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Para a NBA, o mais difícil está pela frente

Administrar a vida dentro de uma bolha não foi nada fácil, mas a NBA está prestes a enfrentar o mundo real

13 nov 2020
15h10
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Por mais desafiadora que a ideia de uma retomada da NBA tenha soado em maio e junho, quando os mais preocupados (como eu) manifestavam abertamente seus temores diante de todas as ameaças à viabilidade do Basquete na Bolha, há uma inconveniente realidade que vem recebendo pouca atenção no universo do basquete conforme se aproxima o recrutamento de 18 de novembro e a frenética temporada de negociações que se seguirá ao draft.

Os obstáculos de saúde e segurança que a liga terá pela frente são muito maiores do que no segundo trimestre.

Os surtos do coronavírus estão voltando e espalhando o caos pelos Estados Unidos. O país teve média de mais de 110 mil novos casos por dia ao longo da semana mais recente - mais do que qualquer outro país, despertando o temor de uma aceleração do contágio com as festas de fim de ano. Em meio a esse clima inquietante, a temporada de treinos da NBA deve começar em três semanas, dessa vez distribuída em 30 ginásios de treino diferentes, e não em uma instalação única na Flórida, com as equipes jogando no mercado doméstico e com viagens agendadas de maneira semelhante às circunstâncias anteriores à pandemia.

Não será uma partida por semana, como fazem os times de futebol americano da NFL. Não será um esporte que já inclui um elemento de distanciamento social, como o beisebol da Major League. Será um jogo de contato constante e interações cara a cara - e, diferentemente do futebol, do beisebol e do futebol americano, o basquete é disputado em ambiente interno.

"A NBA teve sucesso com o elegante experimento da bolha, e devo dizer que duvidei pessoalmente da capacidade deles de conseguir o resultado esperado", disse o Dr. T.O. Souryal, ex-presidente da associação de médicos da NBA, que trabalhou como médico dos Dallas Mavericks por mais de 20 anos. "Foi fantástico", avaliou.

"Mas, agora, a bolha acabou", prosseguiu Souryal. "Estamos no mundo real, e as regras são muito diferentes, com o perdão do trocadilho. Agora que o conceito da bolha tem que ser abandonado, isso introduz uma série de variáveis difíceis de controlar, e não sei como pretendem fazer isso."

O doutor não é o único com essa preocupação. As equipes médicas dos 30 times também aguardam ansiosamente orientações detalhadas por parte da liga em relação às medidas que devem ser adotadas, atualmente em fase de negociação com a associação de jogadores da NBA, instituídas para complementar os testes diários na tentativa de imitar o melhor possível a engenhosa e determinada campanha da NBA que impediu a infiltração do coronavírus nas instalações do Walt Disney World destinadas ao basquete de 7 de julho até 11 de outubro. Devemos lembrar que essas equipes serão responsáveis por observar todas essas medidas que a liga controlou na Disney, perto de Orlando, Flórida.

A NBA não está se iludindo. A organização sabe que interrupções e retrocessos causados pelo vírus são inevitáveis quando os jogadores deixam de trabalhar e viver no mesmo endereço e não há controle rigoroso de quem os visita. A liga vem observando atentamente como a NFL e os esportes universitários lidaram com as inevitáveis crises de casos do coronavírus, porque será impossível manter as normas que vigoraram na bolha.

Mas também é difícil deixar de reparar no quanto a preocupação de hoje é menor do que no segundo trimestre. Talvez seja uma falsa sensação de segurança que emana do grande sucesso que foi a bolha da NBA - ou quem sabe estejamos todos exaustos de tanto nos preocuparmos, agora que já convivemos com esse vírus por oito meses. Posso me arrepender de admiti-lo, mas eu também deixei de me preocupar tanto em relação a essas questões. Nas semanas mais recentes, falou-se muito mais no quanto as férias serão curtas para os Los Angeles Lakers e o Miami Heat do que na perspectiva de manter o vírus longe dos seus treinos, e todos estão se adaptando à natureza compacta do mais curto intervalo entre temporadas da história da liga.

Talvez a melhor explicação seja o fato de o panorama esportivo ter mudado muito desde março, quando a NBA foi a primeira liga de destaque a instituir a suspensão das atividades em resposta a um surto do coronavírus. Organizações esportivas de todos os níveis seguiram o exemplo da NBA, fazendo do seu comissário, Adam Silver, o responsável por definir os critérios de operação. A partir de então, esperou-se da NBA que desenvolvesse a solução mais segura do planeta para a retomada das atividades em meio à pandemia. A um custo estimado em US$ 190 milhões, foi erguida uma bolha de acesso restrito na Disney World, e Silver e companhia produziram o resultado deles esperado.

Falsa segurança abre espaço para o vírus

Mas isso é passado. Observemos o que está ocorrendo com os esportes agora. A ameaça do vírus parece aumentar com a aproximação do inverno no hemisfério norte, exatamente como previsto por numerosos especialistas, mas a NFL informa os novos casos de covid-19 com a mesma frieza dedicada a outros males e lesões. O astro da Juventus, Cristiano Ronaldo, possivelmente o melhor jogador de futebol do mundo, testou positivo para o coronavírus sem que isso virasse um escândalo. Entre os universitários, Clemson obrigou Notre Dame a disputar duas prorrogações naquele que talvez tenha sido o melhor jogo de futebol americano universitário da temporada, mesmo depois de o astro dos Tigers, o quarterback Trevor Lawrence, ser tirado de combate por causa do vírus. Os torcedores de Notre Dam invadiram irresponsavelmente o campo após o triunfo, sem surpreender as autoridades universitárias, mesmo após as indefensáveis cenas de celebração que se seguiram à conquista do campeonato de beisebol pelos Los Angeles Dodgers.

No mundo dos esportes, ninguém mais está esperando para usar a NBA como referência. Em vez disso, as ligas buscam aprimorar seu funcionamento padrão para encontrar um equilíbrio possível entre risco e necessidade econômica, mantendo assim as luzes acesas e se sustentando financeiramente nessa era do coronavírus. E seria tolice pensar que a NBA não vai se juntar a elas.

É isso que os negócios sempre tentam fazer. Quem não se adapta, perece. As aparências sofrerão um forte abalo se a NBA for confrontada com seu primeiro surto de maiores proporções, ou se acabar criando um fardo adicional para um sistema de saúde pública já sobrecarregado, mas, ao tentar retomar as atividades sem a ajuda de uma bolha cara, a organização merece o mesmo tipo de tolerância básica que demonstramos em relação às demais ligas profissionais.

A administração da NBA goza de tal reputação que, para muitos, uma situação como a de Justin Turner jamais teria acontecido sob o comando de Silver. Tirar do jogo o atleta da terceira base dos Dodgers na oitava entrada porque o resultado do seu teste para o coronavírus deu positivo, mas permitir que ele voltasse, sem máscara, para a celebração do título porque acreditava que seu lugar era com os colegas? Não aconteceria nas quadras, pode apostar.

Mas a natureza do basquete é tal que Silver certamente se verá diante de bolas difíceis que seus colegas Rob Manfred (MLB) e Roger Goodell (NFL) provavelmente jamais enfrentarão. "Acho que as coisas serão muito mais difíceis para a NBA do que para a NFL", disse o Dr. Souryal, "pelo simples fato de o basquete ser um esporte disputado em ambiente fechado". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Estadão
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