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Reforma da Previdência deve impulsionar consumo, apontam especialistas

Impulso, porém, deverá vir de forma lenta; volume de vendas do comércio em maio pelo conceito de varejo restrito caiu 0,10% em relação a abril

11 jul 2019
15h47
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O avanço da reforma da Previdência na Câmara dos Deputados tende, em tese, a impulsionar o consumo, prevê o economista-chefe da Boa Vista SCPC, Flávio Calife. Mas esse impulso virá de forma muito lenta, pondera, ao comentar o resultado das vendas do comércio varejista em maio, divulgado nesta quinta-feira, 11, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Ao Estadão/Broadcast, Calife justifica a previsão de impulso lento lembrando que os empresários se decepcionaram muito no começo deste ano ao depositar excessiva confiança na retomada da economia e no próprio andamento da reforma pela ação do governo que, à época, acabara de assumir o comando do País. Mesmo com a aprovação, não devem elevar a confiança da mesma forma. Pesa ainda na lentidão a insuficiência do mercado de crédito em sustentar o ritmo das vendas do varejo.

Em maio, as vendas do varejo restrito ficaram praticamente estáveis em relação a abril, com ligeira queda de 0,1% na série com ajuste sazonal. Em abril, o indicador havia recuado 0,4%. Na comparação com maio de 2018, as vendas subiram 1%. No ano, acumulam alta de 0,7% e 1,3% em 12 meses.

Esse cenário, de acordo com a Boa Vista SCPC, mostra que o mercado de crédito favorável, com taxas de juros e inadimplência dos consumidores historicamente baixas, sozinhos, não têm sido suficientes para compensar o fraco crescimento da renda e o elevado nível de desocupação e subutilização da mão de obra. "Além disto, o endividamento em alta também compromete uma retomada mais acelerada dos empréstimos. O fraco crescimento da renda limita a capacidade de endividamento, o que compromete as vendas em segmentos mais dependentes do crédito", explica Calife.

A prova, de acordo com o economista, são as vendas de veículos, que vinham crescendo de forma significativa, sustentadas pelo crédito, e que caíram 2,1% em maio, após queda de 0,3% em abril.

No setor de vestuário e calçados, as vendas acumulam queda de 0,3% em 12 meses. Também o segmento de móveis e eletrodomésticos registrou queda das vendas nesta base de comparação, de 1,5%. "Nem as datas comemorativas vêm sendo capazes de alavancar as vendas", comenta, citando o dado da Boa Vista segundo o qual as vendas para o Dia das Mães, em maio, e para o Dia dos Namorados, em junho, teriam crescido 1,7% e 1,4%, respectivamente, menos do que em 2018, quando cresceram 4% e 2,2%, pela ordem.

Já no mercado financeiro, de acordo com Calife, o avanço da reforma na quarta-feira, 10, na Câmara deve continuar a influenciar positivamente os principais indicadores. "Os juros futuros já recuaram bastante, por exemplo, o que tende a baratear o crédito", cita o economista da Boa Vista. Mas isso, não deve exercer impactos significativos no consumo nos próximos meses, ressalva.

SP Cap

Os indicadores do varejo em maio são a comprovação, por ora, da situação concreta do nível de desemprego alto e da ociosidade elevada da economia, disse o economista e sócio fundador da SP Cap, Fábio Susteras. O volume de vendas do comércio em maio pelo conceito de varejo restrito caiu 0,10% em relação a abril.

"É a comprovação de que a economia está caminhando dentro de um ambiente hostil, no que se refere ao consumo das famílias", disse. Para ele, do ponto de vista das expectativas, estágio em que entra a reforma da Previdência, um passo foi dado na quarta.

"Digo um passo porque ainda tem todo o trâmite da reforma em si. Foi aprovada em primeiro turno, mas tem toda a questão dos destaques que podem contribuir ou não para a tramitação da reforma no segundo turno, encaminhamento para o Senado, discussão sobre Estados e municípios e o próprio projeto de capitalização. Mas sem dúvida alguma demos um baita passo", disse.

Isso, de acordo com Susteras, já tem se refletido nos mercados. A bolsa de valores, lembra ele, bateu recorde e o dólar está em nível baixo embora em algum momento possa haver um movimento de realização.

O próximo passo

O próximo passo, de acordo com o sócio da SP Cap, é isso caminhar e começar a afetar as expectativas do setor empresarial, em primeiro lugar. "A questão da reforma da Previdência dá tranquilidade aos empresários do ponto de vista fiscal, do bom ambiente de investimentos", diz Susteras, ao lembrar que a reforma da Previdência não é uma panaceia que resolve todos os problemas.

"É um pouco chover no molhado porque a reforma da Previdência é uma condição necessária, mas não é suficiente para o reaquecimento da atividade econômica. Daqui para frente tem que vir outras questões", disse, acrescentando na necessidade da reforma tributária bem como o ambiente favorável à reforma.

Interessante, na visão do economista, é que num momento de retração da economia mundial, que tem levado os bancos centrais a indicarem afrouxamento de suas políticas monetárias, o Brasil é um dos poucos com possibilidade de crescimento. "Aí você abre uma possibilidade de investimento de capital estrangeiro em infraestrutura, por exemplo".

Por tudo isso, Susteras entende que os dados do varejo retratam algo que já era esperado, decorrente do desemprego, comprometimento de renda e das baixas expectativas. "Mas o passo dado na quarta com a aprovação da reforma da Previdência em primeiro turno já mexe com um dos componentes, que são as expectativas", afirmou.

Estadão
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