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Sucesso no futebol faz Kosovo sonhar com mais reconhecimento da independência

Perto de vaga inédita na Eurocopa, país supera impasses diplomáticos com geração que cresceu durante guerra

6 jan 2020
04h41
atualizado às 04h41
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O Brasil pode ter nos próximos anos como adversário em uma Copa do Mundo um país europeu que sequer tem sua existência reconhecida por aqui. A curiosa situação tem chance de se tornar possível pois enquanto no futebol a seleção do Kosovo melhora a cada ano e está prestes a disputar pela primeira vez uma Eurocopa, na parte diplomática o reconhecimento internacional da independência do território da antiga Iugoslávia evolui mais lentamente.

Com quase 2 milhões de habitantes, Kosovo pode ser chamado de país por alguns governos e de província da Sérvia por outros tantos. As autoridades kosovares declararam a independência em 2008, decisão reconhecida até hoje por cerca de 110 países, mas não por nações como Brasil, Rússia, Argentina e China. O futebol local também sofre os reflexos dessa dificuldade. A federação local demorou quase dez anos para receber a permissão da Fifa para montar uma seleção.

Apenas em maio de 2016, o Congresso da Fifa votou e autorizou Kosovo a disputar as Eliminatórias para Copa do Mundo e Eurocopa. A vitória política abriu chance para a equipe viver agora uma fase mágica. De forma surpreendente, a nação está na fase final de repescagem para a Eurocopa e em março pode sacramentar a classificação inédita. Para isso, será preciso superar Macedônia do Norte e depois passar pelo ganhador de Geórgia e Belarus.

Estar às portas da Eurocopa com apenas 12 anos de independência leva o país a viver um êxtase. "Na verdade nós fomos além das nossas expectativas, porque nosso time é jovem e não esperávamos esse sucesso. Mas nós acreditamos no talento dos jogadores e no nosso trabalho", disse ao Estado o presidente da Federação de Futebol de Kosovo (FFK), Agim Ademi. "A cada partida sempre temos de 50 a 60 mil pedidos por ingressos que não podemos dar conta por nossa limitação no estádio", completou.

A euforia kosovar se alimenta do orgulho nacional de quem luta para ser reconhecido. O país passou por uma sangrenta guerra no fim da década de 1990, quando a antiga Iugoslávia entrou em colapso e países da região como Bósnia e Croácia conquistaram independência. Kosovo tentou lutar pelo mesmo motivo, mas viu o território ser bombardeado e famílias inteiras fugirem para outros locais.

O êxodo dos kosovares inclusive se reflete na seleção atual. Dos 23 convocados na última data Fifa, 14 nasceram em outros países. Trata-se de uma geração que cresceu em países como Suíça e Alemanha enquanto a terra natal era destruída. "Os pais desses jogadores foram importantes para manter neles o patriotismo e a identidade de Kosovo. Os jogadores se esforçam para manter viva a conexão com o país e escolheram representar nossa bandeira", afirmou Ademi.

Após entrar na Fifa graças ao apoio público de países e jogadores influentes, Kosovo agora espera que os bons resultados da seleção ajudem o país a ganhar respeito internacionalmente. "O nosso sucesso desenvolveu o desejo e orgulho da nação, por mostrar que você pode conquistar tudo o que quer. A cada jogo nosso é um feriado nacional. As vitórias do time são celebradas como se fossem uma conquista de todo os kosovares", explicou o presidente da FFK.

O destaque da seleção é o artilheiro Vedat Muriqi, do Fenerbahçe, da Turquia. O jogador mais famoso é o meia Valon Berisha, da Lazio.

ATRITOS

Na campanha das Eliminatórias para a Eurocopa 2020, a equipe enfrentou uma situação insólita na partida contra Montenegro. Como o rival não reconhece a independência, o clima antes do jogo ficou tenso porque o treinador da equipe, Ljubisa Tumbakovic, e mais dois jogadores de origem sérvia se recusaram a participar da partida. Pela atitude, o técnico foi demitido dias depois.

Em 2015 o Brasil foi o pivô de um imbróglio diplomático com a nação balcânica. Segundo a BBC, a então presidente kosovar Atifete Jahjaga cancelou a vinda para participar de um evento global sobre mulheres em São Paulo após o visto dela emitido pelo governo brasileiro constar como registro a nacionalidade sérvia, informação tida como ofensiva.

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Estadão
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