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BC interrompe cortes de juros e mantém Selic em 10,50% em decisão unânime apesar de pressão do governo

19 jun 2024 - 18h45
(atualizado às 19h57)
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O Banco Central decidiu nesta quarta-feira manter a taxa Selic em 10,50% ao ano, em decisão unânime de sua diretoria para interromper o ciclo de afrouxamento monetário iniciado em agosto do ano passado, dando destaque à piora das expectativas de inflação.

A autoridade monetária ainda apresentou um cenário alternativo para suas projeções de inflação que considera uma manutenção da Selic nesse patamar por mais tempo do que o estimado pelo mercado, o que foi lido por analistas como uma sinalização de que os juros básicos seguirão nesse nível até que se observe uma melhora nos dados e projeções de preços.

O mercado esperava a manutenção da taxa, mas havia ansiedade dos investidores em torno do placar da decisão, em meio a pressão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva por novos cortes e após uma divisão na reunião anterior ter gerado preocupações com a chance de o BC se tornar mais leniente com a inflação.

"O Comitê, unanimemente, optou por interromper o ciclo de queda de juros, destacando que o cenário global incerto e o cenário doméstico marcado por resiliência na atividade, elevação das projeções de inflação e expectativas desancoradas demandam maior cautela", informou o Comitê de Política Monetária (Copom) em comunicado.

De acordo com o documento, a diretoria entende que a política monetária deve se manter contracionista por tempo suficiente em patamar que consolide não apenas o processo de desinflação, como também a ancoragem das expectativas em torno de suas metas.

No comunicado, o BC enfatizou a "ampliação da desancoragem das expectativas de inflação".

A decisão desta quarta veio em linha com pesquisa da Reuters com economistas, com 34 dos 40 economistas entrevistados projetando que o Copom deixaria a Selic inalterada neste mês --outros 6 viam um corte de 0,25 ponto.

A interrupção dos cortes na Selic vem após sete reduções consecutivas. O atual patamar da taxa básica de juros é o menor desde fevereiro de 2022, quando estava em 9,25% ao ano.

A reunião de maio do Copom havia gerado ruídos no mercado, com o BC optando por abandonar a orientação que vinha dando sobre cortes futuros nos juros básicos, em decisão que reduziu o ritmo de afrouxamento monetário sob discordância dos diretores indicados por Lula.

Desde então, a cúpula da autarquia vem fazendo declarações públicas que buscam mostrar coesão da diretoria em uma busca firme pela convergência da inflação à meta, em meio a um processo de desancoragem das expectativas de mercado mesmo com dados benignos de preços correntes.

Na terça-feira, porém, Lula acrescentou ingrediente político à reunião do Copom ao criticar duramente o presidente do BC, Roberto Campos Neto, e afirmar que indicará para a chefia da autarquia uma pessoa que não se submeta à pressão do mercado. Dos nomes tidos como cotados ao posto, dois já fazem parte da diretoria e votam no Copom -- Gabriel Galípolo e Paulo Picchetti.

Atualmente, a cúpula da autarquia é composta por quatro diretores indicados por Lula, enquanto cinco estão no posto desde a gestão de Bolsonaro. Os próximos mandatos a vencer, em dezembro deste ano, são de Campos Neto, Carolina Barros e Otávio Damaso.

A manutenção da Selic gerou críticas na esquerda, com a presidente do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR) afirmando que não há justificativa técnica para esse nível de juros, mas também do setor produtivo, com a Confederação Nacional da Indústria (CNI) classificando a decisão como "excessivamente conservadora".

CENÁRIO ALTERNATIVO

O comunicado do Copom avaliou que a inflação ao consumidor tem apresentado trajetória de queda, enquanto medidas de inflação subjacente, que desconsideram itens mais voláteis, ficaram acima da meta de inflação nas divulgações mais recentes.

Nesta quarta, o BC piorou suas próprias projeções para o comportamento dos preços em relação à reunião anterior, informando que a estimativa para a inflação foi de 3,8% para 4,0% em 2024 e de 3,6% para 3,4% em 2025 em seu cenário de referência.

Em uma inovação em relação à reunião de maio, o BC passou a apresentar um cenário alternativo. Nele, segundo a autarquia, a Selic é mantida constante ao longo do horizonte relevante, que inclui o próximo ano, o que leva as projeções de inflação a ficarem em 4,0% para 2024 e 3,1% para 2025.

O cenário de referência do BC considera a trajetória de juros extraída do boletim Focus, que prevê um primeiro corte na Selic no início de 2025, a 10,25% ao ano, com a taxa encerrando o próximo ano em 9,5%. No cenário alternativo apresentado, portanto, a Selic permaneceria em 10,50% por mais tempo que o projetado pelo mercado.

"(O Copom) sinalizou claramente que esse juro tem que ficar nesse patamar por um bom tempo para garantir a convergência à meta", avaliou o economista-chefe da XP Investimentos, Caio Megale.

Nota do BGC Strategy afirmou que, ao apresentar o cenário alternativo, o BC "demonstra de maneira hábil e sucinta que este se trata do novo cenário base", argumentando que a sinalização "ajuda a amainar pressões por altas de juros no curto prazo".

O centro da meta oficial para a inflação em 2024, 2025 e 2026 é de 3,00%, sempre com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou menos.

Em meio a questionamentos sobre a sustentabilidade do arcabouço fiscal implementado pelo governo, com resistências do Congresso à aprovação de medidas arrecadatórias e trabalho ainda tímido de revisão de despesas, o BC disse que "monitora com atenção" como os desenvolvimentos recentes das contas públicas impactam a política monetária e os ativos financeiros.

"O Comitê reafirma que uma política fiscal crível e comprometida com a sustentabilidade da dívida contribui para a ancoragem das expectativas de inflação e para a redução dos prêmios de risco dos ativos financeiros, consequentemente impactando a política monetária", disse.

A ampliação de incertezas inclui o fiscal, mas também uma percepção do mercado de que os juros nos Estados Unidos permanecerão elevados por mais tempo, o que reduz a liquidez em economias emergentes e fortalece o dólar, podendo gerar pressão inflacionária no Brasil.

No comunicado, o BC afirmou que o ambiente externo continua adverso em função da "incerteza elevada e persistente" sobre a política monetária nos Estados Unidos e a velocidade da desinflação em diversos países, o que exige cautela de economias emergentes.

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