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Crise hídrica derruba ações de empresas de energia na Bolsa

Redução no volume de chuvas prejudica os papéis das distribuidoras e das geradoras de energia que dependem de hidrelétricas, mas favorece as usinas térmicas

18 jun 2021 23h06
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RIO - O jogo financeiro que se forma a partir da crise hídrica reúne mais perdedores que ganhadores entre as empresas do setor elétrico. Na ponta mais crítica estão as geradoras dependentes de hidrelétricas, que sem água nos reservatórios, terão de recorrer aos preços elevados do mercado de curto prazo para honrar seus contratos de fornecimento. Agora, os problemas que na geração se arrastam desde 2020 começam a chegar nos papéis das distribuidoras: elas podem sofrer com queda de consumo e maior inadimplência, diante do aumento dos preços da energia.

As ações das empresas Cesp, AES Brasil e Engie lideram as quedas. Entre as três, a Cesp tem a pior situação, porque depende totalmente de hidrelétricas. Nos últimos seis meses, desde que a crise hídrica deu os seus primeiros sinais, as ações preferenciais de classe B caíram 14,91%, segundo cálculo da Economática.

A queda só não é pior porque, ao vislumbrar a estiagem no início deste ano, a companhia correu para comprar quase toda a energia que terá de fornecer, evitando a exposição ao mercado de curto prazo. O preço não foi o melhor - R$ 232 por megawatt-hora (Mwh) na média -, mas foi bem inferior ao negociado atualmente, o que reduz o impacto financeiro.

"A companhia fechou o primeiro trimestre com 97% de sua exposição mitigada", informou a Cesp, por meio de sua assessoria de imprensa. Passado o trimestre, a piora da situação levou a companhia de volta ao mercado, e fez com que o preço médio de compra de energia para 2021 chegasse aos R$ 232/MWh. "Foi um aumento de apenas 15% e bastante competitivo considerando o preço previsto para o segundo semestre deste ano de aproximadamente R$ 460/MWh, de acordo com as previsões da CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica)", complementou.

Para se ter uma dimensão do problema, o valor médio do MWh em maio deste ano foi de R$ 218, de acordo com o dado mais recente da CCEE. Um ano antes, foi de R$ 75,95. Ou seja, em um ano, o custo da energia no mercado de curto prazo quase triplicou.

Outras empresas de capital aberto também têm muitos ativos concentrados em geração hidrelétrica e, por isso, suas ações sentem o peso da crise. São os casos de AES e da Engie, cujas ações ordinárias caíram 12,9% e 8,4% nos últimos seis meses.

A AES, via assessoria, disse seguir as orientações do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e que, de olho no curto e médio prazos, gere os ativos para reduzir possíveis impactos da estiagem. "Adicionalmente, a companhia reforça sua estratégia de crescimento e de diversificação do seu portfólio de geração 100% renovável, com a ampliação da participação em fontes de geração eólica e solar", afirmou.

A geração não é o único elo da cadeia afetado pela crise. Nas distribuidoras, a tendência é de redução do consumo e de aumento da inadimplência e de furtos de energia, consequências dos aumentos da conta de luz em meio à crise. E isso já se traduz em perda de valor. Desde o alerta do governo de emergência hídrica, em 28 de maio, as empresas do segmento foram as que mais se desvalorizaram na Bolsa, com destaque para Ampla (-5,83%) e Light (-4,59%). A Ampla (atual Enel) afirmou que os papéis não têm liquidez. A Light não se posicionou. Além delas, perderam valor outras 11 distribuidoras.

Velha conhecida

A crise hídrica é conhecida há tempos pelo mercado e pesa nas empresas listadas na Bolsa desde o ano passado. Com menos chuvas do que o previsto, as hidrelétricas já operavam com dificuldade em 2020. O fantasma do apagão só não apareceu na época porque, com a pandemia da covid-19 e a economia desacelerada, o consumo também caiu.

As chuvas eram esperadas para setembro, mas não vieram. Mesmo em novembro, quando oficialmente começa o período úmido, os volumes de água ficaram abaixo da média. No fim de março, os agentes do setor começaram a sinalizar o risco de racionamento. Apenas em 28 de maio, no entanto, o governo emitiu um alerta de crise, vislumbrando que, neste mês, quando começa o período seco, a oferta de eletricidade será escassa.

"As empresas geradoras estão apanhando na Bolsa há meses, porque o mercado já tinha conhecimento da crise", diz Vitor Souza, analista de investimento da Genial.

Conta de luz fica mais cara

A ameaça de o Brasil ficar às escuras em meio à pandemia de covid-19 pesa sobre a conta de luz dos consumidores. Também vai custar caro para as proprietárias de hidrelétricas. Sem água nos reservatórios, por conta da estiagem, essas empresas já estão gerando muito menos eletricidade e receita do que poderiam e ainda vão precisar recorrer ao mercado de curto prazo para honrar seus contratos. Há, no entanto, um seletíssimo grupo de investidores com capacidade de ganhar dinheiro na crise.

Os papeis da Eneva, por exemplo, estão dando retorno. As ações ordinárias da companhia subiram 26%, nos últimos seis meses, desde 17 de dezembro. Essa valorização supera o Índice de Energia Elétrica (IEE) da B3, que avançou 2%, no período. Desde 28 de maio, quando o governo admitiu a crise hídrica publicamente, a alta foi de 1,2%, novamente acima do IEE, que não variou desde então.

A Eneva possui uma peculiaridade em relação às concorrentes que a deixa numa situação mais confortável. Em seus campos, do Maranhão, ela produz e entrega, diretamente, o gás consumido como matéria-prima em suas térmicas. Com isso, consegue balancear custos e receitas e tirar proveitos nas situações de valorização do produto final como a atual. Poucas empresas no Brasil têm estratégia semelhante. Uma delas é a Petrobrás. Mas, com o foco no pré-sal, a estatal decidiu vender seus ativos de geração térmica e já não aposta, como antes, na integração da cadeia.

A Petrobrás tirou o País do apagão de 2001 ao se dispor a construir usinas térmicas que, até então, não existiam. Passado o pior momento, a empresa começou a se desfazer delas, a partir de 2013. Neste ano, assinou contrato para vender um conjunto de três usinas e está oferecendo mais cinco ao mercado.

Já a anglo-holandesa Shell tem estratégia semelhante à da Eneva. Ao mesmo tempo em que investe no pré-sal, está construindo uma usina térmica na região norte-fluminense. A ideia é aproveitar o gás como insumo na produção de eletricidade. Além disso, a petrolífera ingressou no segmento de comercialização de energia e estuda ativos de geração renovável para investir no Brasil.

Usinas térmicas são acionadas em período de baixa dos reservatórios de água porque utilizam combustíveis, do gás natural ao urânio, para produzir energia, sem depender das chuvas. Em contrapartida, sua eletricidade é mais cara do que a das hidrelétricas. Em geral, são preteridas pelo Operador Nacional do Sistema (ONS), que define quais geradores são acionados a cada momento.

"As térmicas são as vilãs do sistema quando chove. Quando não chove, são as heroínas. Elas são fundamentais para garantir o abastecimento", afirmou Xisto Vieira Filho, presidente da Associação Brasileira das Geradoras Termelétricas (Abraget). Mas ele nega que o setor se beneficie da crise, e argumenta que essas empresas vão ter mais custo, que será repassado aos seus clientes.

No médio prazo, sairão fortalecidas as geradoras que utilizam fontes renováveis que não dependem de água, sobretudo as eólicas. E não é apenas pela disponibilidade de "matéria-prima": com a estiagem, ganhou força a defesa do meio ambiente e da urgência da transição energética, com a oferta de soluções mais 'limpas', como as das energias eólica e solar.

Elbia Gannoum, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), acrescenta que, justamente neste momento de baixa dos reservatórios, há mais vento e mais potência eólica sendo instalada. O esperado, portanto, é que a contribuição dessa fonte para a matriz energética seja maior em 2021.

Já as transmissoras, o "meio" da cadeia de energia, ocupam este mesmo espaço na Bolsa durante a crise. Suas receitas dependem da disponibilidade da rede, sem ligação com o balanço entre oferta e demanda. A crise que tira o sono de investidores do setor não deve afetá-las.

Estadão
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