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'Flexibilização do teto de gastos já é uma realidade', diz Ana Paula Vescovi, do Santander

Para a economista-chefe do banco, qualquer solução encontrada para os precatórios terá custos; ela afirma que a economia brasileira está muito "mexida" e aponta certo pessimismo nas projeções para o PIB

17 set 2021 22h00
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Em meio a choques e à normalização econômica, a economia brasileira está muito "mexida" e é preciso entender a dinâmica do momento para não entrar em escaladas "otimistas" ou "pessimistas", afirma a economista-chefe do Santander Brasil, Ana Paula Vescovi.

A ex-secretária do Tesouro Nacional cita que há otimismo exacerbado em algumas avaliações sobre a melhora fiscal. Em sua avaliação, três quartos da melhora fiscal vêm da inflação (PIB nominal de 18% em 2021) e uma nova flexibilização do teto já é uma realidade, com o imbróglio dos precatórios e alguma ampliação do Bolsa Família. Para a dívida, só espera o pico em 2028, em 92% do PIB.

"Precisamos assistir uma solução do Orçamento de 2022. E (também é necessário) desanuviar o ambiente tão negativo de reformas. Se tivesse condição de previsibilidade maior sobre passos da política econômica, seria mitigador. Ajudaria a reduzir riscos idiossincráticos do ambiente doméstico (para 2022)", diz.

Na quinta-feira, 16, o Santander Brasil diminuiu sua projeção para o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, de 2,0% para 1,7%, devido à expectativa de um aperto monetário mais forte - taxa Selic a 8,5% - e risco de piora de condições financeiras. Mas Vescovi aponta certo pessimismo na onda de revisões, após previsões de crescimento abaixo de 1% nos últimos dias.

Leia abaixo os principais pontos da entrevista:

O relatório de revisão de cenário é intitulado custo social da ilusão monetária? Qual seria esse custo?

É um cenário muito ambíguo. Por um lado, há revisões para cima de inflação, que chegaram a tal ponto que reavivaram a inércia inflacionária (processo em que inflação atual se reflete na futura). Por outro lado, a inflação melhora dados fiscais de curto prazo, seja por indicadores de receita ou de dívida/PIB, devido ao aumento de PIB nominal. Isso demanda mais esforço para entender o momento. A inflação continua como preocupação central. A gente entende que é fruto de um conjunto de choques. Por outro lado, vemos a revisão de PIB para o ano que vem, devido ao necessário aperto monetário. Precisamos entender melhor a dinâmica do momento, para não entrar em escalada muito otimista, como da melhora de dados fiscais, nem em uma escalada muito pessimista, como com as revisões do PIB do ano que vem.

Nos últimos dias, vimos revisões bastante significativas para o PIB de 2022. Com a previsão de taxa Selic em 8,5%, incertezas fiscais e tensões políticas no cenário, o que sustenta um cenário próximo de 2% do Santander?

Nós fizemos uma revisão de 2% para 1,7%. A gente percebe que a política monetária vai ter de ser ainda mais restritiva para trazer a inflação para meta em 2023 (de alta de 3,25%). Mas não podemos deixar de perceber que a abertura da economia é uma realidade. Vemos a mobilidade praticamente normal no Brasil. O processo de vacinação está em bom passo e esperamos que toda população adulta esteja vacinada no fim do ano. Ainda há espaço de recuperação até o fim do ano dos serviços muito afetados pela pandemia, principalmente os ligados às famílias, o que traz um carrego estatístico para o ano que vem. As escolas e universidades públicas ainda não voltaram ao ensino presencial. Há também expectativa de maior uso de serviços de saúde.

O cenário de PIB atual para 2022 considera um racionamento de energia?

Não. Considera uma restrição limitada da crise energética sobre a produção. Se isso redundar em apagões ou racionamento forçado, que não seja via preços mais altos, vai ter impacto no PIB de 2022. Mas tratamos isso como um risco, não há materialidade suficiente para reduzir o PIB. Outro dado importante pelo qual não reduzimos tanto a estimativa de PIB de 2022 é que este ano devemos ter uma queda da massa salarial. Com a recuperação do setor de serviços, do mercado de trabalho, o crescimento da massa salarial ampliada em 2022 deve ser de 3,2%, já considerando um aumento do Bolsa Família.

Não é arriscada uma convergência à meta mais lenta em meio à inflação tão elevada e os riscos que se acumulam em 2022? É crescente o risco de desancoragem?

Fizemos estudos com as teorias mais recentes de inércia inflacionária. Há aumento da inércia, da desancoragem de expectativas, mas entendemos que essa questão pode ser transitória. Precisamos reconhecer a quantidade de choques atuais, como a quebra de cadeias produtivas, os problemas climáticos, sobreposição de estímulos em doses elevadíssimas no mundo. Começamos a observar que a La Niña tende a ser mais suave, o que pode trazer alívio aos preços internacionais de alimentos. A China tem interposto instrumentos para conter um pouco processos especulativos de preços de metais. Tem um processo de normalização que não é trivial, mas que é exógeno à nossa política econômica. Na política monetária, a preocupação é essa e como o Banco Central vai usar esses instrumentos para combater a inércia.

Como recebeu a declaração do presidente do BC, Roberto Campos Neto, de que farão tudo para convergência, mas não necessariamente vão reagir à frequência de alta da inflação?

Os mercados estavam realmente em um processo de nervosismo muito grande. A curva de juros estava incorporando, nos horizontes mais longos, aumentos muito grandes. Foi uma tentativa de modular o nervosismo do mercado, que reagiu imediatamente. Pode ser acertada, a depender da comunicação do BC nas próximas reuniões. Há a questão de que nível vamos chegar de Selic para trazer inflação para a meta. A comunicação tem de estar muito clara para que não traga mais dificuldades para ancoragem de expectativas. Precisamos de elementos muito concretos de comunicação, para que não tenha uma alimentação de desancoragem de expectativas.

A comunicação do BC tem sido bem volátil este ano. Em que medida isso traz inquietação para o mercado? Pode ser um risco maior para as expectativas?

A comunicação é um elemento importante do sistema de metas. Sim, a gente teve muitos problemas na comunicação recente. Isso tudo levou ao momento atual. Os choques e as dificuldades de comunicação. Levou o mercado a ter divergência em termos de expectativas. É compatível com a contingência que vivemos desde o início da pandemia. Nós temos instrumentos de política monetária, mas temos também um cenário muito desafiador, com a questão energética, climática, quebra de cadeias produtivas que não vão se resolver tão rapidamente, retomada dos serviços e a retirada de estímulos no exterior. Estamos em um momento intenso em termos de riscos para a condução de política monetária. Lembrando sempre que temos um processo eleitoral antecipado que afeta tudo isso.

Outro fator de fora do controle do BC é o fiscal. Uma nova flexibilização do teto já é uma realidade?

A nova flexibilização do teto já é uma realidade. Seja a solução que vier para os precatórios, me parece que vai ter custos. Parcelar traz a percepção de não cumprimento de compromissos. Retirar do teto significa fazer nova modificação do teto. Acabamos de mexer nisso. Agora, falam em uma nova surpresa, quando a questão do Fundef (programa educacional dos anos 1990 para universalizar o acesso à escola e substituído pelo Fundeb) está sendo discutida desde 2018. Qual será a solução a gente não sabe, dado que há expectativa de novo programa social, que é despesa permanente, em contexto social mais frágil no pós-pandemia. Aguardamos a decisão entre Poderes para entender como vai ser costurada a solução.

No cenário base do Santander, há estouro do teto?

No nosso cenário base, as despesas primárias ultrapassam em R$ 20 bilhões o limite do teto, considerando a ampliação do programa social, de R$ 35 bilhões para R$ 55 a R$ 60 bilhões, no máximo. Já colocamos no cenário um custo de financiamento maior da dívida pública. Isso vai começar a impactar o custo médio da dívida em pouco tempo. São visões de um mesmo processo. (A inflação) Melhora resultados primários, mas piora impactos financeiros. A alta da arrecadação é muito associada ao processo inflacionário e à retomada econômica com estímulos. Discutir redução de carga tributária é um risco, tanto para entes subnacionais quanto para a União. Três quartos da melhora fiscal deve-se ao quadro inflacionário. Não deveríamos perder atenção às âncoras que levam à sustentabilidade fiscal.

É melhor estourar o teto do que flexibilizar o teto?

As duas têm custo. Melhor seria se tivesse feito composição com os órgãos jurídicos para discutir um precatório em particular, o do Fundef.

O secretário Adolfo Sachsida refutou argumentos de piora fiscal e aumento de juros na piora do mercado para 2022. Não há certo "negacionismo" da deterioração do cenário para 2022?

Eu acho que o aumento de juros é relevante. Está indo de 2% para 8,5%. Pesa no custo financeiro das famílias e das empresas. Taxas mais longas de juros em 11% afetam o custo de investimento. Isso está afetando a economia. Tem uma piora de condições financeiras, que está associada a muitos fatores, como os choques múltiplos, muitos incentivos por causa da pandemia. E tem sim uma questão de expectativas. Estamos entrando em um processo de normalização econômica com muita incerteza. A incerteza está aumentando, é crescente, é predominante. Precisamos assistir uma solução do Orçamento de 2022. Quanto antes vier e mais organizado vier, melhor. E desanuviar o ambiente tão negativo de reformas. Se tivesse previsibilidade maior sobre os passos da política econômica, seria mitigador. Ajudaria a reduzir riscos idiossincráticos do ambiente doméstico.

As reformas em tramitação atualmente são ruins?

Tudo que tem sido discutido de reformas tem trazido piora. A reforma tributária, tanto no desenho quanto nos incentivos ao crescimento das empresas e na perda de arrecadação, tem fatores negativos. A reforma tributária que o Brasil precisa não é essa. Hoje (quinta-feira) circulou um relatório da reforma administrativa. Ou traz elementos que são um retrocesso ou deixa de ter avanços importantes. Estamos vivendo uma realidade muito mexida. Estamos saindo da pandemia, precisando passar por normalização, para entender a conjuntura. Seria melhor dar um tempo nas reformas.

Estadão
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