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Por que a Bolsa cai e o dólar sobe com a instabilidade política?

Especialistas explicam que as altas e quedas não se tratam de uma relação tão simples como causa e efeito

8 abr 2019
10h40
atualizado às 12h07
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Depois de subir e bater 100 mil pontos no mês de março, o Ibovespa - índice de referência para a Bolsa de Valores brasileira - já enfrentou tantas altas e quedas quanto houve de intempéries no cenário político dos últimos dias. Com o dólar, não foi diferente: a instabilidade dominou os primeiros 3 meses do ano. Perto de se completar 100 dias da presidência de Jair Bolsonaro, e com o mercado tão sensível, a Bolsa cair e o dólar subir à mercê de tudo o que acontece em Brasília se tornou corriqueiro.

Para entender porque esses fenômenos acontecem e quanto a alta e a queda do dólar e da Bolsa têm mesmo a ver com o que ocorre na política, é preciso lembrar que o mercado financeiro é regido por confiança. "Os preços de ações e a cotação do dólar dependem de expectativas. E o que o mercado mais espera hoje é a reforma da Previdência", diz William Eid -- Coordenador do Centro de Estudos de Finanças da FGV. Ele explica que à menor sensação de que o pacote proposto pelo governo corre o risco de não ser aprovado, os investidores desconfiam do crescimento da economia brasileira e deixam de colocar recursos em ações de empresas locais.

Foi exatamente o que aconteceu na última quarta-feira, 3, quando o ministro da Economia Paulo Guedes enfrentou uma artilharia da oposição na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, onde estava para defender a Proposta de Emenda à Constituição para a reforma da Previdência. A Bolsa perdeu 1,5 mil pontos e fechou em queda de 0,94%, com o dólar subindo a R$ 3,87. A sessão terminou em confusão.

O resultado da falta de confiança, gera maior oferta de venda de ações brasileiras e menor procura por elas. Dessa maneira, os preços diminuem e o Ibovespa, que reúne as ações das principais empresas do Brasil, cai. Uma vez que isso acontece, pode-se observar a saída de moeda estrangeira da economia, já que parte dos investidores são de fora do país. Se há menos dinheiro estrangeiro por aqui, o real se desvaloriza em relação ao dólar, fazendo o câmbio subir. Além disso, na busca por mais segurança, as apostas se direcionam para a compra da moeda americana, o que pressiona o dólar para preços ainda mais altos. Porém, apesar de parecer lógica, essa não é a única explicação possível para o cenário de Bolsa em baixa e dólar em alta.

O professor Eid lembra que economias de democracias mais sólidas que a do Brasil têm menor instabilidade em relação à repercussão noticiário político na Bolsa de Valores. "As instituições são mais sólidas em outros países. Aqui, cada um que entra no poder muda tudo, questiona até a história. Por isso, qualquer escorregão tem impacto na economia", diz. Ele ainda ressalta que quando se trata do dólar, especificamente, há muitos outros fatores que influenciam a equação.

O economista-chefe da Guide Investimentos, Victor Cândido, aponta que a cotação do dólar depende muito de fatores externos e que, nesse momento, os investidores estrangeiros se mostram preocupados com a desaceleração da economia mundial. Nesse cenário, o movimento natural é a compra de moedas que representam mais segurança, no caso, o dólar. O efeito dessa movimentação é uma apreciação da moeda: ela passa a valer mais. "Cerca de 80% do movimento diário do dólar vem de fora", diz o economista.

E o que isso quer dizer no dia-a-dia

Não há motivo para pânico. Os especialistas indicam que os efeitos de oscilação da Bolsa e da instabilidade do dólar não se refletem imediatamente no dia-a-dia da população que não investe em ações ou fundos de investimentos. No longo prazo, caso as quedas no Ibovespa se perpetuem e, com a saída de investimentos, somada à situação internacional, o dólar se estabilize em um novo patamar mais alto que o anterior, aí sim haveria uma pressão percebida na inflação do país. "As altas do dólar influenciam o preço de produtos importados, ou que tenham componentes importados, mas com a ociosidade da indústria brasileira, esses aumentos pontuais acabam não sendo repassados ao consumidor tão rapidamente", diz Victor Cândido, da Guide Investimentos.

Já para quem começou a evoluir nas finanças e deixou a poupança para se aventurar em outros investimentos de maior volatilidade, como a renda variável, o clima é mais hostil. "Esse cenário é péssimo para fundos multimercados. Se eu posso dar um conselho é: escolha muito bem o seu gestor", diz o professor do FGV William Eid. Ele adverte os investidores a avaliarem o desempenho dos fundos nos últimos 5 meses antes de colocar dinheiro em um deles.

Renda fixa x renda variável

Basicamente, há dois tipos de investimento no mercado financeiro. Quando você aloca capital na renda fixa, empresta seu dinheiro a um terceiro, que promete devolvê-lo com uma taxa de juros no futuro. O investimento pode ter rentabilidade prefixada, ou seja, quando o investidor faz a alocação, ele já sabe exatamente quanto vai ser pago a ele. Pode também ser pós-fixado, o que significa que o retorno será indexado a alguma taxa da economia, como o Certificado de Depósito Interbancário (CDI) ou à Selic.

Já na renda variável, o investidor torna-se um 'sócio' ao adquirir participações em uma empresa, por exemplo. Ele também pode apostar na valorização de um ativo, como uma moeda. Isso significa que seu retorno financeiro dependerá do resultado daquela companhia que ele comprou ações ou do desempenho do ativo em que aplicou. A rentabilidade não pode ser determinada no momento do aporte. Há mais incerteza neste tipo de produto, que pode gerar ganhos ou prejuízos maiores para o investidor.

A participação do investidor pode ser dar pela aquisição direta, como a compra de ações na B3, ou via fundos de investimento, em que um profissional faz a gestão dos recursos e normalmente cobra taxas de administração ou de performance pelo serviço.

Estadão
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