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The Economist: Déficits orçamentários devem depender da taxa de desemprego

Discussões sobre estímulos estão surgindo por toda parte. É hora de o orçamento se basear em regras

30 nov 2020
08h48
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Podemos perdoar os analistas econômicos que estão sentindo uma chicotada. Enquanto a covid-19 corre desenfreada na Europa e na América, a economia mundial está sofrendo mais um golpe com a pandemia. Os consumidores americanos estão desanimados; o setor de serviços europeu está se contraindo. Ao mesmo tempo, a crescente perspectiva de vacinação em massa em 2021 aumenta a possibilidade de uma recuperação iminente. Em 2020, os economistas estiveram muito pessimistas quanto a rapidez com que o crescimento se recuperaria após a primeira onda de infecção, especialmente nos Estados Unidos. Uma vacina pode possibilitar mais uma retomada em 2021.

O consenso da primavera de que os governos deveriam gastar muito em pacotes de auxílio deu lugar a discussões e confusão. Nos Estados Unidos, o secretário do Tesouro Steve Mnuchin está encerrando alguns dos programas de emergência do Federal Reserve (Fed, o banco central americano). Janet Yellen, que o presidente eleito Joe Biden escolheu esta semana para ser a sucessora de Mnuchin, será recebida por uma tempestade jurídica e política sobre a autoridade do Fed sobre os empréstimos. Parece improvável que o Congresso concorde em renovar os gastos emergenciais com seguro-desemprego e empréstimos antes que Biden tome posse. Na Europa, a Hungria e a Polônia estão segurando o orçamento da União Europeia e seu "fundo de recuperação" de € 750 bilhões (US$ 900 bilhões) em uma disputa sobre se o desembolso dos recursos deve ser condicionado ao cumprimento do Estado de Direito pelos países. A Comissão Europeia alertou vários países sobre suas dívidas. O governo da Grã-Bretanha está tentando conciliar sua desconfiança instintiva aos déficits com o reconhecimento de que a economia ainda precisa de suporte vital, em parte cortando o orçamento de ajuda externa.

É necessário um pensamento claro. Deve-se começar com o reconhecimento de que a dívida pública dos países ricos, embora crescente, está sustentável por causa das taxas de juros baixíssimas. Apesar de ter tomado empréstimos no valor de 19% de seu PIB este ano, a Grã-Bretanha economizará cerca de £ 13 bilhões (US$ 17 bilhões) em juros da dívida em comparação com o ano passado. Enquanto as taxas estiverem baixas, o aumento da dívida por si só não exigirá um aperto de cinto após a crise.

Um problema diferente surgirá se a pandemia fizer uma ferida profunda nas economias, reduzindo a receita tributária e aumentando os gastos com serviços públicos por um longo tempo. O resultado seria um déficit persistente nas finanças públicas. No entanto, a extensão do impacto duradouro da pandemia é altamente incerta devido à natureza inédita da crise. Os principais fatores para as recentes flutuações econômicas têm sido os ditames dos governos sobre a abertura de lojas e restaurantes, com um impacto que confunde os modelos econômicos ortodoxos. A taxa de desemprego nos Estados Unidos ficou abaixo da previsão de verão do Fed em mais de dois pontos percentuais em questão de meses. Os cenários apresentados pelos analistas oficiais da Grã-Bretanha esta semana variaram de nenhum dano duradouro a um impacto de longo prazo de até 6% do PIB ao ano.

É melhor esperar para ver o tamanho do buraco que a pandemia deixará nos orçamentos do que correr o risco de retardar a recuperação com austeridade prematura. A Grã-Bretanha optou por esperar. Mais países devem seguir o exemplo da Austrália e se comprometer a não apertar a política fiscal ativamente até que a economia tenha cruzado um limite definido - no caso, uma taxa de desemprego de 6%. Por mais que a clareza na "orientação futura" dos bancos centrais ajude o estímulo monetário a funcionar, as regras fiscais ajudariam a aumentar a confiança no futuro.

Infelizmente, colocar em prática uma nova estrutura fiscal formalizada será difícil nos Estados Unidos, com seu sistema político dividido e travado. Ao mesmo tempo, um acordo pragmático pode ser possível no curto prazo - os democratas deveriam aceitar o estímulo menor oferecido pelos republicanos, em vez de esperar pelos enormes gastos que prefeririam. Com os desempregados queimando suas economias e as pequenas empresas enfrentando um inverno rigoroso, a velocidade do apoio emergencial é mais importante do que seu tamanho.

As consequências de quaisquer erros de política serão ainda maiores hoje porque as taxas de juros baixas significam que os bancos centrais não podem cavalgar facilmente para o resgate. Os governos podem esperar um pouco mais antes de fechar a carteira. E esperar é a escolha mais cautelosa e responsável. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

©? 2020 The Economist Newspaper Limited. Direitos reservados. Publicado sob licença. O texto original em inglês está em www.economist.com

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