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Ibovespa sobe 0,60%, a 98,6 mil pontos, mas cede 1,15% na semana

24 jun 2022 - 17h59
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A timidez do Ibovespa ao final de uma semana na qual não conseguiu retomar, em fechamento, a linha dos 100 mil pontos, cedida na sexta-feira anterior, mostra que a aversão ao risco fiscal doméstico tem descolado a B3 mesmo em dias, como hoje, de respiro para os mercados no exterior. Assim, com ganhos em Nova York que chegaram a 7,49% (Nasdaq) na semana, o índice brasileiro cedeu 1,15% no mesmo período - o quarto recuo semanal consecutivo -, vindo de perdas na casa de 5% nos dois intervalos anteriores. Hoje, subiu 0,60%, aos 98.672,26 pontos, entre mínima de 98.031,10 e máxima de 99.312,74 pontos, com abertura a 99.081,36, permanecendo nos menores níveis desde novembro de 2020. Ainda mais fraco do que ontem, o giro ficou em R$ 22,3 bilhões.

Em junho, a retração do índice chega a 11,39%, colocando as perdas do ano a 5,87%. O mês tem se mostrado ainda mais cruel para o Ibovespa do que para as referências de Estados Unidos, Europa e Ásia. Em Nova York, as perdas acumuladas no mês estão agora entre 3,92% (Nasdaq) e 5,33% (S&P 500), enquanto nas principais praças da Europa chegam a 8,83% (Frankfurt) ou 9,74% (Milão), com alguns indicadores da Ásia (Hong Kong +1,42%) mostrando ganho.

Hoje, o desempenho dos ativos domésticos mais uma vez destoou da relativa recuperação de apetite por risco no exterior: o dólar DXY cedeu terreno, o petróleo avançou entre 2% e 3% ao longo do dia, os ganhos nos principais índices acionários da Europa chegaram a superar 3% (Paris) na sessão e, em Nova York, giraram boa parte desta sexta-feira acima de 2%, para atingir 3,06% (S&P 500) e 3,34% (Nasdaq) no fechamento. Apesar de a desaceleração econômica e mesmo o risco de recessão nos Estados Unidos continuarem a ser ponderados pelos investidores, prevaleceu na semana a busca por descontos.

Aqui, por outro lado, o risco fiscal é reforçado pela expectativa de aumento do Auxílio Brasil, de concessão de voucher aos caminhoneiros e de reforço do Vale Gás, ante a resiliência da inflação e a necessidade de o governo dobrar a aposta para chegar competitivo às urnas em outubro.

"Fiscal é o bandido da história, e é um problema nosso. O barulho acaba indo para o preço dos ativos, com o governo empurrando o teto sempre mais para cima, e sem que a inflação dê respiro. Estão colocando gasolina no fogo. O resultado são mais juros e Bolsa pra baixo, com câmbio acima de R$ 5,20 (agora a R$ 5,25, no fechamento de hoje)", diz César Mikail, gestor de renda variável da Western Asset, observando que a perspectiva para o fiscal se torna complicada na medida em que o fogo emana tanto do governo como da oposição, na disputa eleitoral que se avizinha.

Mikail destaca que mesmo o acúmulo de descontos na Bolsa - com P/E a 8,5 vezes, em níveis de 2008, 2009 - não tem sido o suficiente para despertar o apetite por compras, com fluxo reduzido e cautela na exposição a risco também lá fora, em meio ao processo de elevação dos custos de crédito nas maiores economias. O início em breve da temporada de férias no hemisfério norte tende a piorar a situação, favorecendo a volatilidade e a concentração, aqui, nas questões domésticas, com o relativo esvaziamento da agenda externa.

No exterior, a dúvida continua a ser se haverá apenas desaceleração econômica em meio à elevação de juros ou se o grau de ajuste necessário ao controle da inflação não permitirá que o Federal Reserve maneje a desejada aterrissagem suave, impedindo a recessão. "Como disse o (economista americano) Lawrence Summers, elevar juros com inflação já muito alta é como mexer no chuveiro: fica mais difícil evitar os extremos, de queimar ou gelar as costas", diz o gestor da Western Asset.

Na agenda doméstica, o senador Fernando Bezerra (MDB-PE) anunciou hoje que o impacto fiscal total da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) dos Combustíveis deve atingir R$ 34,8 bilhões de crédito extraordinário, fora do teto de gastos, e não os R$ 29,6 bilhões previstos anteriormente. Relator da proposta, Bezerra pretende apresentar o texto na próxima segunda-feira, 27.

Divulgado nesta manhã, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo - 15 (IPCA-15) de junho mostrou composição negativa, com inflação acima do esperado nos serviços e na média dos núcleos, avalia o Goldman Sachs. Após desacelerar de 12,20% nos 12 meses até maio para 12,04% agora, a inflação deve permanecer acima de 10% nesta base até outubro e superar o nível de 8% até março de 2023, avalia o banco, em relatório.

"O IPCA-15 de junho ficou em 0,69%, ante expectativa do mercado de 0,65%, com desaceleração em transportes menor do que se esperava. Quando se vê a abertura, o núcleo ainda está em patamar elevado, a 0,89% na média dos núcleos, e o índice de difusão em 68,9%. Houve desaceleração nesses indicadores ante últimas leituras, mas mostram composição da inflação bastante desfavorável", diz Eduarda Korzenowski, economista da Somma Investimentos.

Ela antecipa "impactos limitados" nas iniciativas sobre combustíveis, considerando os reajustes já concedidos nos preços da gasolina e do diesel, e considera que, no quadro mais amplo, o balanço assimétrico de riscos está inclinado para cima: algum efeito favorável sobre a inflação no curto prazo, mas que "isso se transfira em inflação mais alta para o próximo ano".

Nesta última sessão da semana, Vale ON (+2,78%) e o setor de siderurgia (CSN ON +5,18%, Gerdau PN +3,95%) contribuíram para o avanço do Ibovespa, em dia negativo para os grandes bancos (Bradesco PN -0,83%, BB ON -0,58%) e também para Petrobras (ON -0,65%, PN -0,76%). Entre as maiores altas do dia, destaque para Gol (+6,71%), à frente de PetroRio (+5,18%) e de CSN (+5,18% também). No lado oposto, Petz (-5,54%), Soma (-4,87%) e Via (-4,22%).

Estadão
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