0

Raulzinho admite receio sobre volta da NBA: 'Precisa ser em segurança'

Brasileiro aguarda posição do Philadelphia 76ers para retomar treinos e bate bola em igreja para se manter em forma

29 mai 2020
14h10
  • separator
  • 0
  • comentários
  • separator

A NBA traça diversas estratégias para o reinício da temporada. O brasileiro Raulzinho Neto, do Philadelphia 76ers, acompanha atentamente. O armador está em Utah, cidade onde morou por quatro anos ao defender o Jazz, e aguarda uma posição da equipe para retomar os treinos. Em entrevista exclusiva ao Estadão, o jogador de 28 anos admitiu receio para o retorno ainda em meio à pandemia do novo coronavírus.

"Acho que o retorno precisa ser muito bem pensado, pensado na maneira como vai ser, porque precisa ter segurança e ser em segurança", admitiu Raulzinho, que está em sua quinta temporada na NBA.

A liga norte-americana foi paralisada no dia 11 de março, após Rudy Gobert, ex-companheiro do brasileiro no Utah Jazz, testar positivo para covid-19. Ainda não há uma data definitiva, mas alguns jogadores já foram liberados para treinar e há um plano de terminar a temporada em um resort em Orlando.

Como tem sido sua rotina nos EUA em meio à pandemia do covid-19?

Estou ficando dentro de casa, saio muito pouco, só para o que é realmente necessário. Estou evitando ao máximo ir na rua. Quando vou, é sempre com muito cuidado, respeitando distanciamento, buscando horários alternativos também.

O Estado de Utah, onde você está atualmente, tem 8.600 casos e 103 mortes pela covid-19, um número até pequeno em relação aos outros estados americanos, há uma explicação?

Há um entendimento da população sobre a gravidade da pandemia, uma preocupação grande com relação ao contágio, e isso talvez explique. Não é matemático, ninguém tem controle sobre o avanço do vírus, o que nos resta fazer é tomar todos os cuidados e seguir as orientações das autoridades, mas a consciência da violência do coronavírus é fundamental.

Em quanto tempo acredita que uma rotina normal pode ser retomada?

Difícil fazer qualquer previsão. Difícil também pensar como vai ser essa 'rotina normal' depois da pandemia. Acho que vamos precisar acostumar com alguns protocolos novos primeiro, adaptar, assimilar isso ao nosso dia a dia, para seguir com a vida 'normal'. Enquanto o vírus não estiver controlado, enquanto não encontrarem uma vacina, vamos ter que aprender a conviver com esse medo do contágio.

De fora, como vê o momento no Brasil nesta pandemia? Tem conversado com familiares?

Sim, se dá para dizer que uma coisa está sendo boa nesse momento de isolamento, é o fato de poder estar em contato com a minha família e os amigos todos os dias. Todos estão bem, respeitando o isolamento, estou vendo o quanto a situação está delicada no Brasil, o que torna ainda importante as pessoas se manterem em casa, em segurança.

Como está sua rotina de treinos? Que história é essa de treino na igreja?

Rotina de treinos eu não tenho, na verdade. Está bem difícil, estou tentando me manter ativo, correndo na rua em horários alternativos, indo à academia algumas vezes quando não há ninguém... A igreja apareceu no meio disso tudo. Aqui em Utah há muitos mórmons e as igrejas possuem quadras de basquete. Eu conheço algumas pessoas e me deram permissão para usar em alguns dias, para poder fazer o mínimo de uma atividade, sozinho, dentro de quadra, com bola. Não divido a quadra com ninguém, pego a chave, bato bola e isso tem me ajudado bastante.

Há uma forte discussão sobre o retorno da NBA... Qual sua posição?

Sendo sincero, eu tenho receio, sim. Não sei como vou voltar, não sei se vou estar em forma, há outros jogadores que já estão treinando. Nunca fiquei tanto tempo parado, sem fazer nada, desde a época de juvenil eu tenho uma rotina mesmo em férias, mas ficar dois meses e meio, como estou, sem pegar em bola, sem fazer treinamentos acompanhados, parte física, academia, nunca. O meu receio é mais por esse lado. Acho que o retorno precisa ser muito bem pensado, pensado na maneira como vai ser, porque precisa ter segurança e ser em segurança. Estamos vivendo uma situação extremamente delicada, uma questão de saúde muito grave, que está impactando a vida do mundo todo.

Quando pretende voltar para Philadelphia? Os Sixers já definiram uma programação?

Ainda não. Estou aguardando uma definição da equipe sobre o retorno aos treinos. Eles sabem que eu estou aqui, estou seguindo as orientações, fazendo exercícios e tentando me manter em forma praticamente dentro de casa. Tento meditar que estou na quadra de basquete, porque acabo perdendo o ritmo. As primeiras semanas foram um pouco difíceis, mas agora tenho uma rotina que me mantém mais saudável mental e fisicamente.

A NBA está paralisada desde o dia 11 de março, quando o Rudy Gobert testou positivo para covid-19. Você conversou com ele? Vocês são próximos dos tempos em que jogaram em Utah...

Sim, conversei com ele, acho que houve um certo exagero a partir da brincadeira que ele fez. Claro que não ficou legal a brincadeira, ele sabe disso, mas quem convive com ele, conhece ele, sabe que ele é um cara legal, consciente e que nunca daria um mau exemplo. Ele se recuperou bem, como outros que contraíram o vírus, e é sempre uma boa notícia quando as pessoas se recuperam. Mas já passou, ele mesmo teve uma postura bacana, entendeu que era preciso se posicionar também, se colocou em posição de ajudar as pessoas, de ser um porta-voz no combate à pandemia e que as pessoas entenderam.

Como viu o cancelamento dos Jogos Olímpicos de Tóquio?

Foi a decisão correta. Não havia como pensar em Olimpíadas. A pandemia não combina com a alegria, de celebração e da união dos povos, como são valores dos Jogos. Hoje, estamos unidos no combate ao coronavírus, e isso é o mais importante, a saúde do mundo é prioridade.

Tem conversado com o Petrovic? A sua intenção é ficar à disposição para o Pré-Olímpico do ano que vem?

Tinha conversado com ele antes de acontecer isso tudo. Ele me mandou mensagem perguntando como eu estava depois do cancelamento dos Jogos Olímpicos. Tenho interesse sempre em defender o meu País, em vestir a camisa da seleção brasileira, quero estar no Pré-Olímpico e que a gente consiga a vaga para Tóquio. Espero não ter problemas com contrato ou qualquer tipo de lesão.

Imagino que viu 'The Last Dance'... O que achou da série? A repercussão foi enorme nos EUA, com alguns jogadores insatisfeitos com o Michael Jordan...

Não terminei ainda de assistir. Vi os quatro primeiros episódios, o suficiente para ver o quanto é interessante, especialmente para a gente que gosta de basquete. A série revela muitos detalhes, claro, muita coisa que não sabíamos, por mais que acompanhássemos Jordan e os Bulls na época, muitas coisas que aconteciam nos bastidores, nos vestiários, que estão aparecendo agora. O documentário veio em boa hora, com todo mundo em casa.

Estadão
  • separator
  • 0
  • comentários
publicidade