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Famílias reclamam de omissão do Fla após 6 meses do incêndio

Familiares das vítimas fatais questionam ausência de diálogo da diretoria do Flamengo. Acordos estão travados

8 ago 2019
04h42
atualizado às 09h20
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Exatamente seis meses após um incêndio de grandes proporções nas instalações do Ninho do Urubu deixar 10 atletas mortos e três feridos, a maioria das famílias das dez vítimas fatais ainda não foi indenizada pelo Flamengo e as negociações estão travadas. Por enquanto, o clube entrou em acordo para indenizar apenas os familiares de Athila Paixão e Gedson Santos, além do Pai de Rykelmo Souza - no entanto, não houve acordo com a mãe - e dos 16 sobreviventes.

O Estado conversou com Rosana Souza, mãe de Rykelmo, e com as outras sete famílias que ainda não foram indenizadas. Os pais e mães dos garotos divergem quanto à possibilidade de um acordo. Alguns estão otimistas em resolver a situação sem ir à Justiça, outros não veem dessa forma, como é o caso de Rosana, que já entrou com um processo judicial. Um ponto, no entanto, une todos eles, conforme disseram ao Estado: a omissão e o descaso da diretoria do Flamengo na questão.

Fachada do centro de treinamento presidente George Helal, popularmente conhecido como Ninho do Urubu, ou ainda CT da Vargem Grande
Fachada do centro de treinamento presidente George Helal, popularmente conhecido como Ninho do Urubu, ou ainda CT da Vargem Grande
Foto: ILAN PELLENBERG/FRAMEPHOTO / Estadão Conteúdo

"O Flamengo está irredutível e as famílias estão muito indignadas com a diretoria pela ausência total de diálogo. Estão se sentindo abandonados", diz o defensor público geral do Estado do Rio de Janeiro, Rodrigo Pacheco. "Deveríamos ser melhor tratados, mas infelizmente isso não aconteceu", reclama Cristiano Esmério, pai do goleiro Christian, que morreu aos 15 anos. Seu filho era uma das maiores promessas de sua geração e colecionava convocações para a seleção brasileira de sua categoria.

Assim que as mortes foram confirmadas, a Defensoria Pública do Rio, o Ministério Público Estadual e o Ministério Público do Trabalho foram chamados pelo Flamengo para costurar um acordo. No entanto, o clube, que paga uma ajuda mensal de custo de R$ 5 mil às famílias, não concordou com a proposta apresentada pelos órgãos na ação coletiva e passou a negociar individualmente, de modo que, estabelecendo um parâmetro de indenização com uma das famílias, se fortaleceu para não negociar valores superiores com os demais. Há uma cláusula de confidenciabilidade que protege a divulgação dos valores.

Incêndio deixou dez mortos e três pessoas feridas, uma delas em estado grave, no Centro de Treinamento do Flamengo, em Vargem Grande, Zona Oeste do Rio de Janeiro, na madrugada desta sexta-feira (08/02/2019)
Incêndio deixou dez mortos e três pessoas feridas, uma delas em estado grave, no Centro de Treinamento do Flamengo, em Vargem Grande, Zona Oeste do Rio de Janeiro, na madrugada desta sexta-feira (08/02/2019)
Foto: FÁBIO MOTTA/ESTADÃO CONTEÚDO / Estadão Conteúdo
No momento, o defensor representa a família do lateral Samuel Rosa, e garante que não há outra opção a não ser a via judicial para conseguir a reparação financeira. "O único caminho que temos é o do judiciário. É péssimo esse caminho porque é uma ação que não vai durar menos de 10 anos", lamenta Pacheco. À frente da Defensoria Pública, ele e o MP do Rio entraram com uma ação dias após a tragédia pedindo o bloqueio de R$ 57 milhões das contas do Flamengo, mas a Justiça ainda não deu uma resposta.

Um dos motivos para que as negociações não avancem é a espera pela resolução do inquérito da Polícia Civil que investiga os responsáveis pelo incêndio no CT do Flamengo. Recentemente, o MP do Rio não denunciou os dez indiciados no caso, incluindo o ex-presidente do Flamengo Eduardo Bandeira de Mello, e solicitou que o inquérito retornasse à 42ª Delegacia Policial do Recreio dos Bandeirantes para que as investigações fossem aprofundadas. O prazo estipulado pelo MP vence no início de setembro.

"Tivemos um contato há 40 dias, mandamos uma propostas e o clube ficou de analisar. Estou aguardando uma resposta deles", explica Darlei Pisetta, pai do goleiro Bernardo. "Posso te afirmar que o que estamos pedindo é um valor menor do que o Ministério Público propôs ao Flamengo (no começo das negociações)", garante. Pisetta é um dos mais otimistas quanto a um acordo, mas também não se mostrou satisfeito com a ausência de diálogo dos dirigentes. Pai do zagueiro Pablo Henrique, Edson Cândido tem um posicionamento semelhante ao de Pisetta. Apesar de também ressaltar a indiferença da direção, ele espera um desfecho positivo. "Estamos aguardando", comenta.

Quem se mostrou completamente descontente com a postura do clube carioca são os familiares do volante Jorge Eduardo. "O Flamengo tem tratado o assunto com muita distância, sem intenção nenhuma de resolver a questão", afirma o advogado Henrique Wolff, que representa a mãe do garoto. Já o defensor Alexandre Soares, à frente das negociações da mãe do zagueiro Arthur Vinícius, diz que a diretoria sequer o procurou para oferecer uma proposta. "Caso não tenha acordo, a Justiça será o caminho".

"SÓ QUERIA UM POUCO DE RESPEITO"

Josete Valda Adão é avó do atacante Vitor Isaías. Ela tinha a guarda do menino e o tratava como filho, já que o criou desde os oito meses de idade. Josete, que reside em São José-SC, viajou pela primeira vez de avião em razão da morte do filho de consideração. Ela foi ao Rio na audiência de conciliação e saiu indignada com o que viu.

"Estou triste com a posição do Flamengo. É uma coisa tão pequena. As pessoas chegam em mim e me dizem: "Olha, Jô, está vendo o Flamengo comprar um monte de jogador e vocês ficando para trás?"", contesta, recordando-se dos milhões gastos recentemente pelo clube em contratações. Vitinho, Arrascaeta e Gerson, três dos principais reforços da equipe, custaram, juntos, cerca de R$ 150 milhões.

"Não tem nada que pague a morte do meu filho. Era um filho pra mim. É muita dor, só queria um pouco de respeito. Não só pelo meu, mas por todos os dez", diz, em tom de lamúria.

Familiares e amigos das vítimas fazem uma oração em frente ao Centro de Treinamento do Flamengo, em Vargem Grande, zona oeste do Rio de Janeiro, onde um incêndio deixou dez mortos na madrugada desta sexta-feira (08/02/2019)
Familiares e amigos das vítimas fazem uma oração em frente ao Centro de Treinamento do Flamengo, em Vargem Grande, zona oeste do Rio de Janeiro, onde um incêndio deixou dez mortos na madrugada desta sexta-feira (08/02/2019)
Foto: ADRIANO FONTES/AM PRESS & IMAGES / Estadão Conteúdo

MEMÓRIA

Há duas semanas, o defensor público Rodrigo Pacheco escreveu uma carta no site The Intercept Brasil. O texto fazia um alerta para que a torcida do Flamengo preservasse a memória dos dez meninos mortos, ao contrário do que tem feito a diretoria do clube rubro-negro.

"A diretoria quer que essa tragédia seja esquecida, quando na verdade deveria promover homenagens a esses garotos. A última esperança para a diretoria se sensibilizar é a pressão das arquibancadas", avalia Pacheco.

De fato, boa parte da torcida não se esqueceu do que aconteceu no dia 8 de fevereiro. Alguns torcedores do Flamengo se organizam para lançar uma campanha que tem como objetivo manter viva a memória das vítimas por meio de ações nas redes sociais e homenagens no próximo jogo do time carioca no Maracanã, marcado para este sábado, contra o Grêmio.

OUTRO LADO

Ao Estado, o vice-presidente geral e jurídico do Flamengo, Rodrigo Dunshee, afirmou que, logo após a tragédia, o presidente Rodolfo Landim colocou um staff grande à disposição das famílias, ressaltou que os advogados do clube estão em contato direto com os representantes legais dos familiares dos garotos e a disse que a proposta aceita por duas famílias e o pai de Rykelmo também foi apresentada para todos os outros.

Segundo Dunshee, "o passo inicial para que as conversas resultem num acordo é as pessoas entenderem que, embora o Flamengo seja responsável, ele não teve culpa e intenção de prejudicar ninguém". O vice do clube carioca disse, ainda, que as famílias "têm um tempo de maturação nessa situação" e se mostrou otimista quanto à possibilidade de consenso entre as partes.

Rodrigo Dunshee garantiu que o Flamengo tem vontade de organizar eventos e homenagens para os garotos, mas isso tem de ser feito com a anuência dos familiares e com a participação deles.

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Estadão
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