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Entre a vida e a morte

A retomada do futebol fora de hora pode provocar sentimento inverso

18 mai 2020
05h13
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O futebol está entre a vida e a morte. Entre a vida e a morte de seus torcedores. Tenta se realinhar para oferecer distração enquanto o planeta continua enterrando seus mortos por causa da pandemia. No fim de semana, a bola voltou a rolar na Alemanha de uma maneira como não se tinha visto ainda desde que o mundo se dobrou diante da covid-19. Não parecia futebol. Nem mesmo para quem estava em campo. Na torcida não tinha ninguém. A sensação era de um vazio sem precedentes. E na TV, confesso que foi estranho esperar boas jogadas e gols, além de um pouco de alegria, em meio a essa doença e cenas terríveis que não nos saem da cabeça.

Será que temos o direito de nos divertir e torcer no futebol enquanto o vírus da morte não for controlado ou combatido de vez como tantos outros que apareceram na humanidade antes dele?

Durante alguns momentos nas partidas da Bundesliga, achei que não. Isso vai ser um questionamento comum de agora em diante aos nossos sentimentos, quando outros campeonatos europeus vão ser retomados, como o Italiano, Espanhol e o badalado Inglês, até chegar no Brasil, primeiramente os Estaduais e depois o Brasileirão 2020.

Temo que o próprio futebol esteja entre a vida e a morte se ele recomeçar fora do seu tempo, antes da hora, sem sintonia com o restante do mundo. Temo que as pessoas olhem para as jogadas, e toda a movimentação do balé de seus personagens em campo, como algo negativo, sem propósito nos dias atuais. Isso colocaria o esporte mais popular do mundo, e também o mais apaixonante, contra a parede.

Porque não basta a TV mostrar, os atletas aceitarem a jogar e todos os envolvidos na partida fazerem sua parte se o grande interessado não estiver preparado e a fim, o torcedor. Sem ele não tem futebol. É para ele que se joga, embora algumas pessoas achem que não.

Nas próximas semanas, o futebol será jogado em países que sofreram muito e ainda sofrem com a pandemia. Refiro-me a dois deles: Itália e Espanha. São povos que amam o futebol, mas que estão anestesiados com tantas mortes e sofrimento. Temo que a necessidade de retomar a modalidade nesses lugares provoque o efeito contrário à sua intenção. A não ser que a única intenção seja financeira, que é legítima e importante para a volta da vida após o pico da doença, mas que pode despertar sentimentos errados.

O Brasil vai entrar nesta mesma situação em breve. Diferentemente da Europa, o País vive bagunça administrativa como há muito não se via. E cada um vai por um caminho no futebol.

Aqui, a retomada vai se dar por questões financeiras dos clubes e dos profissionais que dependem do futebol. Há muita gente que vive da modalidade. Sem jogos, não há salário. O futebol ainda não está nos serviços essenciais defendidos pelo presidente da República, Jair Bolsonaro, como manicures e barbeiros. Mas há um forte interesse do seu retorno pelos clubes, que passam o pires sem dinheiro das cota de televisão, das bilheterias e da venda de produtos da marca.

Temo mais uma vez que essa "forçada de barra" para que o futebol brasileiro volte, por questões unicamente econômicas, atrapalhe mais do que ajude nesse momento ainda de incertezas com a doença. Temo que as pessoas que gostem de futebol não estejam totalmente preparadas para a sua retomada como meio de entretenimento e disputa, porque nesse momento parece que ganhar ou perder pouco importa.

E se divertir não combina com a situação. O futebol não pode perder sua graça, grandeza e o amor de seus seguidores forjados nos últimos 100 anos. Temo que sua volta antes do tempo provoque sentimento inverso ao que se espera. O futebol não pode ser avaliado só como meio econômico. Ele é mais do que isso.

Estadão
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