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Muricy Ramalho: 'Ficamos com a força dos europeus e eles com a nossa técnica'

Em entrevista ao 'Estado' para a série FUTEBOL EM DEBATE, ex-técnico multicampeão no Brasil e atual comentarista vê falta de comando e incompetência dos dirigentes como um dos problemas do futebol brasileiro

24 abr 2019
09h11
atualizado às 09h11
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Um dos técnicos mais vencedores do futebol nacional nos últimos 20 anos - só o Brasileirão ele ganhou quatro vezes -, Muricy Ramalho vê com tristeza a situação do esporte no País e tenta encontrar motivos para a seleção brasileira ter perdido sua importância no cenário mundial. A incompetência dos dirigentes e a falta de comando dos treinadores estão entre os principais motivos da queda de qualidade no futebol do Brasil. Essa é a opinião do hoje comentarista, quinto entrevistado pelo Estado na série especial Futebol em Debate.

Muricy Ramalho cobra mais pulso firme dos treinadores brasileiros
Muricy Ramalho cobra mais pulso firme dos treinadores brasileiros
Foto: Mariah Schmidt/Divulgação / Estadão

Como você avalia o futebol brasileiro?

A gente sempre analisa depois de uma Copa e nossa Copa foi um desastre. Claro que precisamos fazer uma reflexão e tentar mudar algumas coisas, mas isso demora. A CBF vai mudar para uma coisa boa. Chegou um cara jovem e correto, o Rogério Caboclo. Isso é fundamental. O resto tem que esperar um pouco. O que mais tem dificuldade no futebol brasileiro é que a maioria dos jogadores aparece, já vai embora, e a gente sente a falta da qualidade. Se a gente trouxesse todo mundo de volta, teríamos um dos melhores campeonatos do mundo, mas não é assim. O futebol brasileiro está parado, porque a gente revela, o cara vai embora e ficamos na mesma.

Teve a tal mudança após o 7 x 1 como prometido?

Está se mudando aos poucos. Técnicos mais experientes estão parando e os jovens estão chegando. A renovação não é tão fácil. Tem que preparar uma geração para assumir o futebol e não se faz do dia para a noite. Os times não têm uma filosofia de trabalho e a maioria dos clubes são dirigidos por amadores. A nossa gestão não é boa e não era também na CBF, mas agora vai ficar boa. Estamos engatinhando. A gente vê muito discurso, palavras bonitas, mas dentro de campo, não tem novidade.

Você gosta de técnicos estrangeiros no Brasil?

Eu vejo como técnico. Não quero saber se ele é japonês, argentino, para mim não interessa. Passaram técnicos estrangeiros e não deram certo, mas no Brasil a gente vai muito por onda. Depois da Copa, foi a onda dos estrangeiros, mas mandaram todo mundo embora e ninguém servia. Depois, foram os jovens, que também não deu muito certo. Agora estão voltando os experientes. Temos só um estrangeiro (Sampaoli), que é bom. Temos que olhar para a qualidade dele e não para onde ele nasceu.

O que está pior no Brasil: nível dos jogadores, dos dirigentes ou dos técnicos?

É um pouco de cada. Os clubes precisam se organizar, ter filosofia, trabalho e conceito de jogo. Por exemplo, eu passei um tempo no Barcelona e eles tem um conceito de jogo há mais de 20 anos. Não é o treinador que vai mudar isso. Aqui ninguém tem ideia nenhuma. Às vezes, contratam o técnico da moda, não dá certo e contratam outro. Tem que ter filosofia, para depois ir atrás de um técnico. No mundo todo não mudou muita coisa.

Temos visto muitos times brasileiros na retranca. Isso é medo do treinador perder o jogo e o emprego?

Não tenho a menor dúvida. Tem a insegurança dos contratos. Eu, depois de anos, passei a ter multa, mas os mais jovens não tem essa segurança. O cara faz contrato de dois anos, é mandado embora amanhã e não acontece nada. Trabalhar sem segurança você não consegue trabalhar direito, então o jeito é se proteger. Joga pelo resultado? Sim, só pelo resultado, porque se não tiver resultado, ele é mandado embora.

Você acredita que a seleção brasileira perdeu a identidade?

O que aconteceu é que de uns anos para cá, os europeus vieram para o Brasil buscar a nossa técnica e como jogar bonito. Eles tinham a força, a educação e a leitura de jogo, mas faltava a qualidade. Eles vieram aqui,estudaram e melhoraram a qualidade deles e nós fizemos o contrário e fomos buscar a força deles. Inverteu tudo. Ficamos com a força dos europeus e eles com a nossa técnica.

Acredita que o Brasil perdeu o respeito dos rivais?

Ninguém mais respeita. O Brasil virou um time normal, que não ganha de uma seleção europeia a muito tempo, principalmente em Copa do Mundo. Antes, os europeus tremiam e a gente botava medo, mas a verdade é que há muito tempo o Brasil não é mais o melhor do mundo.

Como você vê o Neymar: um jogador mimado ou cobrado em excesso?

Eu vou falar do Neymar que eu conheço, com quem trabalhei no Santos e depois vi de perto no Barcelona, no período em que fui lá, conhecer. Ele é fora de série. É um cara educado e focado no trabalho. O que não dá para opinar, mas todo mundo opina, é sobre o dia a dia dele no PSG. No Carnaval, por exemplo, eu não sei se ele teve autorização para vir para cá. Se eu fosse o treinador ou dono do PSG, eu falaria para ele não vir. Como falei algumas vezes no Santos e ele aceitou numa boa. AS pessoas têm que saber que os craques não dão problema. O que dá problema são os "mais ou menos". Neymar, Rogério Ceni, Fernandão... todos os caras grandes com quem trabalhei não davam trabalho. Joguei futebol e as pessoas têm de ser cobradas pelo que faz em campo. Se fora, ele está levando uma vida que está atrapalhando, precisa ser chamado. Se ele chega cedo nos treinos, fica mais tempo que os outros jogadores treinando, cumpre todos os compromissos dele com o clube e comercial, não tem o que falar. Não acho que ele é mimado, ele é uma pessoa que gosta de se divertir, nunca foi de beber, gosta de sair com mulheres, que bom, né? Nunca foi de exagerar nada, tinha condição física excelente.

Hoje, a gente vê muitos casos de jogadores 'peitando' treinadores e dirigentes. Falta pulso firme no futebol brasileiro?

Nessa renovação de técnicos, a gente está com dificuldade nisso. Todos os técnicos estudam, sabem de tática, técnica, do psicológico, mas tem uma coisa que se o treinador não tiver, ele vai trabalhar em time pequeno o resto da vida: comando. O Telê (Santana) foi um dos melhores porque tinha comando. Jogador é um profissional como outro qualquer, que precisa dar o melhor. No Brasil, o jogador faz coisa errada, o dirigente abraça o cara e manda o técnico embora. Nunca abri mão e jogadores nunca brigaram comigo, porque eles viam que era para o bem deles. Acaba o ano, a gente é campeão e o jogador se valoriza e ganha mais. Infelizmente, a gente não vê cobrança. Tem muito papinho, palavras bonitas, falam de conceito e tal, mas não acontece nada. Jogador é expulso quando quer, faz biquinho quando sai de campo, o que é ridículo. Chuta copinho de água... E essas coisas faz uma diferença absurda no futebol. Não se discute comando no futebol brasileiro. Isso é fundamental. Se você é presidente em um empresa e não tem comando, você está morto.

Falta o jogador ter mais vontade de ser campeão e não só em ganhar dinheiro?

As relações vão mudando. A minha geração jogava porque a gente gostava. Ganhávamos pouco, era quase impossível ir para fora e seleção era difícil, porque tinha muitos bons jogadores.Nessa geração, os caras começam na base e não pensam em seleção ou ser profissional no clube. Eles pensam na Europa. Eu vejo a seleção um pouco fria. Estive na Copa, fiz Eliminatórias e vi que eles jogam bem e tudo, mas falta aquela coisa de gostar de estar ali, como é na várzea, coisa de amador mesmo. Você vê um time frio e isso não vai mudar, porque é um caminho sem volta. A modernização faz eles pensarem só em ganhar dinheiro.

Isso ajuda a explicar o motivo de Vinicius Junior, David Neres, Luiz Araujo, entre outros, irem embora tão cedo?

Os clubes não são culpados. O cara oferece 100 milhões para o jogador, ele vira e fala: eu não jogo mais aqui. Quem manda hoje é o jogador, não o clube. A gente não tem dinheiro para bancar essas coisas. Os caras chegam aqui e levam o Vinicius Junior, Paulinho, David Neres... A culpa não é do clube. A lei favorece o jogador. O jogador vê que tem 10 anos para arrumar a vida e ninguém pensa no futebol brasileiro.

Tudo isso fez você desistir do futebol?

Eu tive a questão da saúde e em razão de tudo isso. Eu tinha comando forte e isso esbarrava em muita vaidade e no futebol existe uma vaidade terrível. Se você me contrata, é do meu jeito. Você não me contrata para eu fazer do seu jeito. Mas é difícil ser assim, porque você precisa de resultado para ficar nos lugares. Eu não aceitava sair para jantar e ser amigo de dirigente. Era uma briga diária em que eu precisava ganhar. Meu lado social é horrível, eu sou anti social mesmo. E todo lugar que eu ia defendia a camisa do clube. Eu trabalha para os clubes e não para as pessoas e isso é duro, porque as pessoas querem participar e não sabem como fazer. Na segunda vez que fui para a UTI, vasculharam tudo e não acharam nada. Aí descobriram que era estresse. O estresse ia me matar, por isso parei.

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