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Bolsa cai em sintonia com Nova York após inflação de agosto dos EUA; dólar vai a R$ 5,25

Resultado abaixo do esperado confundiu os investidores nesta terça-feira, com alguns deles temendo que dado indique uma desaceleração na recuperação da economia dos EUA

14 set 2021 16h37
| atualizado às 18h36
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O resultado abaixo do esperado para a inflação dos Estados Unidos confundiu os investidores nesta terça-feira, 14, com alguns deles temendo que o resultado aponte para uma desaceleração da economia americana. O dado azedou o mercado de Nova York, cuja aversão aos riscos foi sentida também pela Bolsa brasileira (B3), hoje em queda de 0,19%, aos 116.180,55 pontos e pelo câmbio, com o dólar em alta de 0,65%, a R$ 5,2573.

Extremamente aguardado por investidores, o índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) teve avanço de 0,3% em agosto ante julho, abaixo das estimativas de 0,4% do Projeções Broadcast. O núcleo do CPI, que exclui os voláteis preços de alimentos e energia, avançou 0,1% na comparação mensal de julho, também abaixo da mediana das projeções, de acréscimo de 0,3%.

Porém, apesar do dado positivo, os índices americanos recuam. Em Nova York, Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq fecharam com quedas de 0,83%, 0,57% e 0,45% cada. Em resposta, o Ibovespa bateu nos 115.809,02 pontos na mínima. Nestes dois primeiros dias da semana, o ele acumula ganho de 1,66%, limitando as perdas do mês a 2,19% - no ano, cede agora 2,38%. Além do exterior, com a 'ajuda' do desempenho negativo de Petrobras, com ON e PN cedendo 0,74% e 1,33%, Vale, em baixa de 0,71% e Banco do Brasil ON, de 0,81%, o índice se firmou no negativo à tarde, cortando a recuperação ensaiada no dia anterior.

"Há uma piora de sentimento no exterior, com a percepção de que a inflação abaixo do esperado nos Estados Unidos possa estar sinalizando estagnação da economia, no momento em que o Fed [Federal Reserve, o banco central americano] ainda busca cumprir parte de seu mandato, relacionado ao pleno emprego", diz Nicolas Farto, assessor de renda variável na Renova Invest.

"Aqui, Vale refletiu a queda do minério de ferro e Petrobras, apesar da alta do petróleo com a formação de nova tempestade em direção aos Estados Unidos, mostra a cautela do mercado ante a presença do presidente Silva e Luna para dar explicações ao Congresso, no dia seguinte a Arthur Lira (presidente da Câmara) ter criticado a política de preços da estatal", acrescenta.

Na ponta negativa do Ibovespa, Dexco cedeu hoje 3,07%, à frente de CVC, em queda de 2,93% e de BRF, de 2,89%. No lado oposto, destaque para Meliuz, em alta de 15,10% - pelo terceiro dia segurando a ponta positiva do Ibovespa, com ganhos na casa de dois dígitos nas últimas duas sessões -, seguida por Locaweb, com ganho de 8,21%.

Pela manhã, em evento promovido pelo BTG Pactual, Roberto Campos Neto presidente do Banco Central, reforçou que fará o que for preciso para alcançar convergência dos preços à meta de inflação no horizonte relevante, mas que não necessariamente reagirá a dados de alta frequência. "Vamos levar a Selic aonde precisar, mas não vamos reagir sempre a dados de alta frequência", afirmou na manhã desta terça-feira, o que resultou em ajuste nos juros futuros.

Para o estrategista-chefe da BTG Pactual Asset Management e ex-diretor do Banco Central, Tiago Berriel, a declaração de Campos Neto desta manhã deixou bem claro que o ritmo de alta de juros deve ser de 1 ponto porcentual e os ajustes em função da piora de cenário devem ocorrer no tamanho do ciclo de aperto monetário. "O ciclo de alta de juros deve terminar no início do ano que vem entre 9% e 9,5%", disse Berriel.

Em outro evento nesta terça-feira, Luis Stuhlberger, sócio-fundador e presidente da Verde Asset Management, apontou que o Banco Central ficou muito atrás da curva e precisa elevar os juros no curto prazo, "e ponto final". Ainda assim, o gestor acrescentou não estar pessimista quanto às taxas de juros de longo prazo. Segundo ele, os mercados estão vendo atualmente situação fiscal do Brasil pior do que realmente é, em reflexo da preocupação dos investidores com o ambiente político.

"Tivemos desde a manhã um dia movimentado, começando com o crescimento da atividade de serviços no Brasil, mais ou menos em linha com o esperado - um dado positivo, que mostra recuperação. Nos Estados Unidos, havia expectativa para a inflação ao consumidor, em vista do 'tapering' [retirada de estímulos pelo Fed], e a leitura de hoje dá algum sossego ante o receio de descontrole da inflação por lá", diz João Vitor Freitas, analista da Toro Investimentos.

Câmbio

Nesta terça, o principal catalisador para a arrancada do moeda americana no fim dos negócios foi a deterioração do ambiente externo, com perdas fortes das Bolsa em Nova York - que respingaram no Ibovespa - e a piora das divisas emergentes. Depois de trabalhar em queda a maior parte do dia, o Índice DXY - que mede o desempenho do dólar em relação a seis moedas fortes - também se fortaleceu e renovou máxima, operando perto da estabilidade. Na máxima, a moeda bateu em R$ R$ 5,2638, registrada já na reta final de pregão. O dólar para outubro subiu 0,56%, a R$ 5,2635.

Na avaliação do diretor de estratégia da Inversa Publicações, Rodrigo Natali, a queda acentuada das bolsas americanas ao longo da tarde trouxe uma onda de aversão ao risco, já que se esperava uma recuperação dos índices após as perdas recentes. "O CPI era o último dado que tinha potencial de ser forte para mexer com a expectativa do tapering. O resultado pesou bem no DXY pela manhã, mas agora parece que o mercado já começa a se acalmar", afirma Natali, em referência ao encontro do comitê de política monetária do Fed no próximo dia 22.

Por aqui, o mercado de câmbio recebeu, em um primeiro momento, de forma amena a sinalização de Campos Neto de que não haverá aceleração do ritmo de alta da Selic no encontro do Copom neste mês (dias 21 e 22). Nataliobserva que, dada a forte queda dos juros futuros mais curtos, o dólar até que subiu pouco por aqui. "O desempenho da taxa de câmbio está até tímido, talvez porque tem muita gente vendida em dólar. Hoje pode ser só o começo desse movimento [de depreciação adicional do real]", diz Natali.

O estrategista da Inversa vê hoje três fatores que podem levar a uma alta do dólar nos próximos meses: o início do 'tapering' nos EUA, o problema fiscal doméstico e a perspectiva de que se consolide o cenário de polarização nas eleições presidenciais de 2022, com disputa entre Jair Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. /LUÍS EDUARDO LEAL, ANTÔNIO PEREZ E MAIARA SANTIAGO

Estadão
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