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Como a liga profissional de basquete feminino dos EUA mais socialmente progressiva ficou assim

As mulheres da WNBA têm feito do torneio um ninho para o ativismo, abrindo caminho para ligas profissionais de destaque ao combinar ação social e esportes

20 out 2020
08h10
atualizado às 08h50
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Desde o início de suas mais de duas décadas na quadra, as jogadoras da WNBA desafiaram as expectativas da sociedade. Sheryl Swoopes, uma das primeiras a entrar na liga, descobriu que estava grávida pouco antes da temporada inaugural da liga em 1997 - e começou a jogar seis semanas após o parto, abrindo um precedente para muitas atletas que não queriam deixar de lado suas carreiras para ter filhos.

Brasileira Damiris Dantas, do Minnesota Lynx, é uma das estrelas da WNBA
Brasileira Damiris Dantas, do Minnesota Lynx, é uma das estrelas da WNBA
Foto: Reprodução/Instagram / Estadão

Então, em 2005, Sheryl se tornou uma das atletas ativas mais importantes até aquele ponto a se assumir como lésbica. Ela não achou que o anúncio fosse grande coisa na época. Mas, ela disse, "Eu ainda recebo mensagens de pessoas dizendo, 'Você salvou minha vida', de pais dizendo: 'Obrigado por me ajudar a entender meu filho'".

Hoje, desafiar o status quo é uma marca registrada das jogadoras da liga. Elas testaram limites e inovaram muito antes disso entrar na moda entre os atletas profissionais modernos e abriram caminho para o protesto contra a injustiça social e o racismo.

A abrangência de ação entre as jogadoras da WNBA é incomparável entre as ligas esportivas profissionais. Incluem esforços singulares como a oposição de Seimone Augustus a uma medida eleitoral em Minnesota que visa alterar a constituição do estado para proibir o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o período sabático de Maya Moore para se concentrar na reforma da justiça criminal e a luta de Natasha Cloud contra a violência armada.

Frequentemente, abrangem compromissos unificados, como a dedicação da liga nesta temporada a Breonna Taylor, uma mulher negra que foi morta pela polícia, e a posição coletiva das jogadoras contra a coproprietária do Atlanta Dream, a senadora republicana pela Georgia Kelly Loeffler, que criticou o apoio das jogadoras ao movimento Black Lives Matter.

No período entre temporadas, muitas jogadoras passaram rapidamente de jogar basquete para se concentrar em incentivar as pessoas a votar. Como a liga, em alguns casos, foi pioneira ou antecipou a atual onda de ativismo entre os atletas profissionais não é uma história de ação conjunta deliberada nascida em uma reunião secreta.

Em vez disso, as jogadoras veem isso como uma consequência natural de quem elas são, um impulso nascido da necessidade em uma liga dominada por mulheres negras, muitas delas lésbicas. "Somos um protesto ambulante em todos os momentos como atleta da WNBA", disse Mistie Bass, que em 2016 se ajoelhou durante o hino nacional enquanto estava no Phoenix Mercury. "Se você pensar sobre isso, temos tantos estigmas diferentes. Estamos constantemente na luta. Não acho que nunca tenhamos lutado por igualdade, por justiça."

Com o tempo, as jogadoras ficaram mais encorajadas e menos intimidadas pela possibilidade de punição por parte dos dirigentes da liga, que as punem de vez em quando. "O W é o movimento", disse Layshia Clarendon, armadora do Liberty. "É para onde este país está indo. É para onde as pessoas progressistas e com visão de futuro buscam ir."

A liga ainda está em busca de mais seguidores, mas o crescente ativismo não diminuiu a audiência, que é ofuscada pela da NBA, mas tem mostrado ganhos recentemente. O ibope da vitória do Seattle Storm no jogo 3, que conquistou o título contra o Las Vegas Aces neste mês, exibida na ESPN, aumentou 27% em relação ao jogo final da temporada anterior.

Amira Rose Davis, professora da Universidade do Estado da Pensilvânia, especializada em raça, esportes e gênero, disse que inicialmente havia uma desconexão entre como as jogadoras se viam e como a liga era vista pela NBA, sua principal financiadora. "Houve muito dessa conversa que realmente temos escutado em relação ao esporte feminino: 'Como podemos torná-lo palatável? Como podemos fazer algo que possamos vender? Encurtar os shorts, certo? '", Amira disse. "Essa tensão é algo que sempre esteve lá, mas sempre havia jogadoras resistindo."

As jogadoras da WNBA tiveram pouca influência para discutir: elas eram constantemente informadas de que deveriam se sentir sortudas por serem pagas para jogar basquete nos Estados Unidos. "Estávamos muito felizes por estar lá, mas todas as manhãs havia esse nervosismo se as luzes estariam acesas para que pudéssemos treinar", disse Sue Wicks, ex-pivô do Liberty que tinha 30 anos quando a WNBA foi lançada.

No final da segunda temporada, porém, as jogadoras estavam fartas de receber salários médios de US$ 30 mil e não receber benefícios de saúde durante todo o ano ou uma parte dos lucros e receitas por ações de marketing. Algumas jogadoras ganharam apenas US$ 5 mil na primeira temporada da liga e seus contratos podiam ser rescindidos pelas equipes a qualquer momento. Elas começaram a organizar o primeiro sindicato de mulheres atletas profissionais.

Embora os dirigentes da liga tenham resistido, um acordo coletivo de trabalho foi alcançado. Era modesto, mas incluía melhorias significativas: salários mínimos para as veteranas dobrado para US$ 30 mil; cuidados de saúde durante todo o ano; planos de aposentadoria; licença maternidade remunerada; e partilha de receitas.

O apoio público nem sempre veio das pessoas para as quais a liga focava quase exclusivamente sua publicidade: famílias com pais heterossexuais e cisgêneros, cujo senso de identidade de gênero corresponde ao sexo atribuído no nascimento. Os fãs LGBTQI+ abraçaram a WNBA desde as primeiras temporadas, embora a liga não tenha criado uma campanha de Orgulho LGBTQI+ até 2014.

Hoje, as jogadoras lésbicas e suas famílias são abraçadas pela liga e seus fãs, e a WNBA amplifica as conversas progressistas a respeito de gênero e sexualidade. Depois que o Storm venceu o campeonato nesta temporada, a ESPN mostrou Sue Bird, a armadora e estrela de Seattle, abraçando e beijando sua namorada, Megan Rapinoe, a estrela do futebol feminino dos Estados Unidos.

A vibração de normas desafiadoras floresceu de outras maneiras. Antes de Colin Kaepernick se ajoelhar durante o hino nacional em 2016, as jogadoras do Lynx, então atuais campeãs, procuraram defender pacificamente a mudança social.

Os recentes assassinatos pela polícia pesaram muito sobre Seimone e suas companheiras de equipe. Alton Sterling foi morto pela polícia do lado de fora de uma loja de conveniência de Baton Rouge, Louisiana, que Seimone frequentava quando criança. Um policial no subúrbio de St. Paul, Minnesota, matou Philando Castile durante uma blitz. Ao visitá-la em Minnesota, o pai de Seimone foi parado pela polícia. Ele poderia ter morrido como Castela, ela pensou.

A equipe e a comissão técnica se reuniram para deliberar a respeito da melhor forma de transmitir seus sentimentos de maneira uniforme. Elas decidiram usar camisetas pretas durante o aquecimento com os dizeres "Change starts with us — Justice & Accountability" (A mudança começa conosco - Justiça e Responsabilidade) na frente. A parte de trás exibia o escudo policial de Dallas, em reconhecimento a vários policiais que haviam sido mortos recentemente; os nomes de Sterling e Castile e a frase "Black Lives Matter" (Vidas negras importam).

Quatro policiais de Minneapolis que trabalhavam na segurança da arena nas horas de folga abandonaram o trabalho. O momento também criou uma onda de união em todo a liga. Algumas jogadoras como Mistie, seguindo o exemplo de sua colega de equipe do Mercury, Kelsey Bone, começaram a se ajoelhar durante o hino nacional. As equipes do Mercury, Fever e Liberty usaram camisetas semelhantes. A liga inicialmente multou times e jogadoras, então rescindiu as penalidades menos de uma semana depois, após protestos de jogadoras e torcedores.

"Poderia ter sido apenas o Minnesota Lynx fazendo isso e então pareceríamos a única maçã podre da liga", disse Seimone. "Mas, devido ao fato de as outras equipes seguirem o exemplo, isso realmente causou um impacto maior e nos uniu e nos tornou um pouco mais fortes do que éramos antes."

Com essa corrente de ativismo, não foi surpreendente que as jogadoras da liga tivessem uma reação enérgica aos assassinatos de George Floyd em maio e Breonna Taylor em março. "Eu sabia que não teríamos uma temporada este ano se não lançássemos algo especial", disse a comissária Cathy Engelbert.

Entre vários esforços, a WNBA criou um conselho de justiça social e está trabalhando com a campanha Say Her Name, que foca na violência policial contra mulheres e meninas negras. "Você se encontra indiretamente nisso, de uma forma que demonstra sua autenticidade como indivíduo", disse Nneka Ogwumike, presidente do sindicato das jogadoras da WNBA. "Mas, então, você encontra muita força e somos capazes de falar coletivamente, como demonstramos nos últimos anos e mais notavelmente nesta temporada."

A recente onda de ativismo visível gerou sentimentos contraditórios para Mistie quatro anos depois de ela ter se ajoelhado pela primeira vez. "Não mudou muito desde então em termos de justiça social e como tornar as coisas melhores, e é por isso que estávamos ajoelhadas", disse Mistie. "Mas ver isso agora, não apenas na WNBA, mas no geral, a aceitação completa tem sido difícil de assistir, porque você fica tipo, 'Onde você estava há quatro anos?'"

As equipes da NBA começaram a se ajoelhar regularmente nos jogos neste verão. Jogadoras famosas da WNBA, como Natasha e Renee Montgomery, optaram por sair da temporada para lutar pelas causas de justiça social. Renee, jogadora da equipe do Lynx que vestiu a camiseta há quatro anos, foi motivada a agir depois que manifestantes chegaram em seu bairro na área de Buckhead, em Atlanta, em junho, para protestar contra o assassinato de Rayshard Brooks por um policial.

Então ela viu o mundo dos esportes quase parar depois dos tiros disparados por um policial contra Jacob Blake, um homem negro, em agosto. "Tenho certeza de que todos pensaram que se os esportes parassem, assim que voltassem, seria devido à pandemia", disse ela. "Ninguém pensou que os esportes parariam por questões raciais."

O Milwaukee Bucks da NBA decidiu não disputar uma partida dos playoffs e times da WNBA e outros em diferentes ligas esportivas juntaram-se a ele. "Nós nos tornamos uma liga melhor e mais valiosa por causa do espaço que usamos para lutar pela justiça social", disse Dawn Staley, técnica de basquete feminino da Universidade da Carolina do Sul, que foi indicada para o Basketball Hall of Fame após sua carreira na WNBA. "Todo mundo sabe que elas são líderes quando se trata disso. No mínimo, dá a outras ligas profissionais um espaço para dizer: "Tudo bem se manifestar. Não há problema em ser rejeitado. "Porque não fomos amadas durante 23 anos pela sociedade americana tradicional, você sabe o que estou dizendo? Você pode sobreviver sem ser querido por dizer algo que é certo." / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

Estadão
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