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Por que Wall Street elogia o mercado chinês mesmo com crescentes incertezas nos negócios

Ao mesmo tempo em que aperta seu controle sobre os negócios e a economia, Pequim está oferecendo oportunidades às empresas de investimento global para atender empresas chinesas e investidores

13 out 2021 15h52
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Este ano tem sido perturbador para os negócios chineses. O Partido Comunista no poder tem ido para cima do setor privado, indústria após indústria. O mercado de ações sofreu um grande golpe. A maior incorporadora imobiliária do país, a Evergrande, está à beira do colapso.

Mas, para alguns dos maiores nomes de Wall Street, as expectativas para a economia da China parecem mais otimistas do que nunca. A BlackRock, maior gestora de ativos do mundo, encorajou os investidores a aumentarem a exposição deles à China em até três vezes. "A China está pronta para receber investimentos?", questionou o JPMorgan, antes de responder, "Achamos que sim". O Goldman Sachs também disse que sim.

O otimismo deles diante de uma incerteza crescente tem intrigado os especialistas da China e atraído críticas de um amplo espectro político, do investidor George Soros a republicanos no Congresso. Soros chamou a postura da BlackRock de "erro trágico" que "provavelmente perderia o dinheiro" de seus clientes e "prejudicaria os interesses de segurança nacional dos Estados Unidos e de outras democracias".

Mas Wall Street vê uma oportunidade. Mesmo enquanto Pequim aperta seu controle sobre os negócios e a economia, ela está oferecendo ótimas oportunidades às empresas de investimento global para atender as empresas chinesas e os investidores.

No auge do sell-off (movimento em que os investidores optam por vender seus ativos em determinado momento) do mercado no fim de julho, o vice-presidente da Comissão Regulatória de Valores Mobiliários da China (CSRC, na sigla em inglês), Fang Xinghai, convocou executivos da BlackRock, do Goldman Sachs e de outras empresas para uma reunião, tentando atenuar o nervosismo dos investidores com as medidas severas de Pequim, de acordo com um memorando ao qual tive acesso.

Cerca de 20 dias depois, os reguladores aprovaram o pedido da BlackRock para oferecer fundos mútuos na China. Na mesma época, um executivo da BlackRock disse ao Financial Times que a China estava sub-representada nas carteiras de investidores mundiais e em benchmarks globais. A empresa recomendou que os investidores aumentassem suas alocações de duas a três vezes.

A BlackRock disse em um comunicado que seus clientes globais "podem se beneficiar com a diversificação de carteira que inclui uma alocação de ativos mais deliberada para a China", acrescentando que a expansão de Wall Street no país é consistente com os objetivos da política do governo americano. O Goldman Sachs e o JPMorgan não quiseram se pronunciar.

Wall Street agora se destaca como uma voz cada vez mais solitária, defendendo mais relacionamento com a China. Ambos os partidos políticos dos EUA estão pedindo uma postura mais rígida. E os posicionamentos também endureceram em outros países. O vasto mundo dos negócios tornou-se mais ambivalente; ele ainda vê a China como um mercado enorme, no entanto, questões como comércio, propriedade intelectual e o apoio do governo às empresas locais têm complicado seu apoio tradicional.

Wall Street talvez esteja certa em ser otimista. A China desafiou as previsões de baixa no passado. Apesar do governo autoritário do partido em outros assuntos, ele há muito tempo traz um toque de laissez faire para a economia, ajudando no crescimento.

Mas Xi Jinping, o principal líder da China, está conduzindo o país para um período de mais incertezas. O modo de governar do partido está mais rígido e autoritário do que antes. De modo geral, ele não renunciou aos princípios de mercado, porque precisa de crescimento econômico para sustentar sua legitimidade, mas está mexendo em controles mais rígidos. O impacto de longo prazo está longe de ser evidente.

Nesta temporada, o setor privado da China sofreu sua pior derrota para o Partido Comunista em décadas. Com apenas alguns decretos repentinos, Pequim acertou em cheio a indústria da internet, reduziu drasticamente as plataformas de reforço escolar online e levou algumas incorporadoras imobiliárias à beira do calote.

O Didi, principal aplicativo de transporte da China, foi um dos queridinhos de Wall Street quando abriu o capital em Nova York no final de junho, arrecadando mais de US$ 4 bilhões. O preço de suas ações caiu para quase a metade depois que o governo chinês decidiu limitar seus negócios dois dias após sua listagem na bolsa, deixando muitos investidores - entre eles os fundos americanos - no limbo.

"Não acho que possamos usar um pensamento lógico e desprezar o contexto para ter uma visão da China na década de 2020 e depois disso", disse George Magnus, que pesquisa sobre o país na Universidade Oxford. A China está passando por "uma forte guinada para a esquerda na política", afirmou, "que está criando uma profunda contradição entre o desejo por controle político e o desejo por bons resultados econômicos e de inovação". "Acho que o primeiro está fadado a vencer", acrescentou Magnus.

Alguns dos maiores nomes de Wall Street discordam. Ray Dalio, fundador do fundo de hedge Bridgewater, escreveu no fim de julho que as pessoas no ocidente não deveriam interpretar as medidas mais rígidas de Pequim como "os líderes do Partido Comunista mostrando suas verdadeiras visões anticapitalistas". Em vez disso, escreveu ele, o partido acreditava que essas medidas eram "melhores para o país, mesmo se os acionistas não gostam delas".

O relacionamento tem sido bom para o Bridgewater até agora. A empresa de Dalio arrecadou bilhões de dólares com clientes chineses como o China Investment Corp., o fundo soberano, e a Administração Estatal de Câmbio da China (Safe, na sigla em inglês), que administra as reservas monetárias do país. (O Bridgewater não quis se pronunciar.)

Esse é um roteiro que os negócios têm realizado com a China há muito tempo: diga coisas boas para Pequim, faça lobby em nome da China e, em seguida, solicite acesso aos mercados e capital.

O Goldman Sachs se tornou o primeiro banco estrangeiro a solicitar um negócio de títulos independente na China em dezembro. A BlackRock, que descreve a China como um mercado "desconhecido", contratou um ex-funcionário da agência reguladora da China para chefiar seus negócios no país. Há tantas empresas financeiras globais se expandindo no país que existe uma guerra de talentos.

As empresas de Wall Street argumentam que, apesar dos riscos regulatórios e da desaceleração do crescimento, a China é grande demais para ser ignorada e que suas ações estão subvalorizadas demais para recusar.

Muitos investidores prestaram atenção a isso. Os fundos mútuos americanos e os fundos negociados em bolsa que investem principalmente na China detinham US$ 43 bilhões em ativos líquidos no final de agosto, um aumento de 43%, ou US$ 13 bilhões, em relação a 2020, de acordo com a Morningstar.

Várias empresas e investidores têm ganhado muito dinheiro com a China ao longo dos anos. E apesar da conversa hostil entre os dois lados, eles ainda compartilham grandes laços comerciais. A China fabrica e compra iPhones. A mesma coisa acontece com os veículos da Chevrolet. O crescimento econômico do país, embora esteja desacelerando, ainda é mais forte do que na maioria dos lugares. Isso não vai mudar do dia para a noite.

Mas, mesmo enquanto Wall Street encoraja os negócios na China, o equilíbrio entre o relacionamento com Pequim e o confronto com Pequim não está funcionando. E os legisladores americanos estão começando a examinar minuciosamente esses laços. Representantes eleitos tanto pelo partido Democrata quanto pelo Republicano manifestaram preocupação em relação aos fundos americanos investindo na China. Um fundo de aposentadoria do governo dos EUA cancelou os planos de investir em ações chinesas no ano passado, após crescentes críticas de que a jogada poderia ter efeito negativo para os objetivos de segurança nacional.

Matthew Pottinger, vice-conselheiro de Segurança Nacional do ex-presidente Donald Trump, alertou recentemente, em um artigo para a revista Foreign Affairs, que essas instituições "agarram-se a hábitos autodestrutivos adquiridos ao longo de décadas de 'relacionamento', uma estratégia da China que levou Washington a priorizar a cooperação econômica e o comércio acima de tudo".

Estadão
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