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Leo Precioso durante evento social  Foto: Imagem cedida ao Terra

Ex-jogador do Corinthians ficou preso por oito anos e agora se dedica a ajudar detentos a não voltar ao crime

Por meio de sua iniciativa social, Leo Precioso já ajudou mais de 13 mil pessoas a reconstruírem suas vidas e a não retornarem ao crime

Imagem: Imagem cedida ao Terra
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21 jul 2026 - 04h58
Leo Precioso usa uniforme do Corinthians enquanto segura troféu
Leo Precioso usa uniforme do Corinthians enquanto segura troféu
Foto: Imagem cedida ao Terra

Léo Precioso realizou o sonho de muitos garotos: ele se tornou jogador de futebol.  De origem simples, seu pai era motorista e a mãe uma funcionária pública. A família vivia em Carapicuíba, na região metropolitana de São Paulo, o sonho dele começou a ganhar forma aos 7 anos, em 1989, quando participou de um campeonato na região. Por sorte, se destacou e chamou atenção de um treinador de basquete do Corinthians que viu a partida.

Indicado pelo profissional ao clube, passou a treinar futsal no Parque São Jorge, sede social do Corinthians, localizado no bairro do Tatuapé, na zona Leste de São Paulo. Logo, migrou para os gramados. A rotina de treinos era intensa, quatro vezes por semana ele precisava atravessar a cidade para marcar presença nas sessões de trabalho tático. Após dois anos nesse vai-e-vem, a família se mudou para o Itaim Paulista para reduzir o deslocamento.

“Eu vivi o futebol de alto rendimento durante 17 anos da minha vida”, relatou Léo ao Terra.

Ascensão

Leo Precioso usando uniforme do Corinthians
Leo Precioso usando uniforme do Corinthians
Foto: Imagem cedida ao Terra

Depois do Corinthians, Precioso defendeu o Palmeiras, o Juventus da Mooca e o São Caetano. Em 1999, seu último como juvenil, ele teve bons rendimentos no campeonato paulista da categoria que lhe renderam promoção ao time de juniores. Na mesma época, a equipe juvenil do São Caetano contemplava nomes que, posteriormente, marcariam o futebol de elite, como o lateral-esquerdo Roger Guerreiro, que chegou a defender a seleção da Polônia, e o volante Fabinho, campeão da Copa do Brasil de 2002 pelo Corinthians. 

Tudo parecia extremamente encaminhado, a história de Léo Precioso no esporte estava sendo escrita. Entretanto, em 2001, uma derrota do time para o Grêmio começou a mudar os rumos de sua carreira. Ali, parte do elenco foi dispensado, incluindo o jovem lateral. 

Ainda com o sonho de viver do esporte, ele passou a fechar contratos menores, foi lateral do Guaratinguetá (SP), Internacional de Bebedouro (SP), Campo Mourão (PR), Radium (SP) e do XV de Jaú (SP). A decepção mesmo aconteceu quando foi selecionado para atuar em um clube catarinense que, apesar de contrato firmado, não honrou os honorários.

“Eu rodei por vários clubes e em 2004 para 2005 eu tive uma decepção muito grande no mundo esportivo, [por causa da falta de comprometimento financeiro da organização, me decepcionei], acabei abandonando o meu sonho, deixei ali a profissão que eu acreditava que poderia mudar a minha vida e a vida da minha família”, disse ele.

Amigos do crime

Leo Precioso na juventude
Leo Precioso na juventude
Foto: Imagem cedida ao Terra

Com salários atrasados e dívidas, Léo voltou para São Paulo, para o bairro onde morava, o Itaim Paulista. Ali começou a se dedicar ao futebol de várzea que, apesar de longe do profissional, lhe rendia dinheiro para tentar pagar as contas fixas, como água, luz e mantimentos essenciais para a família. “Sem contrato, acabei entrando numa escassez violenta, uma vulnerabilidade social tremenda e eu só sabia jogar futebol, tinha passado a maior parte da vida me dedicando a isso. Comecei a atuar no futebol de várzea, então”. 

De acordo com Léo Precioso, mesmo sendo algo amador, o futebol de várzea garantia algum pagamento ao fim do jogo. Entretanto, toda essa situação lhe colocou em contato com ‘amigos’ do mundo do crime. “Num determinado momento, jogando por um time, os caras não tinham dinheiro para me pagar, eu acabei recebendo em quantidade de cocaína o pagamento dos jogos que eu fazia, porque eu tava vivendo desses jogos informais”.

“A partir daquele momento eu acabei me envolvendo no tráfico de drogas, então eu já não queria mais receber em dinheiro eu sempre queria receber em produto, em mercadoria, Porque eu percebi que aquele ‘giro’ estava me ajudando a pagar minhas contas, minhas dívidas. Foi uma época que eu tinha a conta de luz atrasada, água atrasada, a casa praticamente toda no gato e, com esse dinheiro, eu comecei a acertar as minhas contas ”

“Só que o mundo do tráfico de drogas, o submundo do crime, ele te dá com uma mão e te arranca com as duas” -- Léo Precioso

Leo Precioso posa com amigos em complexo penitenciário
Leo Precioso posa com amigos em complexo penitenciário
Foto: Imagem cedida ao Terra

Em 2008, após três anos lidando com ‘giro’ de drogas, Léo Precioso tomou a decisão de tentar algo mais audacioso dentro do mundo do crime. A quantia prometida era bem mais alta, assim como o risco de ser pego pela polícia. Nessa época, ele participou de um sequestro que acabou em prisão em flagrante. “Em 2008 eu acabei sendo privado da minha liberdade e foram 7 anos e 13 dias de cumprimento de pena, numa condenação de 8 anos”.

Ele consegue listar uma série de coisas que foram desafiadoras nesse período, a superlotação das celas, as diversas mudanças de complexo prisional, a escassez de itens básicos, o medo de adoecer por contato de colegas enfermos, porém, nada supera o fato de ter perdido o nascimento da filha, a quem apenas conheceu quando já tinha três anos, além de estar ausente durante tempos críticos de saúde de alguns familiares queridos.

“Nesse período, teve o nascimento da minha filha, teve também várias complicações de saúde da minha família. E as coisas passavam, né? A vida aqui fora continuou e a minha vida lá dentro também. Mesmo dentro da sociedade oculta, que é o sistema carcerário, também tive que dar continuidade à vida de alguma forma”.

Recomeço

Leo Precioso palestra sobre empreendedorismo social
Leo Precioso palestra sobre empreendedorismo social
Foto: Imagem cedida ao Terra

As coisas começaram a mudar para Léo Precioso quando um conhecido, Eduardo Lyra, fundador da Gerando Falcões, uma organização social que atua em periferias e favelas da Grande São Paulo, lhe procurou. Os dois se conheciam da infância e começaram a trocar correspondência. Em 2014, em uma saída temporária, ele foi conhecer o trabalho de Edu.

“A saída temporária, para mim, foi um divisor de águas, me deu oportunidade de me reencontrar e me conectar com a sociedade, com as oportunidades possibilidades e eu tive oportunidade de escolher ou continuava na criminalidade ou recomeçava a vida”, relatou.

Em 2015, quando ganhou liberdade, Léo foi atrás do amigo para tentar se posicionar no mercado de trabalho. Na época, ficou responsável por dar oficinas esportivas ao público da Falcões, como aulas de futebol, futsal e até boxe. “Com essa oportunidade que me deram, eu escolhi recomeçar a minha trajetória novamente em sociedade, trabalhando dentro de uma organização social, dentro de uma atividade que eu tinha experiência devido à minha história no futebol. A partir disso, eu recomecei a minha vida, recomecei a minha trajetória”.

Trabalhando dentro da instituição, Léo Precioso enxergou possibilidade de ampliar o trabalho que já estava sendo realizado, a ideia, além de trabalhar a prevenção, agora era criar uma iniciativa de ressocialização, visto que o ex-jogador conhecia pessoas do sistema. A partir disso surgiu a Recomeçar 360 como um braço da Gerando Falcões focado em qualificação de pessoas egressas, recolocação no mercado de trabalho e geração de renda.

“As pessoas [do sistema] vinham me procurar para outros fins, né, e se deparavam comigo trabalhando dentro de uma organização social, apoiando o trabalho e aí eu falava pros caras: ‘O corre agora é outro, o corre agora é trampar’. E as coisas começaram a crescer”. 

Leo Precioso posa como garoto propaganda da Oportunitá, pizzaria social
Leo Precioso posa como garoto propaganda da Oportunitá, pizzaria social
Foto: Imagem cedida ao Terra

Em 2020, a Recomeçar 360 deixou de ser um braço da Falcões e se tornou independente. Desde então, o projeto já ajudou mais de 13 mil pessoas a não retornarem ao crime. “A Recomeçar 360 passou a ser um instrumento de apoio à sociedade, colaborando muito com a segurança pública. Percebemos que a cada 500 pessoas que passam pela Recomeçar, 99% não retornam ao crime. E aí começamos a entender que o nosso trabalho estava impactando muito na sociedade, então estava colaborando na linha de produção de empresas, estava colaborando na economia, estava reestruturando famílias”. 

“Hoje temos até uma pizzaria social para que a gente possa formar pessoas no ramo de pizzaiolo, para fornecer mão de obra para o mercado de trabalho. Então, a gente tem uma formação também de pessoas que tiveram sua vida impactada pelo sistema criminal que a gente forma como novos empreendedores sociais. Temos todo um trabalho social feito”.

Por causa de seu trabalho com egressos, Léo Precioso alcançou algo que não conseguiu como jogador de futebol: se tornou inspiração para outras pessoas. Em 2023, ele foi um dos ganhadores do Prêmio LED da Fundação Roberto Marinho na categoria Empreendedorismo. Em 2025, foi indicado, aprovado, laureado, aclamado e diplomado, como Comendador pela Confederação do Elo Social Brasil pelo trabalho de ressocialização. 

“Dia 29 de abril de 2015 eu ganhei a minha liberdade e hoje já fazem 11 anos que eu tenho minha dedicação ao empreendedorismo social, na colaboração com a sociedade, sempre visando essa parte de segurança pública, entendendo que o combate em relação à criminalização é com educação e trabalho”. 

Ao centro, Leo Precioso e Cleo Pires posam juntos; atriz segura caixa da pizzaria social
Ao centro, Leo Precioso e Cleo Pires posam juntos; atriz segura caixa da pizzaria social
Foto: Imagem cedida ao Terra
Fonte: Portal Terra
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