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Flávio Bolsonaro: Pedro Guimarães deixa Caixa para que denúncias não sejam usadas contra presidente

Senador e filho do presidente disse que que o nome de Daniella Marques foi pensado como substituta para dar uma 'resposta mais do que clara' de que o Bolsonaro não admite esse tipo de conduta

30 jun 2022 - 01h01
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BRASÍLIA - Um dos coordenadores da campanha de reeleição do presidente Jair Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou em entrevista exclusiva ao Estadão que o presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, deixa o comando do banco estatal para que as denúncias de assédio sexual não sejam usadas durante a campanha para a reeleição. "O presidente Bolsonaro vai ser responsável por questões pessoais? O presidente não tem obviamente nada a ver com isso", afirma.

Flávio confirmou que Guimarães, que estava à frente da Caixa desde o início do governo Jair Bolsonaro, em 2019, deixa a presidência do banco estatal por decisão do presidente Bolsonaro "para preservar o próprio Pedro e o governo mostrar que não compactua com isso".

O Ministério Público Federal (MPF) abriu investigação para apurar denúncias de assédio sexual feitas por funcionárias da Caixa Econômica Federal contra Guimarães. A abertura da investigação, que está em andamento sob sigilo, foi confirmada pelo Estadão. Cinco funcionárias relataram abordagens inapropriadas do presidente do banco. A revelação das denúncias foi feita pelo site Metrópoles na terça-feira, 28.

Sobre a escolha da substituta, a secretária do Ministério da Economia, Daniella Marques, o senador disse que o nome foi pensado para dar uma "resposta mais do que clara" de que o presidente não admite esse tipo de conduta dentro do governo. Leia a seguir os principais trechos da entrevista, realizada horas antes da entrega da carta de demissão de Pedro Guimarães, nesta quarta.

As denúncias têm bastante número e trazem uma serie de situações graves pra um governo que tem a pauta da família, da moral. É aceitável esse comportamento dentro do governo? Por que ele ficou todo esse tempo no governo?

Porque assim, na verdade, oficialmente, a coisa surgiu agora, né; pelo menos para o presidente. Então, óbvio que isso é inaceitável. A decisão do presidente foi correta de imediatamente chamar o Pedro pra conversar e o Pedro compreendeu que poderia ser usado para explorar o presidente, já que é um problema inaceitável, mas é coisa de cunho pessoal do Pedro; não tem nada a ver com o governo, não tem nada a ver com a Presidência. Então, assim, a tentativa da oposição e de parte da imprensa de querer vincular ao presidente Bolsonaro não tem nada a ver. O presidente Bolsonaro agora vai ser responsável por questões pessoais, por condutas pessoais que não têm nada a ver com o serviço público para o qual ele foi escolhido para exercer uma determinada missão? O presidente obviamente não tem nada a ver com isso.

Ele vai renunciar? O presidente pediu que ele renuncie?

Eu não sei qual vai ser formalmente o despacho no Diário Oficial. Mas o fato é que formalmente, imediatamente partiu dele: 'olha, Pedro, não dá; tão acusando você aí'... e o Pedro de pronto entendeu, já foi conversar sabendo que isso deveria acontecer.

Na noite de ontem, né?

Na noite de ontem.

No Alvorada a conversa..

É.

Ele já saiu de lá ciente?

Eu não sei. Quando ele chegou, eu estava saindo. Fui pra pra tratar de outras coisas com o presidente e ele chegou pra conversar com o presidente. Eu fiquei sabendo depois que o tom da conversa foi esse e que essa decisão ele já tinha tomado de tirar o Pedro de lá.

O sr. está falando que isso é uma conduta pessoal dele, mas o presidente só soube agora ou ele já tinha informação sobre esse comportamento?

Que eu saiba, eles tão sabendo agora quando o fato se tornou público e qualquer rumor ou boato que tivesse aí... Como presidente vai tomar qualquer tipo de conduta com base em boatos? Não pode fazer isso. Mas, do jeito que os fatos estão se apresentando, parece que são bem robustos. E aí, para preservar o próprio Pedro da Caixa e o governo mostrar que não compactua com isso, essa atitude foi tomada.

Ele era até então um nome muito prestigiado. O presidente vinculou bastante a imagem dele nas lives, um dos principais participantes. Chegou a ser cogitado em algum momento que ele tinha interesse político, que ele poderia até compor a chapa com o presidente...

Uma coisa não tem nada a ver com a outra. O Pedro tinha essas pretensões políticas, mas nunca o presidente nunca cogitou colocá-lo de vice, como tentaram vincular alguma vez.. o perfil dele, apesar de um baita de um.. separando a parte pessoal da profissional, né, sendo possível separar as duas partes: ele é um profissional que fez um trabalho ímpar na Caixa. Você tirar um retrato do que é a Caixa Econômica hoje e o que ela era antes do governo... é incomparável. A melhoria, o superávit, toda a função social que a Caixa cumpriu na questão da Casa Verde e Amarela (programa de habitação popular que substitui o Minha Casa, Minha Vida), na questão do auxílio emergencial e agora do Auxílio Brasil.. de todo o compliance (regras de governança) que foi implementado lá dentro. Então, é uma pessoa que inegavelmente é competente. Mas, obviamente, é inaceitável uma conduta pessoal dessa, que não tem nada a ver com o governo, com o trabalho.. alguém que usa a sua posição dentro de uma empresa dentro de um cargo público pra assediar alguém, isso o presidente Bolsonaro não compactua.

A nomeação da Daniella Marques, secretária do ministro da Economia, Paulo Guedes, para substituí-lo já está confirmada?

A informação que eu tenho nesse momento é que ela está escolhida pra ser a próxima presidente da Caixa.

Em quanto tempo isso se daria?

Acredito que publique a desoneração dele de hoje para amanhã, junto com a nomeação dela.

Das intervenções que o presidente está fazendo, ele está recorrendo bastante aos quadros da equipe do Guedes. É um aumento de influência do ministro Guedes nesse momento?

As áreas em que estão havendo essas trocas são áreas bastante técnicas e o ministro trouxe uma equipe brilhante pra dentro do governo. Grande parte das pessoas já eram bem-sucedidas no setor privado, como é o caso da Daniella Marques. Uma pessoa que jamais precisaria estar no governo vem porque se identifica com as maneiras, porque a missão de ajudar as pessoas - no caso específico dela, as mulheres, onde ela está agora, - é uma missão muito nobre, motiva muito a Daniela. E eu particularmente sou um grande admirador do trabalho dela. Eu acho que troca ali a pessoa na Caixa, mas não troca a importância e a competência com que a Caixa como um todo, não só a presidência.. mas mantém ali um padrão elevado de serviço público prestado.

O fato de ela ser mulher foi pensado para dar uma resposta à sociedade?

Foi pensado pra dar uma resposta mais do que clara, pra evitar qualquer tipo de dúvida de interpretação de que o presidente Bolsonaro não admite esse tipo de conduta dentro do governo dele.

Não é estranho que tenha passado tanto tempo e o compliance da Caixa não tenha agido? Não tem uma falha aí na ouvidoria, nos órgãos de controle?

Eu não sei nem se não agiu o compliance da Caixa.. porque como que você vai.. um comportamento pessoal, íntimo ali.. o compliance ou qualquer autoridade só pode agir depois de tomar conhecimento. Não tem como saber que ele fazia isso, que são as acusações que estão sendo feitas sobre ele. Eu não sei se chegou a ter dentro da Caixa alguma coisa. Pelo menos que eu saiba, por parte do presidente da República, ele tomou providência assim que ele tomou conhecimento dos fatos.

Estadão
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