0

Pioneiro do software no país diz que segredo é compartilhar

Fundador da Totvs, Ernesto Haberkorn criou, em 1983, uma das primeiras empresas de software do Brasil

2 abr 2014
16h39
atualizado em 3/4/2014 às 09h17
  • separator
  • comentários

Persistente e ousado, Ernesto Haberkorn é um dos pioneiros da indústria de tecnologia da informação no Brasil. Em 1974, quando ainda não existiam computadores pessoais no país e os mainframes ainda eram raros por aqui, ele criou o Sistema Integrado de Gerência Automática (Siga), empresa de processamento de dados que prestava serviços a companhias que não tinham computadores próprios. Haberkorn também não tinha computador, então recolhia as planilhas preenchidas nos clientes durante o dia e, à noite, processava os dados em computadores ociosos de outras empresas. Assim nasceu o germe da Totvs, que hoje é a maior fabricante de softwares do Brasil e a sexta maior do mundo.

Um dos pioneiros da indústria de softwares no Brasil, Ernesto Haberkorn, diz que o segredo nos negócios é dividir para multiplicar
Um dos pioneiros da indústria de softwares no Brasil, Ernesto Haberkorn, diz que o segredo nos negócios é dividir para multiplicar
Foto: Divulgação

Quando os primeiros computadores pessoais (PCs) começaram a chegar ao Brasil, no começo da década de 1980, Haberkorn criou aquele que se tornaria o mais famoso software de gestão empresarial do Brasil, o Microsiga. Para comercializar o produto, ele fundou, em 1983, a empresa de mesmo nome, em parceria com o engenheiro Laércio Consentino, que havia sido seu funcionário.

Em 2005, a Microsiga foi rebatizada de Totvs, e no ano seguinte Haberkorn e Consentino decidiram abrir o capital da empresa. A decisão reflete bem o que o empresário diz ser uma das grandes lições que aprendeu ao longo de sua trajetória: é preciso dividir para multiplicar.

Depois de tantas realizações, Haberkorn poderia simplesmente colher os frutos de uma carreira bem-sucedida e se aposentar, mas o empresário se recusa a pendurar as chuteiras. Segue mais ativo do que nunca, agora ministrando cursos de treinamento corporativo baseados em um método batizado de Circuito Netas e sistematizado no livro “Dicas de como chegar lá”. Fiel ao espírito de compartilhar para crescer, Haberkorn revela nesta entrevista algumas dicas para quem quer se dar bem no mundo dos negócios.  

Na década de 1970, mesmo sem computador próprio, o senhor recolhia as planilhas preenchidas nos clientes durante o dia, numa Ford Belina e, à noite, processava os dados em computadores ociosos de outras empresas. Qual foi o maior aprendizado que o senhor tirou dessa época? É preciso ser ousado para empreender?
Não só ousado, como persistente e calmo. Por isso, o nono princípio do Circuito Netas é “Agir: com ousadia, calma e persistência”. Mas é claro que o ser humano se adequa às situações. Diria que, na época, o processo todo que nós fazíamos era o mais moderno que existia. Assim, as pessoas achavam impressionante como eu conseguia, em algumas horas durante a noite, fazer todo aquele volume de serviço que, antes, fazendo na mão, eles levavam semanas. E eu só dizia: o mundo mudou, agora estamos numa nova era: a do processamento eletrônico dos dados.

O senhor sempre cita sua família. Ela foi a base do empresário que o senhor veio a ser? Aprendeu a importância de economizar com eles?
Cito o meu pai. Ele me dava o exemplo. Trabalhava demais, muito mais do que eu. Sem reclamar, sempre de bom humor. Você tem que trabalhar também. Procuro hoje ser também um exemplo para meus filhos. Acho que só falar não resolve. É preciso dar o exemplo. Agora, economizar veio do fato de os meus pais serem fugitivos da guerra. Chegaram aqui sem nada, perderam tudo. O medo de que tal fato se repetisse provocava o enigmático “pão-durismo”.

O senhor enfrentou uma demissão inesperada e sua empresa enfrentou crises econômicas no país. O microempresário deve se preparar para as diversidades?
Sim. O microempresário deve estar sempre atento ao fato de que o mercado apresenta altos e baixos.

O senhor imaginou no início da Siga que chegaria a ser proprietário de uma empresa como a Totvs?
Não, meu objetivo sempre foi manter o negócio dando certo. E para isso sempre procurei dividir. Assim, pelo menos não passava apuros sozinho. E assim dividi com o Laércio (Cosentino), com os funcionários, com concorrentes e com muitos outros. No fim descobri que cada vez que dividia, na verdade, estava multiplicando. E deu no que deu, acabamos dividindo com o mercado. Na Bolsa de Valores. E a empresa se multiplicou. E virou a Totvs.  

Hoje há um grande número de jovens empreendedores com suas “startups”. Que conselho o senhor daria para eles?
Trabalho, trabalho e trabalho. Cuide do seu produto. Aprimore-o o tempo todo. Não dependa dos outros. Empreendedor de verdade é quem tem algo exclusivo, novo, diferente. Não precisa ser um produto físico. Pode ser uma nova forma de vender, de fazer marketing, uma ideia, mas que não seja fácil de copiar. Se não, dura pouco. E, principalmente, precisa ter valor. Não pode ser de graça. Precisa trazer um benefício tão grande para a sociedade que ela aceite pagar por isso. Pode até ser algo filantrópico, que os outros – ou governo ou as pessoas que tem recursos – paguem em troca do benefício.

O senhor começou a programar em 1965, parou em 1992 e voltou em 2007. É importante nunca parar de trabalhar com aquilo de que se gosta?
Quando falo dos dez princípios do Circuito Netas, digo o seguinte: só há uma coisa que traz mais felicidade do que “Amar e ser amado(a)”, é a excitação pelo trabalho. De atingir, ou melhor, estar próximo de atingir uma meta. E todo trabalho pode trazer essa felicidade. Programar tem a vantagem que cada vez que o resultado explode na tela, do jeito que você imaginava, a meta foi cumprida. Ou seja, é frequente. Já, por exemplo, certos trabalhos como vendas complexas, política, pesquisas científicas, têm metas mais difíceis de serem atingidas. Em compensação, quando atingidas, a sensação de vitória é maior. Como se diz, a vida é feita destes momentos.
O segredo está em fazer o que se gosta ou se especializar no negócio que se empreende?
Gostar do trabalho profissional é o ideal. Mas nem sempre é possível. Por isso, eu sempre digo: o importante é ter sempre o que fazer. O maior drama é não ter o que fazer quando se tem um tempo livre. É preciso ter sempre um trabalho (trabalho aqui no sentido de atividade) que se goste, para ocupar esse tempo. E não precisa ser o trabalho que te fornece “o pão nosso de cada dia”, que é obrigatório para seu sustento. Pode ser um trabalho cultural, esportivo, filantrópico. O importante é ter algo na vida que te preencha a cabeça. Que quando tudo está ruim ou vazio, o simples envolvimento nesse trabalho te faz esquecer do resto e te faz feliz. Aí não tem tempo ruim.

Dividir para multiplicar. O senhor cita isso em seu livro e destaca que esse pensamento somente o fez lucrar. Podemos dizer que um dos princípios para prosperar é compartilhar?
Mas é preciso saber escolher com quem compartilhar. É preciso saber dizer não, pois chega um momento da vida em que todos querem compartilhar o seu sucesso, navegar nas suas ondas, tão difíceis de serem construídas. Tem que ser ganha-ganha. De cada dez possibilidades, normalmente só uma deve ser levada adiante. O efeito de uma parceria malfeita é devastador. Por isso, cuidado. Peça conselhos. Não aceite jamais de primeira. Analise, estude o passado da pessoa, tenha calma. E faça parcerias sempre com portas abertas para uma cisão. Não se intimide em colocar essa exigência.

Steve Jobs disse que é importante criar uma cultura corporativa mesmo na administração doméstica. Muitas pequenas empresas são familiares e evitam a profissionalização. É um erro? Por quê?
Se a empresa é pequena, se profissionalizar não é ter uma estrutura complexa, auditoria, conselho, escritório de advocacia, ISO 9000. O que Steve Jobs quis dizer é que devemos seguir sempre, independentemente do tamanho, princípios que, via de regra, são enaltecidos na empresa grande: respeito a prazos de entrega, a orçamentos, à liderança de quem a tem de direito, a liberdade do companheiro, a ética, a honestidade, a verdade. Na empresa grande se aprende esses princípios com mais energia. Há cursos, palestras, seminários. Na pequena empresa eles não são levados tão a sério, isso é um erro.

Um de seus lemas é “devolver para a sociedade parte de tudo o que a sociedade já lhe proporcionou”. O senhor sempre teve um perfil de compartilhar conhecimento. Escreveu o primeiro livro sobre programação em língua portuguesa e, hoje, tem o Instituto Netas. O empreendedor deve ter consciência de seu papel na sociedade? O significado da palavra Totvs tem a ver com isso?
Esse papel é cumprido sem que você perceba. Faz parte. Se você não fizer nada para a sociedade, nada ganhará dela. E nunca será bem-sucedido. É uma escolha. É sim ou não, não tem talvez. Ou você vive uma vida vegetal – come, bebe e dorme o dia todo e acha que está tudo bem, e se não achar, não adianta reclamar, ninguém te ouvirá –, ou você é proativo – trabalha pra caramba, só tem recompensas e dificilmente terá razões para se queixar. Infelizmente, a maioria de nossa juventude não entende essas verdades. E pior, acreditam e enaltecem a primeira opção. Talvez por algumas influências televisivas, cinematográficas, interesseiras que existem por aí. Por isso criei o Circuito Netas. É uma tentativa de mostrar o lado positivo e indicado da vida.

O senhor destaca a importância da família, da prática de esportes, da boa alimentação e de uma boa noite de sono como elementos importantes para se ter sucesso. Mas muitos empreendedores trabalham tanto na empresa que se esquecem de suas vidas no âmbito particular, não?
Não aceito essa reclamação. Ultimamente tem havido uma corrente muito forte nesse sentido, de que precisamos trabalhar menos. Não é verdade. Não é produtivo. Deixe a gente trabalhar. Ninguém vai ficar doente por causa disso. Nem deixar de dar atenção à família. Ainda mais hoje, que boa parte do trabalho pode ser feita em casa, à distância. O que é pior: um pai que trabalha demais ou um filho que fica o dia todo no videogame? Pior é quem não tem o que fazer, não gosta de nada, é infeliz, propaga esse clima. É claro, vamos dividir as atividades: práticas físicas todos os dias, amar a família, alimentar-se bem, dormir o suficiente, ser espiritual. Engraçado é que quem trabalha bastante sempre consegue fazer tudo isso.

Como surgiram as ideias para suas duas novas empresas, o Instituto Netas e a TI Educacional? A educação é uma das soluções para se empreender mais e melhor?
Gosto de dar palestras, aulas, transmitir para os outros o que a vida me ensinou. E quem ensina é quem mais aprende. O duro é conseguir alunos. Quando vejo cadeiras vazias na plateia, fico triste. Estou agora desenvolvendo um novo treinamento, todo diferenciado. Ensino gestão empresarial com TI, mas mesclo minhas aulas com atividades ao ar livre, dinâmicas e palestras sobre qualidade de vida no SPAventura, no interior de São Paulo. É a realização de um sonho que sempre tive.

Qual é o seu atual desafio?
Sala cheia nos próximos treinamentos. Agenda lotada nos próximos meses. E compartilhar conhecimento.

Fonte: PrimaPagina

compartilhe

comente

  • comentários
publicidade