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A instrumentalização do espetáculo

Brasil registra quase 500 mil mortos pela pandemia do novo coronavírus e, apesar da crise sanitária, é sede da Copa América

19 jun 2021 05h10
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As manifestações que chacoalharam a política em 2013 e deram início a um longo processo que acabou por derrubar a presidente da República tinham como um de seus motes principais a contradição em se gastar bilhões com a construção de estádios luxuosos em um país em que faltavam hospitais.

Nove anos depois, nos deparamos com um cenário que muito nos remete a esse passado recente: a decisão de sediar a Copa América em solo nacional durante uma pandemia que já matou quase 500 mil brasileiros.

O Brasil se tornou um laboratório a céu aberto para a produção de novas variantes do vírus, com UTIs e cemitérios cheios e geladeiras cada vez mais vazias. Depois de o governo haver recusado ofertas de vacinas dezenas de vezes, a imunização da população segue a passos lentos, enquanto o nível de desemprego bate recordes e o preço dos alimentos dispara.

Apesar de deixar os e-mails dos fabricantes de vacina sem resposta por meses, Bolsonaro demorou apenas algumas horas para reagir ao contato das Confederações Sul-americana e Brasileira de Futebol (Conmebol e CBF, respectivamente), aceitando a realização emergencial da competição.

O torneio estava programado para ocorrer nos vizinhos Argentina e Colômbia, mas ambos rejeitaram a proposta. Os "hermanos" por conta da crise sanitária e os colombianos em razão dos protestos contra o governo que vêm paralisando o país.

Na contramão, a direção da CBF, instituição notória por seus escândalos: três de seus ex-presidentes foram afastados por denúncias de corrupção, um deles sendo preso nos EUA. O atual é acusado de ter chamado uma funcionária de "cachorra" e ter oferecido biscoitos caninos a ela, além de perguntas e comentários sexuais inaceitáveis.

A competição ocorre em quatro estados brasileiros: Mato Grosso, Rio de Janeiro, Distrito Federal e Goiás. Em comum, além da proximidade de seus governadores com Bolsonaro, uma estatística: a média de óbitos por habitante de todos os colocaria entre os dez países com mais mortes do mundo, com níveis muito mais críticos do que os países que abdicaram de sediar os jogos. Acrescente-se a isso os protestos contra o governo que tomaram as capitais brasileiras há poucas semanas, e tem-se uma decisão ainda mais absurda. Por muito menos, há pressão para novo adiamento da Olimpíada em Tóquio.

A instrumentalização do futebol como forma de distração do caos social é um recurso antigo, utilizado inclusive pela ditadura que Bolsonaro tanto exalta - até a tentativa de mudar o treinador da seleção por alguém alinhado ideologicamente ao governo repete o que Médici fez com João Saldanha em 1970. A realização de um evento que não trará turistas, não gerará empregos e exporá ainda mais o país ao vírus não faz o menor sentido, mas é cortina de fumaça poderosa para um governo em crise, que encara protestos pedindo seu impeachment.

Para além do perigo de aumento da contaminação como consequência da competição (até quinta-feira eram 65 casos positivos segundo a própria Conmebol) as delegações), a sensação de normalidade que o governo tenta, mais uma vez, impor, logo demonstrará ser o que é: ilusória e, por isso mesmo, passageira.

Como nas manifestações de 2013, Bolsonaro coloca em contraste a saúde da população com o espetáculo do futebol. Como há quase uma década, não faltam faíscas que possam nos levar à combustão social - estamos chegando a meio milhão delas.

*Tabata Amaral é deputada federal por São Paulo; Chico Paiva é relações públicas

Estadão
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