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Brasileira se prepara para disputar ultramaratona mais tradicional do mundo

Fernanda Macield, 39 anos, pratica este tipo de esporte há dez anos e conta ao 'Estado' rotina de treinos, sensação ao competir e estilo de vida

20 ago 2019
04h41
atualizado às 13h05
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Imagine correr por 170km em uma trilha com 10km de desnível na vertical enquanto cruza três países - começa na França, passa por Suíça e Itália e volta para a França. É para esse desafio que a brasileira Fernanda Maciel, de 39 anos, está se preparando nos últimos dois meses: a ultramaratonista vai disputar a Ultra Mont-Trail du Blanc, prova mais tradicional do esporte, no dia 30 de agosto.

Por isso, há dois meses, Fernanda está correndo entre montanhas próximas ao local da corrida, ainda mais altas do que as montanhas vai ter de enfrentar: a prova ocorre entre 2000 e 3000 metros de altitude nos Alpes, e ela treina em outras de 4000 metros. Também tenta se acostumar com a amplitude térmica: como a prova dura muitas horas, é normal que esteja calor e depois esfrie conforme vai subindo os morros. Além disso, a brasileira mantém a dieta regrada de atleta e anda de bicicleta para poupar os tendões.

Nada disso é novidade para Fernanda Maciel. Ela já fazia corridas de aventura, mas começou na ultramaratona há dez anos, por iniciativa de uma marca de roupas americana, a The North Face, que procurava quatro corredoras brasileiras para participar de uma competição do tipo na Califórnia, nos EUA. Acabou se apaixonando pelo esporte.

Nesses dez anos, ela já ganhou algumas corridas importantes, como a do Monte Fuji, no Japão, a das Montanhas Dolomitas, na Itália, e a da Transgrancanarias, arquipélago da Espanha, no oceano Atlântico. Bateu recordes nos montes Aconcágua (mais alto da América do Sul) e Kilimanjaro (mais alto da África). Também já foi vice-campeã mundial do circuito de ultramaratonas, em 2014, e venceu a própria Ultra Mont-Trail du Blanc, mas na categoria de 120km.

E como fazer para completar trajetos tão exaustivos? "Fazer uma coisa de cada vez. Acelerar, parar, diminuir, comer, depois só chegar", ensina. "Para não gastar energia, limito até os pensamentos e sigo somente 'no flow'. Paro só para pegar alimento nos pontos determinados. É preciso ter muita força física e psíquica, e saber equilibrar os dois", explica Maciel.

"O controle mental e emocional é fundamental. Não se deixar abalar quando está em último, não se deixar deslumbrar quando está em primeiro. Não tenho fome, porque o estômago dói com o exercício, às vezes sinto que faltam forças, mas chegar é a melhor coisa do mundo", completa.

Para Fernanda, não há sensação melhor do que chegar e ver que foi uma jornada de aprendizado. O primeiro pensamento depois de cruzar a linha de chegada é simples. "Uau! Eu consegui. É uma sensação de trabalho bem feito. Penso nas condições da montanha, penso nas pessoas que me apoiam. É muito louco, é uma paixão pelo esporte que vem do nada, uma explosão", descreveu.

Depois que terminam as provas, ela volta para uma vila de 40 pessoas nos Pirineus, região da Espanha próxima à fronteira com a França. Mas segue a rotina regrada, de treino e alimentação, e, para impedir a inflamação das articulações de joelho e tornozelo, mergulha as pernas num rio glaciar após as corridas. Também pratica pedalada, alpinismo e yoga, tudo pensando nas ultramaratonas.

O esporte não é a única fonte de renda de Fernanda. Além da ultramaratona, ela também gere uma empresa de importação para o Brasil junto com o irmão e, duas vezes por ano, dá aulas magnas de nutrição esportiva na Universidade de Barcelona. Já foi advogada ambiental no Brasil, trabalhando para a Fundação Estadual do Meio Ambiente de Minas Gerais. Tentava proteger principalmente a Serra do Cipó, onde cresceu e começou a amar as montanhas.

Para o futuro, Fernanda vê duas coisas: uma possibilidade de vencer neste ano o título do circuito mundial, que tem 18 provas e leva em conta os dois melhores resultados das atletas nas provas mais difíceis (a própria Ultra Mont-Trail du Blanc é uma das com melhor pontuação) e seguir no esporte por vários anos ainda - para isso, tende a ser mais seletiva com as corridas que escolhe e, além disso, aproveitar a experiência de que já dispõe para seguir no esporte que ama.

Estadão
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