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Com crise fiscal, ambiental e política, fatia de fundos globais no Brasil é a menor desde 2001

Mesmo entre os fundos internacionais dedicados a mercados emergentes, a participação do Brasil vem tendo queda expressiva

7 ago 2020
18h27
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SÃO PAULO - O volume de recursos dos fundos globais alocados no Brasil segue em queda livre e atingiu o nível de 0,18% ao final de junho, de acordo com os dados mais recentes obtidos pelo Broadcast junto à consultoria americana EPFR Global, que monitora estes fluxos internacionais. É o menor valor da série histórica, iniciada em junho de 2001. A participação brasileira nessas carteiras já foi de 2,5% em 2009.

Mesmo entre os fundos internacionais dedicados a mercados emergentes, a participação do Brasil vem tendo queda expressiva. Ao final de junho, era de 8,4%, o menor nível desde setembro de 2002, quando estava em 5,81%, segundo os dados da EPFR. Em abril de 2015, por exemplo, antes de o País perder a classificação grau de investimento, essa fatia era de 17%.

A alocação dos fundos internacionais no Brasil vem caindo desde o final de 2015, mas se intensificou em 2020, indo para as mínimas históricas. No final daquele ano, o País perdeu a classificação grau de investimento, afastando os ativos brasileiros de muitas carteiras que só podem aplicar em papéis de países com este selo de bom pagador. Já a perda recente está ligada a uma série de fatores, que vão do aumento das preocupações com as contas fiscais brasileiras, já passaram pela piora do ambiente político e agora chegam até às questões ambientais.

Na avaliação do diretor e economista-chefe do Goldman Sachs para a América Latina, Alberto Ramos, que mora em Nova York, a imagem do Brasil nos Estados Unidos não está muito positiva entre os investidores, em meio a vários fatores, que incluem a questão do desmatamento na Amazônia, os ruídos políticos e o crescimento dos casos de coronavírus.

"A visão do investidor sobre o Brasil é de pouco interesse, não tem crescimento, não tem retorno na renda fixa", disse. Ontem, o Banco Central reduziu os juros novamente, para 2%, nova mínima histórica, e ainda deixou a porta aberta para futuros cortes. O banco Société Générale, por exemplo, projeta a taxa caindo para 1,5%. Neste ambiente de juros baixos, o Brasil só volta de fato ao radar dos investidores internacionais, que até têm comprado ações em ofertas recentes, quando conseguir crescer mais e, para isso, precisa avançar com as reformas, avalia Ramos, do Goldman.

Para o estrategista de América Latina do banco francês Société Générale, Dev Ashish, a dívida bruta do Brasil em relação ao Produto Interno Bruto (PIB), importante indicador de solvência fiscal, caminha para atingir níveis este ano jamais vistos. Com isso, a confiança dos investidores estrangeiros na sustentabilidade fiscal do Brasil está sendo testada novamente, disse ao <b>Broadcast</b>. Ashish destaca ainda que os casos de coronavírus seguem crescendo no País, o que torna o ambiente mais desafiador para o crescimento econômico e para o cenário político.

"Nosso dever de casa é voltar a crescer, para atrair capital e resolver a parte fiscal, que hoje é o principal ponto de fragilidade da economia brasileira", disse o economista e sócio da gestora JGP, Fernando Rocha (JGP), em Live do BTG Pactual. Para ele, a tendência é que o Brasil só retome o nível de atividade que tinha antes da pandemia, a partir do segundo trimestre de 2022. Por conta da piora fiscal, o Bank of America colocou o Brasil entre os três emergentes mais frágeis em 2020, junto com a África do Sul e Turquia.

Com a taxa básica de juros, a Selic, em nova mínima histórica, Rocha observa que o Brasil está "entrando em terreno muito arriscado", sobretudo quando se considera a forte deterioração fiscal e que o aumento da dívida precisa ser financiado. Ele observa que os investidores estrangeiros estão cada vez mais saindo do Brasil e, com isso, a participação deles na dívida pública é continuamente menor. Só em julho, as saídas de recursos externos pelo canal financeiro somaram US$ 5 bilhões, de acordo com dados do BC. No ano, as saídas líquidas já batem em US$ 43 bilhões por este segmento.

Um das amostras da preocupação dos investidores estrangeiros com a questão fiscal do Brasil, avalia o economista-chefe do BTG Pactual digital, Álvaro Frasson, é que passado o pior momento da pandemia do coronavírus, a volatilidade das moedas dos países emergentes, como peso do México e o rand da África do Sul, caiu, mas a do real continua alta, tanto que o próprio BC está investigando este movimento.

Além disso, o Credit Default Swap (CDS), derivativo que protege contra calotes, um termômetro do risco-país, do Brasil vem caindo em ritmo mais lento que seus pares internacionais. "O CDS do Brasil foi o que menos caiu frente a outros emergentes por conta do cenário fiscal doméstico mais desafiador", disse Frasson em live do banco.

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Estadão
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