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Bolsa perde fôlego e Nova York cai após presidente do Fed citar piora da inflação dos EUA

Jerome Powell disse que a inflação dos EUA está pior do que o esperado há alguns meses; banco central americano decidiu manter as taxas de juros entre 0% e 0,25%

26 jan 2022 17h40
| atualizado às 19h12
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O anúncio de política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) nesta quarta-feira, 26, gerou um alívio momentâneo para os ativos brasileiros e americanos, que durou apenas até a fala do presidente da autoridade monetária. A Bolsa brasileira (B3), que operava em alta robusta, superior a 2%, teve alta de 0,98%, aos 111.289,18 pontos, enquanto Nova York virou para o negativo. O dólar, por sua vez fechou com leve alta de 0,11%, a R$ 5,441.

As reações do mercado às manifestações do BC americano foram distintas. O comunicado foi recebido de forma tranquila e, por aqui, o dólar chegou até a cair, pontualmente, para R$ 5,3936. O real, ressalte-se, sofreu menos que seus pares em meio a onda de fortalecimento da moeda americana lá fora. No acumulado de janeiro, o dólar à vista ainda acumula queda expressiva, de 2,42%.

No comunicado, a autoridade monetária manteve as taxas entre 0% e 0,25%, como esperado, e disse que será "apropriado subir o juro em breve". Além disso, destacou ainda que a inflação é resultado dos desequilíbrios entre oferta e demanda e dos atrasos na vacinação. O Fed informou ainda que o tapering, nome dado ao processo de aperto no programa de compra de ativos, deverá ser finalizado em março.

"O comunicado divulgado após a reunião reforçou a visão de que a primeira elevação dos juros deve ocorrer na próxima reunião (de março), em provável alta de 0,25 ponto percentual, além do fim do programa de compra de ativos no início de março", diz Paula Zogbi, analista da Rico Investimentos.

Já o discurso de Jerome Powell, presidente do Fed, foi interpretado como mais duro. O presidente do BC destacou as pressões inflacionárias, ao dizer quer "há risco de que a inflação possa ser mais persistente do que o esperado" - e afirmou que, "se as condições forem apropriadas", os juros devem subir em março. Ele reiterou também que o processo de enxugamento da liquidez deve ser mais rápido que no pós-crise de 2008. Powell se esquivou em relação ao ritmo de elevação da taxa básica, algo que "depende dos dados", mas disse que há muito espaço para subir os juros sem afetar o mercado de trabalho

Na avaliação do economista-chefe da JF Trust, Eduardo Velho, o comunicado do BC americano veio em um tom moderado, afastando temores de uma postura mais dura em relação a trajetória da taxa de juros, o que explica a reação inicial amena dos ativos de risco. "Mas o Powell foi mais duro, mostrando uma preocupação com a inflação que não estava nem no comunicado nem em seu discurso anterior. Isso provocou uma correção das Bolsas americanas e fortaleceu o dólar", diz Velho, ressaltando que o mercado provavelmente passará a projetar "no mínimo" quatro altas da taxa de juros nos EUA ao longo deste ano. "A questão é se vai ser tudo isso. Vejo um receio grande do Fed com uma correção muito acentuada das bolsas americanas e o impacto muito forte dos juros nas empresas".

A economista-chefe da Veedha Investimentos, Camila Abdelmalack, vai na mesma linha e afirma que a fala de Powell dá a impressão de que o Fed está "muito mais preocupado com a inflação do que estava na reunião de dezembro", o que fez o dólar ganhar força na comparação com seus pares e encurtou o fôlego do real. "O dólar é a moeda que fundamenta a precificação dos investimentos, porque é um ativo global. Como o Federal Reserve 'manda' na moeda, o mundo todo olha de perto a condução da política monetária", afirma.

Por aqui, o IPCA-15 de janeiro, acima das expectativas, não apenas reforça a perspectiva de alta de 1,50 ponto porcentual da Selic na reunião do Copom na próxima semana como sugere uma aperto maior e mais prolongado da política monetária - o que, em tese, dá suporte ao real, pois juros mais elevados tendem a atrair recursos para a renda fixa.

Para Velho, da JF Trust, o dólar pode até subir um pouco em relação ao real amanhã, mas não deve ter fôlego para voltar ao patamar de R$ 5,70 nos próximos dias, dado que boa parte do discurso de Powell já foi incorporada aos preços hoje e há apetite de estrangeiros por ativos domésticos. "O fluxo pode mudar, é claro. Mas, pelos fundamentos, a taxa de câmbio pode até voltar um pouco, embora não muito abaixo de R$ 5,40", diz o economista.

Bolsas

O desfecho sem surpresas da aguardada primeira reunião do Fed em ano do qual se espera elevação de juros e retirada de estímulos foi recebido a princípio com alívio pelos investidores globais, trazendo um pouco mais de lenha para a recuperação do Ibovespa, que já vinha ocorrendo em janeiro mesmo nos dias mais negativos em Nova York.

À tarde o índice subiu 2,26%, aos 112.694,60 pontos, minutos após o comunicado do Fed, mas depois perdeu força com a entrevista de Powell, que acabou por colocar os índices de Nova York no negativo no fechamento - o Dow Jones fechou em queda de 0,38% e o S&P 500, 0,15%. O Nasdaq ficou no positivo, mas com ganho marginal de 0,02%.

A falta de uma diretriz muito clara contribuiu para que os três índices murchassem ao longo da entrevista do presidente do Fed, e fortaleceu a renda fixa. Entre os Treasuries, títulos da dívida pública americana, o resultado foi positivo - o papel com vencimento para dez anos subiu 1,855% e o de trinta anos, 2,177%.

Na máxima intradia desta quarta-feira, o índice da B3 foi ao maior nível desde 19 de outubro passado, quando havia saído de abertura aos 114,4 mil pontos. Na semana, os ganhos estão agora em 2,15%, enquanto os do mês vão a 6,17%. Em si, "a decisão do Fed veio em linha com a expectativa do mercado, mas as declarações do presidente do Fed foram mais duras e o mercado virou", observa a Cristiane Quartarolli, economista do Banco Ourinvest.

Na ponta do Ibovespa nesta quarta-feira, destaque para Grupo Soma, em alta de 9,76%, Petz, de 7,33% e Méliuz, de 6,91%. No lado oposto, Braskem, caiu 4,17% e Americanas, 3,51%. Entre as ações de grande peso, Petrobras ON e PN subiram respectivamente 2,93% e 2,67%, com Vale em alta de 0,29% no fechamento. Os bancos responderam bem à perspectiva de juros maiores e retirada de estímulos nos EUA, à exceção de Banco do Brasil, que caiu 0,96%. /ANTONIO PEREZ, LUÍS EDUARDO LEAL E MAIARA SANTIAGO

Estadão
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