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Remédio amargo

Para combater inflação, com o governo entregue à sanha da negociata, não há espaço para discutir alternativas

2 ago 2021 05h10
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A inflação voltou. A prévia do IBGE para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de julho bateu 8,6% nos últimos 12 meses, a maior desde setembro de 2016. Esse número é uma média. Para os bacanas que ganham mais de R$ 16.510,00 por mês, o Ipea estima uma inflação acumulada até junho de apenas 6,4%. Para quem pena com menos de R$ 1.650,50 mensais, o índice está em 9,2%. O preço do botijão de gás subiu 25% em um ano, menos que o quilo de acém, que aumentou 40%. A gasolina ficou 44% mais cara. Enquanto isso, a taxa de desemprego bate recordes olímpicos.

A inflação escapou da jaula pela combinação, rara e nefasta, entre aumento das commodities e desvalorização cambial. O Banco Central (BC), nessas circunstâncias, aperta o único botão que existe em seu painel de comando e eleva os juros. A taxa Selic, que fechou em 2% no ano passado, deve superar 7% no final deste ano.

Há três pontos na agenda da política de combate à inflação que têm sido menosprezados. O primeiro é o mito de que o Banco Central não deve interferir no câmbio. Evitar os horrores de um câmbio fixo não deveria implicar um silêncio obsequioso. O resultado é a extrema volatilidade da cotação do dólar. Nos últimos cinco anos, a volatilidade do real medida pelo coeficiente de variação ficou em 20%, muito mais que as moedas da Rússia (9,3%), África do Sul (9,7%), Índia (5,3%) ou México (7,5%).

Excessiva volatilidade é mais perniciosa se temos indexação de preços. Um choque cambial tende a ser reverberado por toda a economia se muitos preços estão atrelados a índices de inflação. Vinte e sete anos depois do Plano Real, ainda convivemos com um sistema que vincula preços e salários ao passado, o que dificulta a dissipação dos choques. A correlação entre a variação anualizada do IPCA com a inflação de três ou seis meses atrás é de, respectivamente, 88% e 72%. No caso do CPI americano, a correlação é de 63% para três meses e de 33% para seis meses. A indexação no Brasil torna a inflação mais pegajosa e exige juros mais altos. A terceira lacuna é a insistência em não tomar o núcleo da inflação como meta a ser perseguida pelo Banco Central. Vários países adotam esse procedimento. O efeito prático é evitar que o BC tenha de subir juros apenas por causa de choques temporários.

O debate sobre política anti-inflacionária, no entanto, está interditado hoje no Brasil. Acuado, o governo não tem nem credibilidade nem aptidão para conduzir mudanças relevantes. Perdeu-se na reforma administrativa e construiu um labirinto em torno da reforma tributária. Não há norte, não há método, inexiste estratégia. O único objetivo é sobreviver.

Elevar juros com o desemprego em nível recorde para conter a inflação é manobra de alto risco. Os juros mais altos atingirão em cheio as famílias que aumentaram seu endividamento durante a pandemia. Entre abril de 2020 e abril de 2021, o total de endividamento em relação à renda familiar acumulada em 12 meses passou de 49,2% para 58,5%, o mais alto valor da série histórica.

A elevação da taxa de juros também torpedeará o próprio setor público. A dívida pública federal cresceu 21,4% entre junho do ano passado e junho de 2021, registrando portentosos R$ 5,33 trilhões. O custo médio da dívida interna em títulos ainda é baixo: 7,7% nos últimos 12 meses.

Mas a tendência é de rápida elevação, no rastro da subida da Selic, já que 35% dessa dívida é em Letras Financeiras do Tesouro (LFTs), relíquia dos tempos de hiperinflação que já deveria ter se transformado em item de colecionador.

O combate à inflação será feito pela elevação dos juros. O quadro é diferente, mas vamos atacar com o remédio de sempre. Com o governo entregue à sanha da negociata, não há espaço para discutir alternativas.

*ECONOMISTA, FOI DIRETOR DE POLÍTICA MONETÁRIA DO BANCO CENTRAL E PROFESSOR DE ECONOMIA DA PUC-SP E DA FGV-SP. E-MAIL: LUISEDUARDOASSIS@GMAIL.COM

Estadão
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