Preconceito persiste nas formas mais inesperadas
Basta uma costelinha, só uma, e a pessoa fica completamente impossibilitada de se mover e, assim, levar a vida como está acostumada. Aconteceu com um amigo e eu entendi que, às vezes, as coisas que são nocivas, ao mesmo tempo, podem apresentar um efeito esclarecedor. Acompanhei de perto o meu amigo que havia machucado a costela, analisei friamente, avaliei os momentos que passamos em público, ajudava-o. O que me esclareceu e me deixou absolutamente surpresa e indignada foi o alto grau de preconceito que muitos apresentavam. Incomodava-me o preconceito. As pessoas mostravam certo grau de desprezo pelo doente, justo ele que lidava com a fragilidade gritante do seu corpo - aliás, indicadora da fragilidade de todos os corpos, estejamos lúcidos e maduramente conscientes. Na maioria das vezes o preconceito não se mostrava explicitamente, mas aparecia, apesar de disfarçado, por meio da gentileza com que dizem: "deixem o cadeirante passar", acompanhado de um sorriso torto, uma entonação suave, um jeitinho de quem quer dizer: "não tenho nenhum preconceito, pessoa doente precisa ser ajudada". Mas, ao lado do meu amigo, minha sensibilidade percebia e apontava para algumas pessoas que eu sentia repugnadas ao se aproximar de alguém doente. É difícil indicar que, sorridentes, alguns estão circulando em torno do doente pouco à vontade: olham curiosos, perguntam qual é o problema ou se afastam rapidamente como se não soubessem o que dizer ou o que fazer nessas circunstâncias. São os doentes que mais precisam da gente: apoio, entendimento, companhia. Aprendi mais uma verdade que o preconceito é algo real e está no mundo, por incrível que pareça, nas formas mais surpreendentes e inesperadas. Meu recado hoje é bastante simples: todos devemos fazer um exame de consciência para descobrir o quanto aquilo que é diferente nos atinge.
Marina Gold/Especial para o Terra
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