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"Não dá para bancar o machão", diz presidente da Petrobras

Para presidente da estatal, preocupação com a greve foi legítima e suspensão de reajuste não compromete credibilidade

26 abr 2019
04h11
atualizado às 08h36
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Ficar refém novamente nas mãos dos caminhoneiros foi uma preocupação real do presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco. Para ele, a decisão de suspender o reajuste do diesel não compromete a credibilidade da companhia. "Acho que a preocupação do presidente (com a greve) foi legítima." A seguir, os principais trechos da entrevista.

Roberto Castello Branco, presidente da Petrobras, durante a cerimônia de sua posse 03/01/2019 REUTERS/Sergio Moraes
Roberto Castello Branco, presidente da Petrobras, durante a cerimônia de sua posse 03/01/2019 REUTERS/Sergio Moraes
Foto: Reuters

Há duas semanas, o presidente Jair Bolsonaro te ligou para pedir para a Petrobras segurar o reajuste do diesel. O mercado entendeu esse pedido como uma intervenção do governo na estatal. Como o sr. entendeu este pedido?

Vou ser o mais fiel possível. Falar a verdade, mesmo porque estão me chamando de mentiroso. Na quinta-feira, dia 11, estava no aeroporto do Galeão embarcando para os Estados Unidos para participar de uma conferência em uma universidade em Chicago, quando recebi uma ligação do presidente Bolsonaro. Ele foi informado sobre o aumento do diesel e me alertou sobre uma possível greve dos caminhoneiros. Disse a ele que iria estudar o assunto e discutir com a diretoria (da Petrobras) para cancelar o aumento. Em seguida, liguei para a diretora de refino. Chegamos à conclusão que, diante do risco de uma greve, era melhor sustar o aumento e depois avaliar o que poderia ser feito.

A Petrobras então acatou o pedido do presidente...

Na segunda-feira, nos reunimos com vários ministros na Casa Civil, sob coordenação do ministro Onyx Lorenzoni. Foram discutidas várias ideias. Inclusive, uma sugestão minha, que já tinha dado em dezembro, sobre a indexação do contrato de frete ao preço do diesel. Na terça-feira, pela manhã, várias medidas foram anunciadas. No mesmo dia, à tarde, eu tive também reunião com o presidente Bolsonaro, Onyx, Paulo Guedes, ministro almirante Bento Albuquerque (Minas e Energia) para explicar ao presidente como é a situação do diesel no Brasil.

Como foi essa conversa?

A apresentação foi feita pela a ANP (Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustível). Explicamos a ele que o preço do diesel no Brasil não é caro, mesmo com todos os impostos. O preço do diesel no Brasil é 13% inferior comparado à média mundial. Numa amostra de 150 países, 105 têm preços mais caro. Sem contar que outros países subsidiam o diesel, como Irã, Venezuela, Argélia, Equador, Bolívia, Kwait. O preço daqui é maior que o dos Estados Unidos porque os impostos aqui são mais altos. Comparado a alguns países europeus, o nosso preço é a metade.

Como foi para o sr., que tem um discurso liberal, receber a ligação do presidente? Entendeu o pedido como uma interferência?

Acho que a preocupação dele foi legítima. Eu fiquei preocupado com esse risco de greve permanecer. De onde surgiu esse problema? Entre 2008 até 2017, a frota de caminhões no Brasil cresceu 35%. O PIB cresceu 10% no mesmo período. Ou seja, há um excesso de oferta de caminhões. Como se diz por aí, tem muito caminhoneiro batendo lata. Entre 2010 e 2015, houve uma injeção maciça de financiamento barato para comprar de caminhões. E o tabelamento do frete teve um efeito perverso, com as gigantes do agronegócio comprando sua própria frota.

Como a Petrobras encarou essa questão?

A Petrobras não pode subsidiar o preço do diesel, seria um problema sério para o Brasil. Com isso, não vai conseguir vender refinaria nenhuma, e também não vai resolver os problemas do caminhoneiros, que têm excesso de oferta. A minha sugestão de indexação do preço do frete ao diesel já tinha sido adotada pelos Estados Unidos nos anos 1970 e vigora ainda hoje. Eu sugeri que fosse adotada aqui. Entendo que é difícil para os caminhoneiros. Sugeri que fosse feito um reajuste só na alta. Nós temos outras ideias, mas que implica em gastos do governo (como compra de frota antiga, bolsa caminhoneiro e requalificação).

O sr. não acha a decisão de suspender o aumento arranhou a imagem da empresa para o investidor?

Acho que não. Se a Petrobras tivesse mudado sua política, congelado os preços… Não perdemos um tostão porque efetuamos operação de hedge.

Mas o mercado ficou assustado...

Sim e a queda das ações da Petrobras repercutiu isso. Temos um passado muito ruim. Temos uma memória viva. A Dilma (Rousseff, ex-presidente) fez isso, (o mercado entendeu que) o Bolsonaro iria fazer… Mas não aconteceu isso.

A Petrobras agiu rápido?

Eu não estou aqui para defender… Não sou politico, mas acho que foi injusto (com o presidente). A atuação dele foi no sentido de que havia um risco de greve. A comunicação, eu enfatizo, é muito importante. Nós anunciamos 5,7% de aumento do preço. Na realidade, R$ 0,11 por litro, um aumento de 4,8%, dá R$ 0,10 por litro. A discussão foi por um centavo.

Mas temos de lembrar que as manifestações de 2013 em São Paulo começaram por causa de 20 centavos...

Sem dúvida. Mas não era por causa de 20 centavos. Era algo mais fundamental. Os nossos serviços públicos continuam sendo muito ruins…

Como é sua interlocução com Bolsonaro e com o ministro Paulo Guedes?

Com o presidente Bolsonaro, eu tive só esta reunião em que esclarecemos os pontos para ele. Com Paulo Guedes e o ministro almirante Bento, temos um diálogo muito bom, construtivo. Eles nunca fizeram menção de intervir na companhia. Eu sou livre para escolher todos os diretores e gerentes que quis, sem nenhuma intervenção. Nada, Absolutamente nada. Zero. Teve um caso, do capitão Carlos Victor Guerra Nagem. Eu pedi aos militares governo para me indicar alguém para a gerência executiva de inteligência e segurança corporativa. Bolsonaro me indicou uma pessoa, mas não foi aceito por não ter experiência de gestão. Não tive pressão por causa disso.

O presidente tem uma visão menos liberal que a do sr. e a do Guedes.

O presidente é um político. Eu sou economista, assim como Guedes. Nós temos ideias convergentes. Concordamos em muita coisa, não 100% necessariamente. O ministro almirante Bento, embora não seja economista, é um homem muito inteligente, entende meus propósitos. O presidente do conselho de administração da Petrobras é outro almirante, uma pessoa muito bem preparada, com o qual eu mantenho um ótimo relacionamento, não me impõe nada.

Os caminhoneiros ganharam um poder grande de barganha no ano passado e voltaram a ameaçar este ano. Não tem medo de a Petrobras ficar refém?

Sem dúvida. Tenho preocupação. Não quero que os eventos do ano passado se repitam. Foram ruins para a Petrobras. Agora a Petrobras perdeu R$ 32,4 bilhões de valor de mercado, lá atrás foram quase R$ 40 bilhões. O presidente da Petrobras saiu e a companhia ficou paralisada. Por isso, tenho sido ativo em fazer sugestões ao governo. Entendi a situação e sustei o aumento. Eu poderia ter dito não, que a Petrobras é independente, o aumento está dado e vamos embora. Mas este tipo de atitude não é construtivo. Não é porque a gente retarda o aumento por poucos dias que vai diminuir a credibilidade da companhia. Minha obrigação é defender a companhia. Não dá para bancar ser o machão. A gente tem de pensar e analisar os riscos. Desconsiderar os riscos de uma greve é temerário.

No ano passado custou a renúncia do Pedro Parente... Chegou a pensar em renúncia?

Não pensei nisto. Pensei em todo momento em contornar a crise, sem violar qualquer crença minha. Estou aqui para cumprir uma missão. Quero melhorar a Petrobras. Se eu sentir que vou fracassar, não tenho mais nada a fazer, não vou comprometer a minha credibilidade. Mas demissão é um ato que se executa, e não se ameaça. Não é inteligente fazer isso.

O sr. trabalha com a possibilidade de uma privatização completa da Petrobras?

Não trabalho. Em momento nenhum recebi essa sinalização. Tenho estudado casos outros casos de empresas estatais no mundo, como a Codelco no Chile, maior produtora de cobre do mundo, 100% estatal, e que é eficiente. Tem a Equinor, da Noruega. Por enquanto, não trabalho com essa hipótese.

Como sr. planeja entregar a Petrobras?

Em 2015, quando eu era do conselho, peguei a Petrobras como uma empresa em fase pré-falimentar, com uma crise moral e de dívida. Isso foi superado. Em 2019, está melhor que em 2015, mas tem muito a fazer. Ainda é muito endividada, se comparar com outras empresas de commodity e seus pares. O seu retorno sobre o capital investido é muito baixo. Como eu já tinha dito, ela apresentou lucro contábil, mas está longe de lucro econômico. Meu objetivo é entregar a Petrobras muito mais forte do que ela é, muito mais saudável.

Já é possível entregar este ano com lucro econômico?

Não quero fazer previsão. Não dá para ter pressa. Uma estatal é diferente que uma empresa privada. Tem de atender os ritos de do TCU, por exemplo. Se tiver de fazer publicidade, tem de falar com o Secom. Dentro isso, vamos tentar ser mais eficiente.

A Petrobras é o símbolo da Lava Jato. Ainda há esqueletos no armário?

Creio que não. Se eu achasse, iria atrás. Os riscos são muito altos. A Petrobras sofreu muita depuração, a governança se fortaleceu. Mas não posso garantir nada.

A companhia está em fase de discussão da cessão onerosa. O leilão está marcado para outubro. Como está o apetite da Petrobras?

Foi uma grande vitória. Esse processo de cessão onerosa tem sido discutido há cinco anos. Foi uma grande vitória para o governo brasileiro e a Petrobras. Nós temos um prazo de manifestação de interesse, vamos estudar com carinho a participação no leilão, tem muitas empresas globais querendo ser parceira da Petrobrá. Acho que é positivo.

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Estadão
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