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20 anos do Mundial do Corinthians: a conquista segundo Armando Nogueira

Cronista dedicou as três primeiras colunas de janeiro de 2000 no Estado ao torneio disputado no Brasil

14 jan 2020
04h40
atualizado às 04h40
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Em 14 de janeiro de 2000, a torcida corintiana invadiu o Maracanã e viu seu time erguer o troféu de campeão do 1º Mundial de Clubes promovido pela Fifa. Para homenagear o clube alvinegro pelo aniversário de 20 anos dessa conquista, o Estado selecionou do seu acervo três colunas de Armando Nogueira, um dos principais cronistas esportivos da história brasileira.

O jornalista escreveu para o jornal na década de 90 e início do século XXI. Seus três primeiros textos no ano 2000 foram dedicados ao torneio disputado no País e que contou com Real Madrid e Manchester United, além de representantes da Ásia, África e Oceania. A final foi brasileira. O Corinthians derrotou o Vasco nos pênaltis, por 4 a 3, no Maracanã, após empate sem gols no tempo normal e na prorrogação.

A primeira coluna de Armando sobre o Mundial de Clubes da Fifa é de 5 de janeiro, data da primeira rodada da fase de grupos. O jornalista se mostrava entusiasmado com o nascimento do torneio e abria o texto assim: "É recomeço de vida. Na folhinha do futebol, logo de cara, uma copa do mundo de clubes com a participação de quatro grandes equipes e outras quatro, nem tanto".

Em seguida, alertava que a nova competição que, "politicamente, encerra uma vitória dos clubes sobre a própria Fifa". Na época, o então presidente da entidade, Joseph Blatter, cogitava mudar a Copa do Mundo de seleções para acontecer de dois em dois anos. Os times, especialmente os europeus, rejeitaram essa ideia e sugeriram o Mundial de Clubes.

Ao analisar as equipes, Armando exaltava o Vasco com o ataque formado por Romário e Edmundo e destacava que o Corinthians, apesar de vir de um bicampeonato brasileiro, chegava cansado para o torneio por causa do mal organizado calendário do futebol nacional.

Trecho da coluna de 5 de janeiro:

"Eu sou um que morro de medo de apostar, cegamente, numa equipe A lógica da razão prática está cansada de demonstrar quanto e como quebram a cara os favoritos de um campeonato, de um simples jogo. Ainda assim, os dados à vista favorecem os dois brasileiros do Mundial. Pra mim, tanto pode dar Vasco da Gama como Corinthians. Se bem que, do ponto de vista psicológico, o pêndulo se incline pelo Vasco. O Corinthians é uma equipe saciada. Transpira, ainda, a ressaca do título de campeão do Brasil. Já o Vasco, renovado (não remoçado!) entra na luta movido por um ânimo de vitória que faz pulsar São Januário. Espero vê-los na final do Maracanã." Leia a íntegra da coluna.

Trecho da coluna de 12 de janeiro:

Na semana seguinte, ele dedica boa parte do texto para exaltar Edmundo e o golaço que o então jogador do Vasco marcou na vitória por 3 a 1 sobre o Manchester United, no melhor jogo da competição.

"Se daqui a pouco, nada restar do Mundial de Clubes, o tempo que me perdoe, mas não esquecerei um momento sublime de Edmundo no jogo Vasco-Manchester. Edmundo corre-mundo. Edmundo corre-campo. O semideus do futebol, que acaba de inventar um drible, um passe, uma finta. Três pérolas de um só repente. O lance, indizível, tem que ser visto porque, contando, ninguém acredita. Mas, eu conto. Foi precisamente assim: ele está em pé, na grande área, de costas pro gol. Atrás dele, vigilante, um beque dos ingleses. Vem chegando a bola e, mal chega, Edmundo já lhe aplica um efeito a favor, com o biquinho da chuteira. Como se estivesse dando corda num brinquedo de estimação. A bola sai-que-sai, girando como uma carrapeta: zureta, zureta. Edmundo corre por um lado, a bola, pelo outro. O zagueiro despenca no chão, estatelado. Os dois - bola e craque - se reencontram, logo adiante. Vem, então, o chute. Sobrevem o gol. No Maracanã remoçado, nasce o drible mais sapeca que jamais se viu no futebol. O drible impensável. O drible da carrapeta, zureta, zureta." Leia a íntegra da coluna.

Trecho da coluna de 19 de janeiro:

O texto derradeiro sobre a competição destaca o campeão Corinthians, que enfrentou uma maratona de jogos no ano anterior e chegou com seus principais jogadores bastante desgastados fisicamente. Marcelinho Carioca enfrentou problema muscular às vésperas da competição e Ricardinho disputou o Mundial com problema físico.

"Ainda ressoa pelo País o grito triunfal do Corinthians. Em verdade, o que se deve celebrar, nessa bela equipe, é uma admirável sucessão de títulos: campeão paulista, bicampeão brasileiro e campeão mundial. Uma coleção de ouro conquistada em apenas meio ano de muito suor e muitas artes. Pros rivais de morte que querem ver a caveira do Corinthians deve ser duro aturar um rosário de glórias de tal dimensão. É, realmente, uma consagração. Três campanhas que põem em relevo, acima de tudo, o brilho e o senso profissional de jogadores e técnicos. O Corinthians culminou, agora, no Maracanã, uma cruzada heroica de 89 partidas. Poucas equipes no mundo teriam sobrevivido a semelhante prova de estoicismo, de competência, de determinação. Tardará muito tempo até que outro clube, brasileiro ou não, possa estufar o peito e sair por aí festejando três epopeias - uma regional, uma nacional e outra internacional. Cada uma maior que a outra. Três maravilhosas aventuras vividas, em estado de graça, pelo coração corinthiano." Leia a íntegra da coluna.

Estadão
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