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Com apoio de investidor, Atlético-MG inverte lógica e aplica recursos em estádio e reforços

Mesmo em meio à pandemia do coronavírus, objetivo é consolidar o clube entre os cinco principais do País

3 jul 2020
08h11
atualizado às 11h38
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O sonho e as ambições do Atlético Mineiro são, hoje, tão grandes e ousados como as ações que o clube têm adotado para viabilizá-las. Mesmo tendo uma dívida relevante, estimada em R$ 750 milhões, e em meio à pandemia do coronavírus, que tirou receitas expressivas de todo o futebol mundial, o time iniciou recentemente a construção do seu estádio e investe alto em contratações visando a retomada das competições. O objetivo é consolidar o clube entre os cinco principais do País.

No período em que o futebol está paralisado, não faltaram notícias vindas da Cidade do Galo. Se pouco antes da pausa o clube havia contratado o técnico Jorge Sampaoli e o diretor de futebol Alexandre Mattos, o Atlético-MG iniciou as obras da Arena MRV em 20 de abril e ainda fechou contratações que precisaram de investimentos de mais de R$ 50 milhões. Por trás de muitas ações estão um conhecido empresário: Rubens Menin, o fundador da construtora MRV Engenharia.

Conselheiro do clube e atleticano fanático, Menin tem atuação contínua na política do Atlético-MG há, ao menos, duas décadas, seja com patrocínios ao uniforme do clube, iniciados em 2002, ou mesmo com empréstimos. E é peça fundamental para se compreender a mudança de postura do clube no mercado nos últimos meses.

Eleito para três anos de mandato à frente do Atlético-MG no fim de 2017, Sérgio Sette Câmara iniciou imediatamente um plano de redução de gastos no clube, liberando jogadores renomados e caros, como Fred e Robinho, logo nas suas primeiras semanas na presidência.

As ações para reduzir custos e dívidas, porém, não trouxeram bons resultados esportivos. O Atlético-MG até se classificou para a disputa da Copa Libertadores de 2019, tendo realizado campanha pífia, e foi semifinalista da Copa Sul-Americana no mesmo ano, mas não levanta nenhum troféu desde 2017.

Para piorar a situação, teve um início de 2020 desastroso, com quedas para os modestos Unión-ARG e Afogados-PE, na Sul-Americana e na Copa do Brasil, respectivamente. Foi, ao que parece, o gatilho para o clube oficializar a mudança de comportamento no mercado, que parecia já ter se iniciado durante 2019, se repetindo no começo de 2020, com as chegadas de Alan e Guilherme Arana. Mas que se ampliou, de fato, nas últimas semanas.

As contratações de Sampaoli e Mattos sinalizaram ao mercado o surgimento de um novo Atlético, em busca do protagonismo perdido e que havia marcado o clube entre 2012 e 2016, com a conquista de títulos da Copa do Brasil e da Libertadores, além de dois vice-campeonatos nacionais e da presença em outra decisão da Copa do Brasil.

A aposta do clube é clara, e arriscada. Ao invés de enxugar despesas para ter superávit e pagar dívidas, Sette Câmara prefere crer que um time com alto investimento resultará e, conquistas esportivas. E elas trarão mais receitas. "É como alguém que compra um terreno e depois faz o lote valer até cinco vezes mais", defende.

"A gente busca soluções: investimentos no elenco para ter um retorno técnico em campo, com uma resposta da torcida, aumentando a receita financeira, com o lucro das vendas de atletas, o aumento de vendas de materiais esportivos, o aumento de torcedores em campo e, o mais fundamental, o aumento do sócio-torcedor", enumera, deixando claro qual é o plano do Atlético-MG neste momento: gastar mais para conseguir sucesso esportivo, que se transformaria em mais receitas.

Para ele, um time barato poderia terminar em tragédia esportiva, ampliando o fosso para clubes que têm dominado o futebol brasileiro, como o Flamengo. "Sem investimento, o desempenho vai ser ruim. Você briga para cair, não tem sócio-torcedor, não vende camisa, não tem torcedor e aí você pode cair, perdendo receita de R$ 100 milhões da TV. E para voltar, seria difícil", argumenta.

Aposta em jovens com potencial de revenda

Mattos e Sampaoli formam uma dupla cara, vencedora e que demanda investimentos no mercado de transferências. E foi o que o Atlético fez, seguindo a filosofia adotada por Sette Câmara, com o auxílio financeiro dos parceiros. Primeiro, liberou jogadores que estavam fora dos planos do treinador, como os centroavantes Ricardo Oliveira e Di Santo, para reduzir a folha salarial. Depois, fechou várias contratações durante a pandemia: dos zagueiros Bueno e Junior Alonso, dos meio-campistas Léo Sena e Alan Franco e dos atacantes Marrony e Keno. E outros nomes devem ser oficializados nos próximos dias.

Exceto pelo ex-atacante do Palmeiras, todos os últimos reforços possuem 24 anos ou menos. É uma das características da gestão de Sette Câmara, tanto que Mailton, Allan, Dylan Borrero, Arana e Savarino, contratados no início da temporada, têm o mesmo perfil. Como base para isso, a esperança de que, além de conseguir um bom desempenho esportivo, obter um retorno financeiro com futuras negociações, abatendo as dívidas do clube, especialmente as com Menin, o principal auxiliar nas contratações. "São jogadores novos, que podem nos render muito dinheiro. A ideia é devolver o principal e ficar com o restante para sanear nossas contas", defende Sette Câmara.

Para ser competitivo na retomada das competições, o Atlético-MG tem buscado recursos com o empresário, que já auxilia o clube com o pagamento de uma parte dos salários de Sampaoli. E faz empréstimos, classificados por ele como "de pai para filho", para ajudar a viabilizar as contratações. A estimativa é de que, com os reforços e os vencimentos do treinador, além da ajuda para pagar uma dívida na Fifa, os valores cedidos seriam de, aproximadamente, R$ 70 milhões. "É um contrato sem prazo, sem correção, sem juros, com confiança no que está sendo feito lá. Ou eu não daria meu dinheiro", diz Menin.

Os acordos são, de fato, "de pai para filho", seja porque Rafael Menin tem participação direta na política do Atlético-MG, sendo vice-presidente do Conselho Deliberativo, como pelas condições: os envolvidos garantem que os acordos são sem juros e sem data para vencimento, com Sette Câmara se comprometendo a pagá-los assim que algum recurso vultoso, como a venda de um jogador, entrar nos cofres do clube.

Sucesso esportivo vinculado ao estádio

De acordo com Menin, o apoio também acontece porque acreditou no "projeto" do clube. E ele envolve, diretamente, a construção do estádio. O terreno foi doado por Menin, tendo valor estimado de R$ 50 milhões. Além disso, a MRV adquiriu os naming rights do estádio por outros R$ 60 milhões pelo período de dez anos, em ação comparada com a do Palmeiras e a Allianz, que passou a ter o direito sobre o nome do estádio antes mesmo da sua inauguração.

Para viabilizar a obra, que tem custo estimado de R$ 500 milhões, o Atlético-MG vendeu metade de um dos principais shoppings centers de Belo Horizonte, o Diamond Mall, obtendo cerca de R$ 300 milhões, considerando as correções monetárias envolvidas na transação. A outra metade continua sendo do clube. Mas já se cogitou negociá-la para quitar as elevadas dívidas, alternativa que nesse momento ainda não está colocada no papel.

O Atlético-MG e Menin acreditam, porém, que apenas o estádio não será suficiente para garantir o sucesso esportivo do clube. Para ter lucro com a arena, prevista para ser inaugurada em 2022, vai será preciso ter um time competitivo. E desde já. O desafio, portanto, é colocar o clube entre as cinco maiores potências do futebol nacional.

"Não é a primeira vez que empresto dinheiro ao Atlético-MG. O que me animou dessa vez é o projeto. Para o Atlético estar entre os cinco melhores do Brasil, não basta o estádio. É preciso ter todos os pilares", afirma Menin, que usa o seu know-how na construção civil para dar suas opiniões sobre o projeto e a construção da arena, participando de algumas reuniões.

Para Sette Câmara, o enfraquecimento de alguns clubes tradicionais, torna essa possibilidade viável. "Vai haver um descolamento de quatro, cinco clubes em relação aos demais", defende. "O estádio vai trazer receitas importantes para o nosso orçamento, mas o time forte é importante", acrescenta.

Considerado um dos principais nomes do empresariado brasileiro, Menin tem colhido, com o apoio financeiro, algo raro para um profissional da sua área de atuação: o carinho do torcedor. Um deles, chegou a fazer uma tatuagem com o seu rosto. "A torcida do Atlético é fantástica. Fico feliz com esse tipo de coisa", conclui.

Estadão
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