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Mercedes paga bem e Hamilton deveria aceitar proposta

Sergio Quintanilha entra na polêmica, mostra as vantagens de Lewis Hamilton na Mercedes e diz que ele deveria aceitar ganhar menos

11 jan 2021
06h00
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Lewis Hamilton: polêmica na renovação de contrato com a Mercedes.
Lewis Hamilton: polêmica na renovação de contrato com a Mercedes.
Foto: Mercedes-AMG / Divulgação

A renovação de contrato do heptacampeão Lewis Hamilton com a Mercedes é a polêmica do ano na Fórmula 1. Segundo informações publicadas pela mídia inglesa, a Mercedes ofereceu a Lewis um salário anual reduzido em US$ 5 milhões. Em 2020, ele ganhou US$ 54 milhões, sendo US$ 42 milhões de salários e US$ 12 milhões em bônus. Lewis, aparentemente, está batendo o pé e deseja manter seus ganhos.

Como não se trata de uma quantia pequena, a polêmica dividiu o mundo da Fórmula 1. Muitos acham que Hamilton já ganha bem o suficiente; muitos acham que ele traz lucros à Mercedes e, portanto, deve ser valorizado e não desvalorizado, uma vez que entrega, além de vitórias na F1, uma ampla imagem para a marca ao longo da temporada. Entre as pessoas que defendem a posição de Hamilton está nossa colunista Alessandra Alves.

Em sua coluna na semana passada, Alessandra Alves fez uma defesa impecável das razões de Lewis. Concordo com todas elas, porém gostaria de oferecer um contraponto, defendendo a ideia de que Lewis Hamilton deveria, sim, aceitar essa suposta redução e renovar o contrato com a equipe.

Lewis se tornou um mito nas pistas e a participação da Mercedes foi essencial.
Lewis se tornou um mito nas pistas e a participação da Mercedes foi essencial.
Foto: Mercedes-AMG / Divulgação

Precisamos ver a questão sob o contexto atual (Lewis é o maior recordista de títulos, vitórias e poles da F1), mas também sob o ponto de vista histórico. É verdade que Hamilton, sozinho, somou 347 pontos para a Mercedes, 28 a mais do que os 319 da Red Bull. Porém, sem os pontos que Valtteri Bottas tirou da dupla Max Verstappen/Alex Albon, a Mercedes  não seria campeã somente com Hamilton. Foram 91 pontos.

Se fosse o contrário, ou seja, se a Mercedes corresse apenas com Bottas, teria somado 274 pontos. Faltariam 45 pontos, que qualquer segundo piloto poderia conquistar, considerando que Lance Stroll (Racing Point) e Pierre Gasly (AlphaTauri) conseguiram 75 pontos e que Esteban Ocon (Renault) fez 62. Mais do que isso. Sem Hamilton na equipe, a Mercedes seria campeã mundial de pilotos com Bottas -- e não apenas em 2020, mas também em 2019.

Podemos ir mais longe. Se Lewis Hamilton não tivesse corrido pela Mercedes desde 2013, mesmo assim a equipe teria sido campeã mundial cinco vezes (duas com Bottas e três com Nico Rosberg), perdendo os títulos de 2017 e 2018 para Sebastian Vettel e a Ferrari. Claro que isso é apenas matemática e não considera a inestimável ajuda de Lewis no desenvolvimento dos carros série W da Mercedes.

Não é o talento de Lewis que está em discussão aqui. Ele é o melhor da atualidade, disparado. E é também um dos melhores da história. A questão aqui, que eu coloco como contraponto, é que não é demérito nenhum para o heptacampeão devolver um pouco do que a Mercedes proporcionou a ele. 

Se Hamilton não estivesse na Mercedes, Bottas teria sido bicampeão mundial.
Se Hamilton não estivesse na Mercedes, Bottas teria sido bicampeão mundial.
Foto: Mercedes-AMG / Divulgação

Não é que Hamilton deva algo à equipe, não se trata disso, mas sim de um gesto colaborativo num momento em que a indústria automobilística como um todo está sob enorme pressão, a Mercedes precisa economizar 1 bilhão de euros e 10 mil pessoas ficarão sem emprego dentro da Daimler. A pressão vem da queda nos ganhos e da enorme necessidade de investir em novas tecnologias de carros elétricos e autônomos.

Por que, então, Lewis deveria ser generoso com a Mercedes e aceitar essa redução salarial? Porque a Mercedes investiu pesado nele no passado, quando poderia ter apostado em pelo menos dois pilotos com melhor currículo. Antes de começar a temporada de 2013, a primeira de Lewis na equipe Mercedes, o piloto inglês tinha no currículo 21 vitórias, 26 poles e um título mundial em 110 corridas disputadas (cinco temporadas).

O alemão Sebastian Vettel, que corria na Red Bull, contava 26 vitórias, 36 poles e três títulos em 101 Grandes Prêmios. Já o espanhol Fernando Alonso, da Ferrari, tinha 30 vitórias, 22 poles e dois títulos em 197 GPs. A Mercedes apostou em Lewis Hamilton porque já tinha um piloto alemão na equipe (Nico Rosberg) e porque ele era, além de promissor, mais barato. Mesmo assim, pagou a ele US$ 27,5 milhões/ano num contrato de duas temporadas.

Lewis devolveu o investimento ao ganhar o título de 2014, o primeiro da era híbrida. Ganhou, então, uma renovação de contrato maior, de três anos, com salários de US$ 31 milhões mais US$ 10 milhões de bônus. Foi nesse período que ganhou mais dois títulos. Se Hamilton não estivesse na equipe, porém, Rosberg teria sido tricampeão com a Mercedes, ganhando 20 corridas de 2013 a 2016. Lewis ganhou 32, porque era melhor, mas a equipe seria tricampeã do mesmo jeito sem ele.

Lewis Hamilton, com uma camisa de protesto: apoio incondicional da Mercedes.
Lewis Hamilton, com uma camisa de protesto: apoio incondicional da Mercedes.
Foto: Divulgação

Como eu disse, nas temporadas de 2019 e 2020, Bottas teria sido campeão se não tivesse Hamilton na equipe, conquistando 18 vitórias de 2018 a 2020. Todos esses números mostram que, embora seja o melhor, Lewis não é insubstituível na Mercedes. Ninguém é insubstituível em lugar nenhum. Nos últimos três anos, a Mercedes pagou a Lewis US$ 54 milhões por temporada.

Segundo o site Essentially Sports, Lewis Hamilton tem um patrimônio líquido de US$ 285 milhões. Ele não precisa, portanto, bater o pé por US$ 5 milhões. É verdade que Lewis não figura na lista dos 10 atletas mais bem pagos do mundo, liderada pelo tenista Roger Federer e pelos jogadores Cristiano Ronaldo e Lionel Messi com salários de 106, 105 e 104 milhões de dólares. Também é verdade que a atividade de Hamilton é a mais arriscada. Mas nenhum dos 10 atletas mais bem pagos do mundo precisa de um desenvolvimento tecnológico de milhões de dólares para vencer.

Parece estranho, mas o automobilismo é o menos individual dos esportes. Nenhum piloto se torna campeão mundial, tampouco se mantém no topo, sem um forte apoio tecnológico da equipe, que custa muito dinheiro. Hamilton está no melhor lugar da Fórmula 1. Já tem 36 anos e acabou de sair de uma doença séria, a Covid. A última vez que um piloto foi campeão de F1 acima dessa idade faz 27 anos, quase três décadas. De lá para cá, o esporte ficou mais físico, mais mental, mais exigente. Mesmo para um supercampeão, a idade faz diferença.

Até o carro pintado de preto Hamilton recebeu da Mercedes: teria nisso na Ferrari ou na Red Bull?
Até o carro pintado de preto Hamilton recebeu da Mercedes: teria nisso na Ferrari ou na Red Bull?
Foto: Mercedes-AMG / Divulgação

Se Lewis Hamilton não quiser correr pela Mercedes, conseguirá o salário que pede em outra equipe? Pode até ser. Mas ele teria na pragmática Red Bull ou na conservadora Ferrari a mesma liberdade que adquiriu na Mercedes? A Ferrari pintaria os carros de preto, como a Mercedes fez, para ajudar na defesa de sua nobre e necessária causa contra o racismo? Permitiria que ele fosse à frente do grid para se ajoelhar em protesto? Na Ferrari, até o corte de cabelo é controlado.

Eu ainda teria muito mais a escrever, sobre como a força da Mercedes também deu a Lewis o poder midiático que ele adquiriu hoje, mas acho que esses pontos já são suficientes para colocar meu ponto de vista. Lewis não é exatamente um representante das reivindicações trabalhistas, embora só ele saiba, dentro do grupo de pilotos, o que é ser preto neste mundo dominado por brancos.

Em que outra equipe Lewis Hamilton poderia ser ativista contra o racismo?
Em que outra equipe Lewis Hamilton poderia ser ativista contra o racismo?
Foto: Mercedes-AMG / Divulgação

A Mercedes tem sido mais do que uma empregadora para Lewis Hamilton. Portanto, se neste momento ela está pedindo uma contribuição, ele deveria dar, por tudo que já ganhou e ainda vai ganhar. Até porque US$ 49 milhões por ano não é pouco. Para se ter uma ideia, o maior acionista da Mercedes, o chinês Li Shufu, que ganhou US$ 412 milhões em 2018, teve seus ganhos reduzidos para US$ 113 milhões em 2019, segundo The Wall Street Journal.

Para este magnata chinês, provavelmente a vida é só dinheiro. É o capitalista na essência. Para Lewis Hamilton, a vida não é só dinheiro. E a Mercedes, hoje, é o único lugar do mundo onde ele pode defender causas identitárias, lutar por um mundo mais inclusivo e ganhar muito mais do que dinheiro.

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