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EUA atraem brasileiro empreendedor

No ano passado, os Estados Unidos emitiram número recorde para brasileiros de vistos EB-5, documento que dá direito ao Green Card para quem investir pelo menos US$ 500 mil no país

22 set 2019
05h11
atualizado às 20h47
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Há três meses, Renan Sampaio Rocha, de 30 anos, e a mulher Clarissa, de 27 anos, inauguraram a empresa de eventos Media Click em Miami, na Flórida, região que concentra a maior parte dos brasileiros que vive nos Estados Unidos. Recentemente, eles fizeram duas grandes festas, uma de aniversário de 16 anos de uma garota americana (equivalente à tradição brasileira para adolescentes de 15 anos) e um casamento de judeus de origem americana e israelita.

Apesar da concorrência no ramo ser grande, Rocha diz que o diferencial da empresa "é o atendimento, feito com muita simpatia, qualidade e rapidez nos serviços". Um dos atrativos que eles oferecem é o Photo Booth (cabine de fotos) que virou mania nas festas. Noivos e convidados se divertem com diferentes adereços à disposição para tirar as fotos e recebem a cópia na hora. "Temos um aplicativo próprio que dá qualidade às fotos impressas", afirma ele.

O casal largou negócios em Fortaleza (CE) aos cuidados de sócios e, após um ano de planejamento, foi para os EUA, onde a mulher tem aulas de inglês. Além de escapar da violência que cresce no Brasil, ele diz que estava farto da burocracia exigida de quem quer empreender. "Aqui tudo é mais rápido."

Como Rocha e Clarissa, um número crescente de brasileiros está migrando para os EUA para empreender, cenário diferente de anos atrás, quando iam em busca de emprego. Para esses casos, o governo americano oferece um atrativo - o visto EB-5, que dá direito ao Green Card temporário para o empreendedor, cônjuge e filhos com até 21 anos, e possibilidade de obter cidadania se as metas do projeto forem atingidas, como gerar dez empregos em dois anos.

No dia 22 de agosto, 110 pessoas participaram de apresentação na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) sobre o processo de internacionalização de empresas. O evento foi organizado pelo Global Business Institute (GBI), escritório de negócios fundado por brasileiros em Miami para assessorar conterrâneos e latino-americanos que querem abrir empreendimentos no país e teve também, no dia seguinte, uma rodada em Curitiba com a presença de 80 interessados no tema.

Custo alto

Ficar legalmente nos EUA tem custo de pelo menos US$ 500 mil (cerca de R$ 2 milhões pelo câmbio atual), valor mínimo para o investimento no novo negócio, fora custos com advogados e consultores. A partir de novembro, essa exigência sobe para US$ 900 mil para quem aplicar em áreas com maior carência de empregos, e de US$ 1 milhão a US$ 1,8 milhão para as demais áreas. O governo americano distribui 10 mil vistos por ano nessa modalidade para cidadãos de vários países.

No ano passado, foi emitido número recorde de 388 vistos EB-5 para brasileiros, 37,6% a mais em relação ao ano anterior. Entre 2010 e 2015, foram 149 vistos. Nos últimos três anos, período de crise econômica e instabilidade política, foram 820. A maioria se estabelece em Miami ou outras cidades da Flórida, onde vivem cerca de 400 mil brasileiros e uma enorme população hispânica. Também foi o período com maior número de registros de saída definitiva do Brasil (ver quadro).

"De 2014 para cá mudou o perfil dos brasileiros que vêm para os EUA: eles querem entrar de forma oficial e empreender", diz Manoel Suhet, presidente do GBI. "O ambiente aqui é muito favorável ao empreendedorismo, há segurança jurídica e financeira e acesso mais democratizado à tecnologia."

Atento a esses atrativos, em 2014, Francisco Moura Junior criou a ATM Club, especializada na implantação e gestão de redes de caixas eletrônicos para saques. Segundo ele, é um negócio em crescimento no país, onde a população prefere usar dinheiro a cartões em diversas operações, inclusive porque há descontos para essa opção de pagamento. A rede ATM espalha suas máquinas em locais como postos de combustível, salões de cabeleireiro, lojas de bebidas e hospitais.

Inicialmente, Moura e um sócio também brasileiro adquiriram 30 caixas eletrônicos. Com o crescimento do negócio, passaram a oferecer as máquinas para terceiros e atuar apenas na administração. O saque no caixa, independentemente do valor, tem taxa de US$ 2,99, valor dividido entre o dono da máquina, o proprietário do local onde está instalado e os administradores.

"Nós fornecemos serviços de manutenção, contabilidade e limpeza dos equipamentos", diz Moura. O investidor precisa adquirir no mínimo dez máquinas, a um custo aproximado de US$ 100 mil. O retorno, segundo ele, é de 6% a 8% do valor investido no primeiro ano e depois vai aumentando.

Moura vendeu sua corretora no Brasil e decidiu morar nos EUA "para buscar uma vida diferente para os filhos e mais segurança", principalmente após assaltos sofridos por sua mulher. Aos 39 anos, administra 500 caixas eletrônicos instalados em cidades da Flórida e em Nova York (60% deles nas mãos de brasileiros). Ele tem planos de chegar a mil caixas e ter, pelo menos, uma máquina em cada um dos 50 Estados americanos.

"Há dois fundos americanos interessados em comprar parte da empresa, um para manter o modelo atual e outro para transformar o negócio em fundo de investimento", diz Moura, que avalia as propostas.

Suhet, de 45 anos, atua como consultor desde 2017, quando deixou cargo de diretoria na Latam. Segundo ele, é preciso fazer pesquisa de mercado, planejamento e entender o público e as leis locais para ter sucesso no negócio. Ele fala de casos que começaram pequenos e estão fazendo sucesso, como uma brasileira que passou a vender camisetas com fotos de santos e abriu um negócio voltado a "roupas católicas". Também o de um médico que começou a produzir picolés e hoje tem 150 pontos de venda na Flórida.

Estadão
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