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IRB perde R$ 8,4 bilhões em valor de mercado

Ação registrou desvalorização de mais de 30% na quarta, 4, após o fundo Berkshire Hathaway afirmar que nunca deteve papéis do ressegurador

5 mar 2020
04h10
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As ações do IRB Brasil Re caíram mais de 30% e o ressegurador perdeu R$ 8,4 bilhões em valor de mercado na quarta, 4, após o Grupo Berkshire Hathaway divulgar comunicado na noite de terça-feira, no qual informava que nunca deteve ações e "não tem a intenção de se tornar um acionista do IRB". O Berkshire é um dos mais importantes fundos de investimento globais, com quase US$ 226 bilhões em ativos sob gestão, e que pertence ao megainvestidor Warren Buffett. Os grandes investidores estrangeiros, como Citigroup, JPMorgan e Morgan Stanley, lideraram as vendas dos papéis do IRB.

Após o conselho de administração do IRB se reunir durante todo o dia, José Carlos Cardoso, presidente executivo da empresa, e Fernando Passos, diretor financeiro, foram demitidos, segundo fontes do conselho que participaram da reunião. Werner Suffert, diretor de finanças e relações com investidores da BB Seguridade, era cotado para ocupar interinamente os dois cargos.

O Estadão/Broadcast noticiou, na semana passada, que o Berkshire Hathaway havia comprado ações do IRB, dias após uma carta da gestora Squadra ter questionado dados do balanço do ressegurador e derrubado o preço das ações. Com a nota, publicada após checagem junto a fonte do mercado, houve alta nos papéis da empresa. Grandes investidores do IRB, que procuraram o ressegurador, receberam uma tabela com as participações dos principais acionistas, mostrando que tanto o megainvestidor, quanto outros fundos de peso, haviam aumentado sua posição, em função da queda no preço das ações. Era o mesmo documento ao qual o Estadão/Broadcast havia tido acesso e que agora circula nas redes sociais.

Dias antes de o Berkshire vir a público, o IRB também havia se pronunciado sobre o crescimento dos investimentos por parte do fundo de Buffett. Na segunda-feira, dia 2, pela manhã, em teleconferência fechada para analistas do "sell side" (responsáveis por promover e recomendar investimentos no mercado financeiro), tanto Cardoso quanto Passos, ao serem questionados, confirmaram que o fundo de Buffett havia intensificado a compra de ações do ressegurador.

Em comentário enviado a clientes, o BTG Pactual disse, na ocasião, que os executivos "destacaram que a compra recente foi realizada pela Berkshire Hathaway International Insurance Ltd. O Berkshire já era cliente e retrocessionária do IRB no passado, passou a ser investidor e recentemente aumentou a posição", informou o relatório. A plataforma XP e a corretora Guide, em relatórios enviados a clientes, também confirmaram que participaram da conferência e ouviram a mesma informação.

Comunicado semelhante foi feito pela empresa de análises Eleven Financial, que também estava na teleconferência. Carlos Daltozo, chefe de renda variável, e a analista Tatiana Brandt escreveram: "Quando questionados sobre a participação da BRK (Berkshire Hathaway) na base de acionistas do IRB, os executivos disseram que têm uma relação próxima com o sr. Ajit Jain, homem forte da Berkshire Hathaway e responsável pela operação de seguros da holding americana. Afirmaram, ainda, que a BRK é cliente e retrocessionária do IRB desde a época do IPO (oferta inicial de ações) e que depois, passaram a ser investidores e, recentemente, aumentaram a posição via Berkshire Hathaway International Insurance Ltd."

No meio do processo, o presidente do conselho do IRB, Ivan Monteiro, renunciou ao cargo. O IRB negou a informação num primeiro momento, mas confirmou na noite de sexta passada, dizendo que o executivo saiu por "problemas de saúde". O Estadão/Broadcast havia apurado, contudo, que a razão da saída foi "desconforto" com a então administração.

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), órgão regulador do mercado, abriu na segunda-feira um processo para analisar o caso. Foi aberto um processo administrativo simples, para apurar as informações desencontradas sobre a renúncia de Monteiro e a compra de ações do IRB pela Berkshire Hathaway.

Nessa fase inicial o órgão regulador do mercado de capitais pede informações à companhia. Caso sejam encontradas irregularidades ao longo da apuração, a área técnica CVM pode no futuro abrir um inquérito - se precisar aprofundar a investigação - ou formular acusação em um processo sancionador contra a companhia ou quem considere que tenha violado alguma de suas normas no caso. O episódio entre o IRB e a gestora Squadra, que colocou a administração do ressegurador na berlinda, também é alvo de processos na autarquia.

Procurados pela reportagem, IRB e o executivo Ivan Monteiro não quiserem comentar o assunto. O porta-voz do Grupo Berkshire Hathaway não respondeu às ligações.

Gestora questionou dados financeiros de empresa

O imbróglio em torno do IRB nasceu após carta a cotistas da gestora Squadra, que questionou o demonstrativo financeiro do IRB. Declaradamente "vendida" na ação (apostando na queda de preços), a gestora fez documento de mais de cem páginas, detalhando toda a sua tese, que provocou queda das ações do ressegurador na Bolsa.

No carnaval, a cúpula da companhia fez apresentação a investidores e bancos estrangeiros, nos Estados Unidos e Europa. Após as reuniões, na segunda-feira, em relatório enviado ao mercado, o Bank of America, que participou desses encontros, elevou em 7% sua expectativa para o lucro líquido do ressegurador neste ano - para R$ 2,2 bilhões -, de forma a refletir a meta dada pela companhia. Além disso, a instituição financeira elevou o preço-alvo para as ações da companhia para os próximos 12 meses, de R$ 41 para R$ 44.

Entre os principais acionistas do IRB, estão fundos estrangeiros. No conselho, há representantes do Bradesco, que detém 15,23% do ressegurador, e do Itaú Unibanco, com 11,14%. O bloco de controle deixou de existir desde que a empresa passou a ter capital pulverizado.

Ano passado, dois bancos públicos venderam suas ações no IRB, em ofertas subsequentes de ações (follow on): o Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal. Hoje, a fatia de cerca de 3% que a Caixa possui no IRB refere-se ao FIP Barcelona, fundo criado em 2012 para comprar ações do ressegurador em sua oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês). Esse fundo, administrado pela Caixa, tem como cotistas a Petros, Previ e Funcef, que estão perto de assumir essas ações de forma direta. Apesar disso, o presidente do banco público, Pedro Guimarães, que já era membro do colegiado, assumiu nesta semana a presidência do conselho do IRB, no lugar de Ivan Monteiro, que deixou a companhia, segundo apurou o Estadão/Broadcast, por desconforto com a administração.

Monteiro era indicado pela União, que detém a golden share no IRB, que confere esse direito. O governo federal deve fazer ainda uma indicação para a cadeira de presidente do conselho, ocupada interinamente por Pedro Guimarães. Procurados, Itaú Unibanco, Bradesco e Caixa não comentaram./CRISTIANE BARBIERI, FERNANDA GUIMARÃES E MARIANA DURÃO

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Estadão
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