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Escolhas irracionais

Jair Bolsonaro não age de forma racional sequer quando se tem em mente os seus próprios interesses

17 fev 2020
05h10
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A teoria econômica dominante no século 20 prima pela ideia de que consumidores e empresários buscam alocar recursos escassos de forma a maximizar seus objetivos. Os consumidores, diante de sua restrição orçamentária, escolhem bens que otimizam sua satisfação. Os empresários fazem uso dos recursos disponíveis para obter o maior lucro possível. Livres de qualquer intervenção, os preços oscilam e conduzem os mercados a um ponto de equilíbrio. A racionalidade na busca de objetivos é a premissa fundamental.

Ao argumento de que, na prática, nem consumidores nem empresários se comportam desta forma, Milton Friedman contrapôs (A Metodologia da Economia Positiva, 1953) a tese de que um modelo deve ser julgado pela simplicidade de suas hipóteses e pela sua capacidade preditiva, e não pelo grau de realismo de suas premissas (o que remete ao conto de Borges Sobre o Rigor da Ciência, que trata do império onde a arte da cartografia atingiu tamanha perfeição que os mapas tinham o tamanho do próprio país).

A premissa da racionalidade dos agentes econômicos foi desgastada com os avanços da Economia Comportamental. Em Misbehaving, livro de 2015, Richard Thaler aponta um sem-número de exemplos em que agentes econômicos não se comportam de forma racional, o que torna a teoria econômica menos trivial.

Um experimento simples: digamos que as pessoas tenham de escolher entre duas apostas. Na aposta A, há 97% de chance de ganhar 100. Na aposta B, a chance é de 37% para um ganho de 300. A pesquisa de opinião mostrou que as pessoas preferem a aposta A à B (apesar de a expectativa de ganho ser maior na B). Mais ainda, perguntadas sobre por quanto venderiam as apostas, as pessoas estabeleceram um preço maior para a aposta B do que para a aposta A. Mas isso significa que preferem a aposta B, justamente o contrário do que disseram antes. Os economistas tradicionais apelam para o postulado epistemológico de Friedman e dizem que basta que os agentes se comportem "como se" fossem racionais, mas o fato é que a contribuição de Thaler chacoalhou o pensamento convencional a ponto de ele ganhar o Prêmio Nobel de Economia em 2017.

Aqui, na terra tabajara, analistas políticos muitas vezes caem na tentação de usar analogias econômicas. De um lado, temos um capital político limitado, representado por apoio e votos. De outro, há o desejo de maximizar resultados, seja aumentando o poder pessoal, seja ficando rico por meio de esquemas de corrupção (ou as duas coisas). Nesta ótica, um político deve priorizar ações que possam otimizar seus objetivos, considerando seus recursos escassos. Tudo fica mais confuso, no entanto, quando estamos falando do presidente Jair Bolsonaro.

Há farta evidência de que ele não age de forma racional sequer quando se tem em mente os seus próprios interesses. Propor um desafio sonso para os governadores cortarem os impostos sobre combustíveis, por exemplo, é um jogo em que ninguém ganha. Se fosse aceito, detonaria as finanças públicas. Ao ser rejeitado, melindra atores políticos que serão essenciais na discussão da reforma tributária, de interesse do governo. O mesmo pode ser visto na tentativa de mudar a Embaixada brasileira de Tel-Aviv para Jerusalém, caso em que o capital político do presidente seria erodido sem nenhuma contrapartida. Travar a concessão do Bolsa Família segue a mesma falta de lógica. Qual o proveito disso? A quem serve? Há uma longa lista de gestos, pronunciamentos e iniciativas desconexas, como se o presidente quisesse ilustrar o livro de Thaler. Tudo isso seria mera divagação metafísica, não fosse o fato de que a irracionalidade das decisões do governo compromete nosso futuro.

*ECONOMISTA, FOI DIRETOR DE POLÍTICA MONETÁRIA DO BANCO CENTRAL E PROFESSOR DE ECONOMIA DA PUC-SP E DA FGV-SP. E-MAIL: LUISEDUARDOASSIS@GMAIL.COM

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Estadão
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