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Brasil perderá 'peso' no exterior se deixar acordo de clima

Risco de 'descredenciamento' em fóruns e agências internacionais é real

24 nov 2018
05h11
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Mesmo com práticas ligadas à agricultura de baixo carbono adotadas em larga escala no País, além da farta legislação ambiental, o representante da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, André Guimarães, acredita que a permanência do Brasil no Acordo de Paris deve ser vista como "uma grande oportunidade" de captação de recursos para aprimorar as práticas sustentáveis de uso do solo. "Grande parte das metas voluntárias do Brasil acordadas em Paris diz respeito ao uso da terra, como restauração florestal e mudanças de práticas de uso do solo", comenta. "Para cumprir essas metas, é necessário capital."

Além do risco de obter menos recursos para adotar práticas sustentáveis, o representante da coalizão também vê a ameaça de perda de mercados e de uma importante ferramenta que auxilia o País a ordenar o uso da terra. "Combater o desmatamento ilegal, por exemplo, é um resultado potencial do Acordo de Paris; se o País deixá-lo, será uma importante ferramenta a menos."

O Brasil também perderia "peso" em outros eventuais fóruns internacionais, pelo fato de não ser mais signatário de Paris, alerta Guimarães. "Isso nos descredenciaria em outros pleitos, como participação em agências e órgãos internacionais, por exemplo. Sairíamos enfraquecidos."

Das metas propostas pelo Brasil no Acordo do Clima, as que mais avançaram foram a redução do desmatamento e a adoção de boas práticas agropecuárias, por meio da agricultura de baixo carbono, diz o professor da FGV Angelo da Costa Gurgel, coordenador do Observatório ABC. "Há outros planos, ligados ao setor de energia e indústria, que foram, porém, menos efetivos do que os da agropecuária." Por isso, para ele, não há sentido em sair do Acordo de Paris. "Desistir seria deixar de avançar numa agenda de competitividade com amplos benefícios sociais", defende, ressaltando que, como a agenda agropecuária "está indo para a frente", não tem por que parar.

O pesquisador Eduardo Assad, da Embrapa Informática, diz que a agricultura brasileira tem sido protagonista importante na contribuição para a redução da emissão de gases do efeito estufa e que, numa conta modesta, tem o potencial de mitigar de 15% a 20% do total de emissões do País. "Desde 2009, na Conferência do Clima, em Copenhagen, mostramos nosso potencial de redução nas emissões a partir da adoção de boas práticas agropecuárias (BPA)", diz.

Em recuperação

"Naquela época, tínhamos 60 milhões de hectares de pastos degradados; hoje são 48 milhões." Assad diz que não só por causa do acordo climático, mas também por ele, o País desenvolveu tecnologias integradoras na agropecuária, que hoje são referência mundial, como plantio direto na palha, integração lavoura-pecuária, integração lavoura-pecuária-floresta e fixação biológica de nitrogênio. "O Brasil é o único país que apresentou resultados expressivos em reduzir emissão de gases do efeito estufa por meio de BPAs." Assad diz que esses resultados serão apresentados na próxima Conferência das Partes, em Katowice, Polônia, em dezembro.

Estadão
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