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Presente e futuro do setor elétrico não passam pelo caminho mais simples

A melhor saída para os desafios do setor é apostar na diversificação da matriz energética, impulsionada pela permanente inovação tecnológica

13 jan 2022 17h25
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Quando o assunto é energia, não existe solução única ao se tratar de segurança de suprimento, descarbonização, democratização do acesso e modernização. No decorrer deste artigo, explico, e o leitor poderá compreender, por que o setor elétrico, com toda a complexidade que lhe é característica, demanda iniciativas diversas para que, como uma engrenagem, possa funcionar e se desenvolver.

Este ano, desde que a sociedade brasileira foi confrontada com a pior escassez hídrica dos últimos 91 anos, e que se somou a um outro momento único, a pandemia da covid-19, tivemos de buscar alternativas para que o País não passasse por um colapso elétrico e afastássemos o risco de apagão e racionamento. Momentos difíceis que não só o Brasil enfrenta, mas diversos países, cada um com suas causas e especificidades, claro. E a retomada da economia no mundo, com o momento pós vacinação, tem incrementado ainda mais o desequilíbrio entre demanda e abastecimento.

Recentemente, a China se viu diante de apagões ocasionados pela falta do seu principal suprimento energético: o carvão. Na Europa, os preços do gás natural dispararam, levando ao risco de escassez em meio à elevada demanda do inverno. Alemanha, França, Itália e Reino Unido, por exemplo, vêm apresentando elevação de até quatro vezes em comparação a 2020.

E as adversidades sofridas no Brasil e tantos países hoje evidenciam o complexo desafio do processo de modernização e transição energética, mostrando que não se pode investir em apenas um tipo de fonte, mas sim na diversificação da matriz. No Brasil, podemos dizer que graças a uma matriz que já possui uma diversificação à frente dos demais países, não enfrentamos um cenário ainda pior.

Temos uma condição privilegiada em que podemos dispor, hoje, de uma matriz mais de 82% renovável, composta por cerca de 60% de fontes hídricas, entre grandes e pequenas usinas hidrelétricas; 11,12% de eólicas; 8,69 % de térmicas movidas a biomassa e 16,57% movidas a combustíveis fósseis; 2,5% de solar; e 1% nuclear (segundo dados atualizados da Agência Nacional de Energia Elétrica - Aneel). Além disso, dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) apontam que, produzindo e consumindo energia, cada brasileiro emite, em média, 7,5 vezes menos do que um americano e 3 vezes menos do que um europeu ou um chinês, por exemplo.

Contudo, para superar a severa escassez hídrica deste ano e a redução da nossa geração hidrelétrica, fomos obrigados a ampliar o despacho de térmicas movidas a combustíveis fósseis, que vêm oferecendo um suprimento ainda mais caro do que de costume, devido à atual conjuntura da crise energética mundial. O resultado disso é que, agora, buscamos soluções que ajudem a mitigar o alto impacto nas tarifas dos consumidores, como a Bandeira de Escassez Hídrica e a Medida Provisória 1.078 publicada nos últimos dias. A MP prevê um empréstimo para amortizar a outra parte desses custos que a bandeira tarifária não é capaz de cobrir. A medida é parte das ações de enfrentamento a esse cenário, ao lado da campanha de consumo consciente da população e os programas de redução voluntária da demanda. Tudo para que o País evitasse novamente o fantasma do racionamento e do apagão, com consequências ainda mais severas à nossa economia.

O momento evidencia também, além da questão da transição energética no Brasil na pauta de modernização, outro aspecto apontado como algo que teria evitado tudo isso que estamos vivenciando: a eficiência energética. O desenvolvimento contínuo da eficiência energética, que é sim o futuro, também não é o nosso principal desafio por aqui. E, embora se fale que se o Brasil estivesse mais avançado no tema estaríamos em uma situação melhor, saliento que, quando comparamos nosso consumo per capita ao de outras populações mundiais, como países da Europa, China e EUA, já contamos com um consumo relativamente baixo (Segundo a EPE, o consumo per capita no Brasil é de 2,5 KW/h). Ou seja, o ganho da eficiência dentro de um contexto como o que temos não seria tão decisivo para a atual conjuntura que enfrentamos.

O debate político que tem absorvido movimentos tão importantes para a transição energética em todo o mundo, por vezes, acaba gerando visões simplistas acerca das soluções que buscamos. O debate político é fundamental, mas não pode vir sozinho e, muitas vezes, deslocado das reais necessidades e da realidade dos mercados, dos consumidores de energia e da sociedade. Como mencionei anteriormente, o setor elétrico é uma engrenagem, e as diversas peças que a compõem precisam ser ajustadas em harmonia conjunta, para que possamos conquistar nossos objetivos futuros com energia mais limpa, eficiente e acessível a todos.

Nos cabe pensar que, ao buscarmos uma matriz cada dia mais limpa e renovável, não podemos preterir da busca por uma energia que também seja segura e acessível a todos. Para tanto, a melhor saída é apostar na diversificação, impulsionada pela permanente inovação tecnológica. Cabe pensar que, na busca por eficiência energética (o que é bom), não podemos nos esquecer que ainda temos pela frente uma retomada econômica e uma perspectiva futura da eletrificação da mobilidade, com a necessidade de ampliação do nosso parque gerador. Para isso, o setor elétrico não pode estar voltado a soluções pontuais e simplistas, mas sim conjunturais, e que, como uma engrenagem, possa projetar a nossa sociedade para o futuro.

*PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE DISTRIBUIDORES DE ENERGIA ELÉTRICA (ABRADEE)

Estadão
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