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O novo antigo normal: em breve!

Nossa retomada pode ser mais surpreendente do que os sacerdotes da Economia estão prevendo

1 jul 2020
04h11
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Não sou economista. Aliás, sinto-me um outsider nesta área do jornal, mesmo sendo seu leitor contumaz e pai de uma jovem economista. Mas não resisto à tentação de mexer neste vespeiro: as previsões sobre como serão os próximos meses em nossa economia.

Nós temos convivido com múltiplas tentativas de antecipar o grau de dificuldade que enfrentaremos. Há apostas para a queda do PIB que vão dos otimistas 6% aos mais trágicos chegando quase a 10%. Na visão mais pessimista, cairemos o equivalente a quase meio Chile este ano. É isso mesmo que vai acontecer? Algumas coisas me inquietam e compartilho três ideias sobre o que esperar do segundo semestre.

Em primeiro lugar, tem me parecido sempre que a visão do futuro é feita hoje com uma lente obscurecida pela poeira do presente. E olha que é muita poeira!

Em segundo lugar, a projeção é feita, habitualmente, com a exclusão de uma variável que não costuma entrar plenamente nos cálculos econométricos, muito mais concentrados que eles são nos indicadores consolidados ou parciais do fluxo dos negócios e em seus porta-vozes. Estou falando de uma variável que pouco a pouco, década após década, tem se atrevido a entrar nas reservadas discussões dos economistas e seus pares.

Daniel Kahneman ganhou o Nobel de Economia, em 2002, ao integrar em suas investigações considerações de natureza psicológica. Ou seja, mostrar o quanto o imponderável e nem sempre previsível comportamento humano pesa nas decisões que se refletem na vida do mercado. Em 2017, foi a vez de Richard Thaler ser laureado com o Nobel de Economia ao integrar pressupostos da psicologia em suas análises. O que ele disse é que as equações formais não resistem à irracionalidade do comportamento humano. E dizem que ele iria gastar o seu milhão de dólares de prêmio da forma mais irracional quanto possível.

No território profissional de Branding em que estou metido, acompanho as mais variadas flutuações nas decisões de consumidores. Algumas fáceis de compreender racionalmente, outras de uma aparente total irracionalidade, se nos pautarmos por um sentido de fria sensatez. Por exemplo, vocês já devem ter visto em bairros de classe média carros numa garagem que é menor que o comprimento dele. Logo, cria-se um calombo na grade para acomodar o veículo. E gente que compra muitas roupas que acaba não usando, pelo receio de que fiquem velhas? Querem mais? Homens, principalmente homens, em restaurantes do tipo rodízio, que se empanturram de carne e sobremesas doces e, depois, encerram a refeição tomando café com adoçante. Convivo com uma interminável coleção de exemplos que deixariam R. Thaler feliz. Essa aparente irracionalidade é muito difícil de ser captada pelas métricas mais racionais. São irracionalidades, ainda que apenas aparentemente, mas movimentam a economia.

Em terceiro lugar, os desejos e necessidades de consumo que estão sendo recalcados neste delicado período dos últimos meses não foram enterrados. Aposto que não veremos o nascimento de uma nova espécie humana. Mais provável que estejamos diante, mais uma vez, do novo antigo normal. Não surgirá o novo consumidor, fazendo uso matemático e racional em sua rotina de consumo - aliás, uma espécie que nunca existiu. O desejo vencerá o medo! O desejo pulsa em nós. No isolamento, o desejo espia pelas frestas esperando o momento de pôr a cabeça para fora. Nas aglomerações da Rua 25 de Março, no Brás, nas filas dentro da Leroy Merlin, nos pequenos mercados da periferia, nos parques, no Beto Carrero, em Florianópolis, o desejo já decretou sua alforria. Porque, como disse nosso poeta Ferreira Gullar, "dentro, no coração, eu sei, a vida bate. Subterraneamente, a vida bate".

Não ouso vaticinar, mas me encanta a chance de as equações não expressarem toda a verdade e de nossa retomada no segundo semestre ser mais surpreendente do que sacerdotes da Economia estão prevendo. Aliás, não seria a primeira vez que nos preparamos para um PIB que não responde à racionalidade técnica de economistas.

*PRESIDENTE DA TROIANOBRANDING

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