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Crise global pode frear retomada da economia no Brasil

Apesar de agenda da equipe econômica dar sinais de avanço, País sofrerá os impactos da desaceleração mundial

16 ago 2019
12h11
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Caro leitor,

Não bastassem todos os desafios internos que o Brasil já enfrenta para tentar sair da letargia econômica, agora uma crise global parece se aproximar, tornando essa tarefa ainda mais complexa. O agravamento da guerra comercial entre os Estados Unidos e a China, os números fracos da economia de países europeus importantes, como a Alemanha, e até a possível volta do kirchnerismo na Argentina ajudaram a transformar esta semana num verdadeiro festival de volatilidade nos mercados financeiros, com o dólar voltando a ultrapassar, em alguns momentos, a barreira dos R$ 4 - o que fez o Banco Central anunciar uma venda de dólares no mercado - e a Bolsa caindo abaixo dos 100 mil pontos.

O paradoxo é que isso acontece em um momento em que a agenda econômica do governo parece ganhar algum fôlego para avançar. A aprovação da reforma da Previdência na Câmara dos Deputados, já por si suficiente por trazer um enorme alívio aos investidores, foi seguida pela aprovação nesta semana, na Câmara dos Deputados, de um projeto muito caro à equipe econômica: a medida provisória da Liberdade Econômica, que trata principalmente de questões de desburocratização para as empresas.

Claro, isso é bom, porque qualquer avanço nessa agenda econômica torna o País menos vulnerável a choques externos grandes. Como diz o nosso colunista Fernando Dantas, essa é a parte "meio cheia" do copo. Se a reforma da Previdência, por exemplo, tivesse sido "torpedeada" na Câmara, o Brasil estaria hoje bem mais vulnerável. Mesmo assim, isso não seria suficiente para segurar uma piora mais forte no cenário internacional.

A economista Silvia Matos, do Ibre/FGV, em entrevista aqui para o Estadão, disse ainda trabalhar com um cenário de melhora da economia brasileira no segundo semestre. Nessa conta, entretanto, está implícita um crescimento da indústria de transformação, o que poderia ser abortado por uma crise global, que traga impacto direto nos investimentos. Segundo ela, não há como o mercado doméstico compensar um choque externo forte. "Se estivéssemos muito bem internamente, poderíamos compensar, mas não tem nenhuma gordura para queimar."

O Brasil já vem há tempos com um ritmo de crescimento econômico muito lento. As projeções dos economistas são de que o PIB cresça 0,81% este ano, número bem abaixo do que se previa no início do ano, 2,5%. Mas mesmo este 0,81% precisa de uma aceleração forte da economia neste segundo semestre, o que seria dificultado por uma crise global. Portanto, como mostrou o nosso colunista Fábio Alves, já existe um risco razoavelmente grande de nem esse número ser atingido.

O papel do governo, num cenário como esse, é insistir nas reformas, para tentar fortalecer um pouco mais a economia. Não dá para se pensar hoje em estímulos com dinheiro público - a saída encontrada no governo Lula para lidar com a crise global, e que pode ser considerada o estopim da recessão da qual ainda tentamos nos recuperar -, porque simplesmente não há dinheiro. Para estimular os investimentos, o que o ministro Paulo Guedes diz que vai fazer é acelerar as privatizações . Mas ele mesmo lembra que isso não deve ter muito efeito no curto prazo.

A verdade é que, se houver mesmo uma crise global forte, a recuperação da economia brasileira pode atrasar ainda mais.

Estadão
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