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Pare de dizer que no seu tempo era melhor

Atenção: o texto abaixo contém gatilhos sobre racismo, homofobia e misoginia.

18 mai 2022 01h00
| atualizado às 18h19
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Foto: Pixabay

Quantas vezes já ouvimos e dissemos essa frase? Para as novas gerações, a anterior sempre foi melhor, será verdade ou estávamos todos iludidos?

No meu tempo era melhor: A Mulher

Até 1962 a mulher só poderia trabalhar fora com a autorização escrita pelo marido ou pelo pai caso fosse solteira. Somente em 1988 foi consolidada a igualdade de direitos e deveres trabalhistas entre homens e mulheres e, sob o medo da destruição da família brasileira, a lei do divórcio só foi aprovada em 1977, apesar da pressão contrária de grupos conservadores e da igreja. Hoje temos mulheres jogando e comentando partidas de futebol, visto que até 1983 o futebol era um esporte proibido por lei para as mulheres. 

No meu tempo era melhor: A Pessoa Negra

Até o fim dos anos 1990 eram comuns expressões como “serviço de preto” para relacionar a pessoa negra a alguma coisa mal feita; “se não faz na entrada, faz na saída” para apontar um erro que aconteceria cedo ou tarde, sem mencionar os adjetivos depreciativos trocando o nome próprio por “macaco, crioulo, negão, meia-noite, urubu” que eram comuns na rua, na escola e também no trabalho. 

As crianças cantavam músicas de rua chamando o negro de “fedorento” e se alguém reclamasse, o agressor se sentia ofendido, se dando ao direito de ser racista e preconceituoso sem punição alguma, mesmo o racismo sendo considerado crime desde 1989, somente em 2023 com a lei 10.741/2003, que a injúria racial foi considerada como crime inafiançável sujeita a reclusão e multa.

No meu tempo era melhor: A Segurança no trânsito

Somente em 1997 que o uso do cinto de segurança tornou-se obrigatório, e só venceu a resistência das pessoas a partir do momento em que a infração ficou sujeita a multa e perda de pontos na carteira de motorista. Em 2020 o uso da cadeirinha para crianças até 10 anos também passou a ser obrigatório, mesmo em meio a inúmeras reclamações.

No meu tempo era melhor: Orientação sexual e a relação homoafetiva

Até meados dos anos 90 o termo “homossexual” era pouco comum no uso popular, ao invés disso eram usadas palavras pejorativas como “viado, traveco, sapatão, bicha, bichona, baitola” entre tantas outras para se referir hoje ao segmento LGBTQIA+. E não parava nisso, “caçar” travestis pelas madrugadas promovendo desde espancamentos com lesões até homicídios, infelizmente ainda é comum nos grandes centros urbanos.

Da mesma forma estas pessoas eram recusadas no mercado de trabalho e no convívio social, isso porque era inadmissível qualquer orientação que não fosse a heteronormativa, era tratada como doença. Assim a AIDS foi preconceituosamente classificada como “Câncer Gay” no auge da epidemia. A pressão feita por igrejas e entidades conservadoras em não reconhecer sequer os direitos constitucionais da população LBGTQIA+ perdura até hoje.

Somente em 2019 que a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero tornou-se crime no Brasil, nos mesmos moldes da penalização por crimes de racismo. 

No meu tempo era melhor: A Política e as eleições

Entre as pessoas com mais de quarenta anos existe um saudosismo míope de que no período da ditadura militar (1964 – 1985) não havia corrupção no governo, e que todo o sistema político era honesto e funcional. Em um governo com viés ditatorial é fácil afirmar a ausência de corrupção quando não se abre qualquer investigação para apurar, ou quando se abafam denúncias já feitas. O período de vinte e um anos de governo militar foi marcado por desaparecimentos, censura, perseguição, tortura e atentados contra aqueles que discordavam do governo e se manifestavam contra ele. 

Mas isso era culpa do povo brasileiro “que não sabia votar” segundo o discurso militar à época, comprado por muitos em vinte e um anos de eleições indiretas, e artifícios como a Lei Falcão de 1976 que tornava a propaganda eleitoral em uma rápida apresentação apenas da foto do candidato com nome, número e breve leitura de seu currículo, mais nada. Com isso as referências da trajetória política foram perdidas e os efeitos são sentidas até hoje. 

Os comícios com shows, distribuição de presentes (leia-se: compra de votos), e a prática do voto de cabresto assegurado pelo antigo sistema de votação com cédulas impressas era corriqueiro, os showmícios foram proibidos em 2006 considerados crimes eleitorais, e o sistema eleitoral através das urnas eletrônicas desde 1996 são o avanço na escolha dos representantes como sistema confiável sem nenhuma identificação de fraude.

No meu tempo era melhor: Polícia e segurança

Se como homem branco e de classe média cresci com medo da polícia transitando na rua, imagine aqueles que estavam na linha da vulnerabilidade e discriminação de gênero e raça. Explico: no imaginário geral, diziam que havia mais segurança nas ruas, mas isso porque a polícia prendia indistintamente tanto o ladrão quanto o cidadão. 

Era a época do Esquadrão da Morte, quando as pessoas desapareciam por banalidades e qualquer motivo era motivo para detenção e interrogatório como a cor da camisa, barba e cabelos grandes ou estar em atitude supostamente “suspeita”, algo de livre de interpretação das autoridades. Nossas palavras se resumiam em “sim senhor” e “não senhor” à polícia truculenta sem diálogo, diferente da atual que tem outro comportamento. 

No meu tempo era melhor: a TV, o cinema e a música

Os anos 70 e 80 foram campos férteis para a “doutrinação comunista e de esquerda” nas escolas, faculdades, livrarias e lojas de disco que não escapavam da implacável vigilância cívico-moral.
Em Belo Horizonte os militares certa vez apreenderam durante uma blitz em nas livrarias livros de arte cubista e até o clássico A Letra Escarlate. O LP “As Aventuras da Blitz” chegou às lojas com duas músicas não liberadas pela censura após a impressão dos discos, e a solução encontrada era riscar à mão com prego aproximadamente 30 mil cópias já prontas. O motivo da censura estava no palavrão e um jogo ambíguo de palavras em uma frase.

Diversos filmes ficaram proibidos por anos no Brasil, e outros eram liberados com cortes, ou como no caso de Laranja Mecânica, aplicando bolinhas pretas tampando a nudez ou uma cena mais violenta no filme. Peças de teatro eram invadidas e depredadas, o jornal Binômio em Belo Horizonte que foi totalmente destruído por uma ação de militares, que não deixou sequer uma gaveta inteira na redação. A novela Saramandaia foi interrompida e a primeira versão de Roque Santeiro nem foi ao ar. O último filme a ser proibido nos cinemas pelo governo foi Je vous salue, Marie em 1986 pelo ex-presidente José Sarney, censura feita em nome da “moral e bons costumes”.

No meu tempo era melhor: A Inflação

A nova república herdou dos governos militares uma inflação de mais de 240%, refletindo nos governos Sarney, Collor e Itamar que foram marcados pela hiperinflação e pelo confisco da poupança que levou centenas de brasileiros ao desespero total e absoluto. Os preços subiam duas ou três vezes em um único dia e as compras a prazo eram mais difíceis devido à alta taxa de juros. Era impossível fazer economia na intenção de comprar uma casa ou carro, quando em 1986 foi implantado o Plano Cruzado, modificando o nome da moeda nacional, instituiu-se o congelamento de preços e a população foi convocada a fiscalizar o comércio e fazer denúncias de irregularidades na Superintendência Nacional de Abastecimento (SUNAB) através de um disque-denúncia que raramente funcionava.

Em represália, o setor do Agronegócio retirou o abastecimento de carne nos frigoríficos e a compra de carne bovina só era possível através de abatedouros clandestinos a preços muito acima do praticado no mercado. A hiperinflação durou quase 10 anos para ser controlada com a implantação do Plano Real em 1994.

Em breve quando você envelhecer dirá a mesma frase: No meu tempo era melhor.

(*) Nikki Nixon é especialista em Processos Criativos, palestrante e fundador da Deuses e Monstros – Escola de Artes.

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