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Profissional experiente é empurrado a ir além de diplomas

1 abr 2019
16h55
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Diploma universitário, pós-graduação, currículo graúdo com passagem por cargos e empresas de alto nível e proficiência em vários idiomas. Se ter uma "sobrequalificação" já não é garantia de emprego, em muitos casos pode ser justamente o problema para a contratação quando a vaga exige menos capacitação.

Com um número crescente de desocupados no Brasil - eram 12,7 milhões em janeiro, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) -, entender o que leva profissionais sobrequalificados a se candidatar a vagas abaixo de seus currículos não é difícil.

"Com a crise de 2014, houve um enxugamento de vagas ocupadas por profissionais qualificados. As empresas se reestruturaram e, quando voltaram a contratar, surgiram vagas de níveis mais baixos", diz o especialista em estratégia empresarial Breno Paquelet.

A engenheira de produção Marcia Hirano, de 45 anos, é um exemplo: está há quase dois anos desempregada. Dona de um currículo que conta com pós-graduação, MBA, fluência em dois idiomas e trajetória por multinacionais, percebeu que suas qualificações já foram impedimento para seguir em processos seletivos.

Perguntas como "você não ficaria desmotivada em uma posição menor?" e "por que você aceitaria trabalhar por um salário inferior?" já apareceram em entrevistas de emprego. "O que me move são as perspectivas futuras, não o cargo ou a remuneração menor. Mas o selo de 'sobrequalificada' te fecha portas em vez de abrir", conta ela.

Para as empresas, no entanto, as perguntas mostram uma preocupação especial com esse profissional. Segundo o diretor-geral da empresa de recrutamento Robert Half, Fernando Mantovani, o empregador quer entender se a vaga é uma medida desesperada do candidato, que pedirá demissão assim que surgir uma oportunidade melhor, ou se existe uma consistência em sua decisão.

"Quem está recrutando quer o funcionário por um tempo. Se tenho trabalho para o Robin e vou oferecer para o Batman, na hora que der problema o Batman pode ir embora".

Para convencer o recrutador, Mantovani aconselha o candidato a argumentar. "Tem de explicar por que é uma decisão de médio prazo, o quanto você pensou no assunto e como está estruturado para isso."

Também costuma ser comum a preocupação de que o novo contratado não permaneça motivado em um cargo que exige desafios que ele já vivenciou na carreira. "Uma pessoa superqualificada pode acabar sendo liderada por um gestor júnior, que, muitas vezes, ele não respeita por se achar superior", explica Paquelet.

Por mais tentador que possa parecer mentir no currículo, diz o especialista, é melhor regular a ênfase a determinadas posições do que simplesmente omiti-las. "Na entrevista, deve-se mostrar disposição para recomeçar."

O recomeço

Para a coach e especialista em carreiras Paula Dias, uma alternativa para quem não encontra vaga é fazer uma análise de perfil e carreira para identificar outras coisas de que é capaz de fazer. Isso pode estimular quem cansou de procurar emprego - de acordo com a Pnad Contínua, de 2014 até setembro de 2018, mais de 1,27 milhão de trabalhadores que estudou por 10 anos ou mais desistiu de achar uma vaga que caiba no seu currículo.

Para promover uma mudança na carreira, o conhecimento adquirido pode ser usado para atuar em outras áreas, como dar consultoria e aulas, se tornar freelancer ou criar projetos. A alternativa foi seguida por Marcia Hirano. Enquanto não acha a vaga do jeito que procura, resolveu usar os conhecimentos adquiridos para dar consultoria a empresas. Paralelamente, ela também investe em um serviço de coaching de carreira para se reposicionar no mercado.

O caminho do empreendedorismo - mesmo que o da "necessidade" e não o da "oportunidade" - também tem sido uma aposta. Para o engenheiro ambiental Vinícius Araújo, de 26 anos, juntar-se a três amigos numa startup foi a solução para os quase cinco anos de desemprego.

Antes de optar pelo empreendedorismo, ele fez uma especialização em engenharia de segurança do trabalho, cursou disciplinas do mestrado, fez curso de extensão e tentou entrar em outras áreas da engenharia. Mesmo ainda jovem no mercado, os estudos já o fizeram ser considerado sobrequalificado. "Numa entrevista, o recrutador falou que não poderia me contratar porque eu era muito capacitado para a vaga e que, quando eu tivesse uma oportunidade melhor, eu pularia fora da empresa."

Hoje, ele participa de treinamentos para mergulhar no empreendedorismo. "Depois de começar na startup, entendi que tenho de me reinventar a cada dia para poder desenvolver um negócio de sucesso."

Estadão
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