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Edênia Garcia: Nordestina, cadeirante, gay e tetra no Parapan

Especialista nos 50m costas, nadadora falou em entrevista ao Estado pela primeira vez sobre sua orientação sexual

28 ago 2019
16h50
atualizado às 17h22
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Edênia Garcia, 32 anos, é uma das principais referências da delegação brasileira em Lima. Tetracampeã parapan-americana nos 50m costas, coleciona mais de 300 medalhas ao longo da carreira, segundo as contas infalíveis de sua mãe. A longa experiência deu bagagem para encontrar atalhos em busca de melhor performance na água e também equilíbrio no momento de se posicionar.

Além de passar muitas horas de seu dia a contar ladrilhos no fundo da piscina, ela é palestrante e luta por diretos iguais. Mulher, nordestina, nascida no Crato, interior cearense, e cadeirante por problema congênito, ela falou ao Estado pela primeira vez sobre sua orientação sexual.

Edênia Garcia na comemoração de seu ouro no Parapan de Toronto
Edênia Garcia na comemoração de seu ouro no Parapan de Toronto
Foto: Washington Alves / MPIX / CPB

"Meu posicionamento é muito em causa própria. Procuro não criar polêmicas, ser sutil. A gente percebe o grupo que pertence. Sou LGBT, compartilho algumas coisas, mas não chego gritando que sou LGBT. Minha sexualidade não diz respeito a todo mundo. Meu posicionamento não é de enfrentamento a nada. Tento educar aqueles que não têm conhecimento nenhum da causa, da comunidade. Quero que entendam e conheçam e vejam que não há nada de diferente. Ser diferente é normal. Ninguém é igual", disse.

Edênia também comentou as mudanças que precisou fazer ao longo da carreira por causa da evolução da doença congênita, a atrofia fibular muscular, que afeta até a maneira como respira, o diferente ponto de vista de quando estreou em Mar Del Plata-2003 para agora em Lima e a expectativa, é claro, para a conquista do quinto ouro parapan-americano:

Edênia Garcia vai em busca do quinto ouro em Parapans
Edênia Garcia vai em busca do quinto ouro em Parapans
Foto: Daniel Zappe / Exemplus / CPB

O que mudou no esporte paralímpico de sua estreia para agora?

Comecei muito jovem. Ver essa transformação é interessante. Tem gente muito forte competindo hoje, batendo o recorde da Américas todo dia. O cenário mudou completamente. Está bem mais profissional e eu fico muito feliz de ainda estar na ativa e ver toda essa transformação.

Como que a experiência ajuda a seguir em alto nível?

Experiência conta muito. Consigo ter mais autocontrole, saber o que é prioridade. Na Vila, o refeitório tem todo tipo de comida. A gente sabe o que priorizar para comer, como descansar. O legal é perceber que vai adquirindo essa experiência e usá-la a nosso favor.

Como você era em Mar Del Plata?

Sempre tive muito claro o que tinha que fazer. Mas não tinha muita noção do que priorizar. Por exemplo, a Vila é muito bonita, então saía para andar, me cansava e não chegava 100% para a prova. Quando você é jovem quer aproveitar tudo, quer ver tudo e hoje é diferente, consigo ter essa ideia muito clara de prioridade.

O que precisou mudar por causa da evolução do seu problema?

A minha voz está um pouco mais fraca. Estou tratando as dores no diafragma com osteopatia, que ajuda a soltar musculatura. Minha síndrome é na parte digital periférica e ela vai centralizando. Estava sentindo dor para respirar, usando muito o peito, estava machucando muito. Tenho feito alongamentos e não fico muito sentada. Com o esporte de alto rendimento essa evolução da doença é mais rápida. E eu não sabia disso até dois anos atrás. Estou com 32 anos, com a idade a tendência é diminuir treino e aumentar a intensidade, priorizar a qualidade e o descanso.

E como está a expectativa para ir em busca do penta?

Estou me preparando psicologicamente para nadar o mais próximo possível do que a gente tem treinado diariamente. Os 50m costas é a prova que é meu xodó. Na sequência (em setembro) tem o Mundial (em Londres) que também campeã. Vamos ver se vem o tetra lá. Não garanto nada, mas vou chegar forte.

Você costuma se posicionar nas palestras e nas redes sociais. Outro dia escreveu: não podemos naturalizar o absurdo.

É muito comum hoje em dia ver o racismo, o preconceito, a homofobia sendo tratado de uma forma comum por algumas pessoas da nossa sociedade. A gente tem que estar seguro do que é certo e errado. Se o que é errado passar a ser certo a gente vai deixar de viver em sociedade. A gente vai regredir, nos tornar primitivos. Temos que tomar muito cuidado com as palavras e atitudes para não machucar o outro.

O que te incomoda hoje?

Sou LGBT e procuro me posicionar quanto a isso. É a primeira vez que falo sobre isso em uma entrevista. Meu posicionamento é não deixar que o ódio tome conta da gente e isso se torne natural. Tem de defender a humanidade nas pessoas. Entender que se o outro está ali tem que respeitar. Venho do esporte paralímpico que a gente trabalha a inclusão desde o início, desde a sua raiz. Então, se eu deixar que o preconceito entre em mim, vou na contramão do que vim fazer. Venho do movimento que prega igualdade, respeito. Não podemos naturalizar o absurdo, esse discurso do ódio.

Acha que estamos evoluindo nessas questões?

O diálogo melhorou muito. A gente fala abertamente sobre vários temas. O diálogo aumentou, mas tem uma parcela da população que ainda carrega um preconceito. Porque não conhece, não convive. Dá para entender esse preconceito. O que eu defendo é que todos estejam abertos ao novo. Temos que avançar na questão do acolhimento às minorias também.

Mulher, nordestina, cadeirante e gay...

Pois é... Meu posicionamento é muito em causa própria. Procuro não criar polêmicas, ser sutil. A gente percebe o grupo que pertence. Me identifico como LGBT, compartilho algumas coisas, mas não chego gritando que sou LGBT. Minha sexualidade não diz respeito a todo mundo. Você percebe que faz parte de um grupo e identifica as dificuldades que há nele para existir e então começa a se posicionar. O meu posicionamento não é de enfrentamento a nada. É para que apenas as pessoas entendam o que significa a nossa vivência no mundo. Quero que as pessoas vejam nosso modelo, nossa visão. Meu posicionamento é de tentar educar aqueles que não têm conhecimento nenhum da causa, da comunidade. Quero que entendam e conheçam e vejam que não há nada de diferente. Ser diferente é normal. Ninguém é igual.

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Estadão
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