foi o Cañizares, o César”. Renan não está em uma empreitada nova, é experiente no assunto e trata tudo isso com muita serenidade. Com o aval do técnico Enderson Moreira, assumiu a titularidade na segunda rodada do Campeonato Brasileiro e não saiu mais.

Renan surgiu nas categorias de base do Internacional e defendeu a Seleção Brasileira Sub-20 no Mundial da Holanda em 2005. Promissor, o goleiro teve de esperar para assumir a titularidade do gol colorado. Foi negociado com o Valencia em 2008, mas não conseguiu se firmar na Europa. Sofreu com uma lesão séria, fato que somado a outras coisas, segundo ele, interrompeu sua ascensão.

Voltou ao Internacional em 2010 para ganhar a Libertadores, esteve em campo no desastre contra o Mazembe. Mas a pior derrota viria no início de 2011. Renan perdeu sua mãe em um acidente automobilístico e três meses depois perdeu o pai.

Renan admitiu que o impacto foi grande em sua carreira e que demorou para conseguir voltar a jogar com confiança. Nesse espaço de tempo, Renan perdeu espaço para Muriel no gol colorado. Com os problemas pessoais vividos e a pequena Sofia, sua filha, ainda bebê, Renan não queria voltar para a Espanha e teve dificuldades para conseguir rescindir seu contrato com o Valencia. Como havia perdido espaço no Internacional, com o interesse do Goiás, preferiu mudar de ares.

Adaptado na nova cidade, no novo clube e titular no gol esmeraldino, Renan enxerga no Goiás a oportunidade de retomar seu melhor momento e até voltar a ser convocado para a Seleção. Em entrevista ao Terra, Renan falou sobre seu passado no Internacional, sua experiência na Seleção Brasileira, no futebol europeu e o que espera de sua carreira no Goiás.

Terra: Você chegou ao Goiás no fim do ano passado. Já está adaptado ao novo clube, como está em Goiânia?

Renan: Tranquilo, a cidade é muito boa, estou adaptado, minha família também está bem à vontade, isso é importante. O clube também oferece todas as condições de trabalho também, estou muito feliz com a escolha e com o projeto para essa temporada. Terra: Você foi contratado para suceder o Harlei. Imaginava que isso aconteceria tão cedo? Renan: Na verdade não me preocupava de quando seria minha oportunidade. Me preparei desde o primeiro dia que cheguei aqui para estar rendendo em alto nível. Quando o Enderson me colocou na segunda rodada do Campeonato Brasileiro, vi que era hora de agarrar essa oportunidade. Estou tentando valorizar essa oportunidade a cada rodada e fazer com que ela seja duradoura.

Terra: Você sabe do peso que o Harlei tem para a história do Goiás. Você pensou nisso antes de assinar com o clube? E qual a sua relação com ele depois que o conheceu?

Renan: Minha relação é a melhor possível. Acho que o Harlei representa o que representa para o Goiás pela pessoa que é, não só quando está jogando, é um líder dentro do grupo e nos ajuda diariamente. Na minha carreira eu sempre fui marcado por ter que substituir goleiros, no Internacional foi o Clemer, quando fui para o Valencia foi o Cañizares, o César. São passagens que, coincidência ou não, acabam acontecendo na minha carreira. Fico feliz que quando escolham meu nome com relação a isso é porque me veem preparado para fazer essa função, chegar ao clube para substituir jogadores com história. Espero ser feliz aqui e conquistar os títulos.

Terra: E como é isso? Como é substituir esses ídolos?

Renan: Acho que você tem que saber o que representava esses jogadores, mas tem que trilhar o seu caminho. É claro que essas histórias estarão sempre próximas e ligadas, é muito difícil você começar pensando em fazer a mesma coisa que eles fizeram com relação à trajetória no clube. Tem que pensar em fazer o seu caminho, às vezes não vai conseguir o mesmo sucesso, mas sempre pensando em deixar uma passagem positiva no clube.

Terra: Você já percebe o carinho do torcedor com você, ou acha que existe um pé atrás por causa de ser o substituto do Harlei?

Renan: Com as pessoas que eu tenho convívio, com demonstrações depois de jogos ou depois dos treinos é sempre positiva desde que eu cheguei. O povo de Goiânia gosta muito de futebol e gosta muito do Goiás, cobra bastante, mas até hoje só recebi manifestações positivas e que me dão ânimo para seguir trabalhando.

Terra: Você é cria do Internacional, viveu muitos anos no clube. Como foi sua saída? Ficou alguma mágoa?

Renan: Não. Na verdade, eu tinha acabado de renovar meu contrato, tinha uma semana que eu tinha renovado com o Internacional, mas veio o interesse do Goiás, eu conversei com as pessoas, com o Marcelo Segurado (diretor de futebol), com o presidente (João Bosco Luz) e com o treinador, eles queriam muito que eu viesse para esta temporada para ajudar e a vontade de me sentir mais útil do que estava sendo no Inter. Mas não guardo mágoa nenhuma do Internacional. Pelo contrário, foram 17 anos dentro do clube, desde os nove anos de idade. Se sou jogador profissional devo àquele clube, até um pouco da minha formação como pessoa, como cidadão, por passar a maior parte da minha vida ali dentro. Nos momentos mais difíceis da minha vida, como na perda dos meus pais, eles se comportaram de maneira exemplar. Pelo contrário, eu não tenho um vírgula de negativo em relação ao Internacional.

Terra: Quando você saiu do Internacional para o Valencia foi cercado de muita expectativa. Por que não se firmou no futebol europeu?

Renan: No começo as coisas aconteceram muito bem, treinei quatro dias e estreei como titular para substituir o Cañizares que tinha se aposentado, ainda tinha o Timo Hildebrand, goleiro da seleção alemã. As coisas aconteceram muito bem, no primeiro semestre estávamos brigando com o Barcelona na liga e ainda estávamos nas quartas-de-final da Copa do Rei e na Copa da Uefa. Tive uma lesão grave e fique quase cinco meses afastado e nesse período aconteceu a coisa mais estranha e negativa na minha carreira, o clube mudou de dono duas vezes, o último que assumiu não queria jogadores extra-comunitários. Depois dessa lesão não tive mais espaço. Tinha situações para retornar para o Brasil, mas optei por disputar uma temporada no Xerez. Quando voltei vi que não teria mais espaço e voltei para o Internacional. Não sei se foi por eu não ter feito alguma coisa, ou porque as coisas não aconteceram mesmo. O Valencia é um clube complicado, hoje o Diego Alves, um goleiro de currículo invejável, não tem espaço também. Vejo que com isso perdi espaço na Seleção Brasileira, depois tive um problema pessoal com a perda dos meus pais, tudo isso foi somatório para que as coisas não acontecessem como eu queria e com a expectativa que se tinha.

<p>Arqueio foi revelado pelo Inter e teve que lidar com idolatrias em diversos clubes</p>
Arqueio foi revelado pelo Inter e teve que lidar com idolatrias em diversos clubes
Foto: Getty Images
Terra: Você voltou para o Internacional e o clube venceu a Libertadores, mas teve a zebra no Mundial com a derrota para o Mazembe. Aquela partida ainda te incomoda? Já detectou o motivo de o Inter não ter conseguido ganhar?

Renan: Acho que a nossa preparação não foi a ideal durante o Brasileiro. Nenhum time que ganha a Libertadores começa o Brasileiro bem, mas estávamos no G-4 e priorizamos as duas competições. Foi uma sucessão de erros, não conseguimos chegar no Brasileiro, chegamos ao Mundial abaixo do que precisávamos e acabou acontecendo aquele fatídico jogo, tivemos muitas oportunidades de ganhar, mas não conseguimos e isso ficou marcado na história do clube e da própria competição. Mas fica de aprendizado, no futebol brasileiro é assim, se valorizou muito mais a derrota no Mundial do que a conquista da Libertadores.

Terra: Você foi medalhista olímpico, ganhou o bronze em Pequim-2008. Por que acha que não ganhou mais chances na Seleção?

Renan: Eu tive três vezes com o Dunga depois dos Jogos Olímpicos, mas eu tive essa lesão, na época que fique cinco meses fora, e era reta final para a disputa da Copa das Confederações. Ele fechou o grupo dele ali com aqueles goleiros e eu acabei perdendo espaço, ainda mais por eu estar começando a trilhar esse caminho na Seleção. Foi uma experiência legal, foi bacana, é um sonho que todos vão manter enquanto tiver jogando em alto nível. Eu sigo com esse sonho, mas com os pés no chão e sei que tive um momento lá atrás e as coisas não andaram e as coisas são mais difíceis. Mas estando em um clube da Série A, com espaço e batalhando eu acho que ainda pode acontecer.

Terra: Você disse que está feliz no Goiás. Onde esse time pode chegar no campeonato?

Renan: Temos condições de chegar na parte de cima da tabela, próximo de Libertadores ou Sul-Americana. Acho que os resultados não têm nos acompanhado nas últimas rodadas, mas estamos brigando, não abaixa a guarda como foi nesse último jogo. É só ter mais atenção para não tomar gol no início, é continuar na luta, nesse pensamento forte, pois o campeonato está se desenhando com muita disputa do início ao fim. É seguir com o pensamento positivo para chegar onde queremos.

Fonte: MEI João Paulo Bezerra Di Medeiros - Especial para o Terra MEI João Paulo Bezerra Di Medeiros - Especial para o Terra
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