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Antiga Odebrecht, Novonor tenta virar a página ao se especializar em construção civil

Após trocar de nome, grupo busca vender outros negócios, como a Braskem, e se afastar da imagem ligada à Operação Lava Jato

7 jul 2022 - 05h10
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Quando mudou seu nome para Novonor, há um ano e meio, o grupo Odebrecht, fundado pelo patriarca da família, Norberto Odebrecht, tinha o objetivo de deixar para trás o passado da empresa, em especial as práticas de corrupção que vieram à tona com a Operação Lava Jato e que marcaram o início da decadência da companhia. Embora ainda tenha os mesmos donos, o grupo reformulou toda a liderança e está redefinindo a sua rota para buscar uma saída para seu enorme processo de recuperação judicial, que inclui dívidas superiores a R$ 100 bilhões.

O novo comando da empresa faz a leitura de que o caminho está pronto para a retomada, ainda que bem longe dos níveis anteriores. "Quando cheguei, o caminho já estava pavimentado, com a recuperação judicial homologada, acordos de leniência feitos e pudemos partir e olhar para o futuro", diz o presidente da Novonor, Hector Nuñez, que assumiu o posto em março, após ter passado pelo conselho de administração do grupo.

Nuñez afirma que a empresa fez o dever de casa em termos de governança e se debruçou em estruturar processos de compliance. Com o baque da Lava Jato, deixou de ser uma gigante de quase 130 mil funcionários - hoje, são cerca de 30 mil. Além dos custos das investigações da Polícia Federal, a companhia afirma que a recessão que o Brasil viveu a partir de 2015 afetou seus negócios. "O setor (de construção) vive de ciclos, de altas e baixas", resume Maurício Cruz Lopes, presidente da OEC (nova marca da antiga Odebrecht Engenharia e Construção).

A OEC será agora o negócio central da Novonor, substituindo a petroquímica Braskem, que tem o posto hoje, mas está à venda. O faturamento do braço de construção foi de US$ 500 milhões em 2021 - muito distante dos US$ 10 bilhões que a empresa arrecadava ao ano no início da década passada. Mas Lopes diz que a tendência é de alta: neste ano, espera faturar de US$ 1,1 bilhão a US$ 1,2 bilhão.

Segundo Nuñez, a antiga meta de ser a maior empreiteira do País ficou no passado. A OEC não pretende mais disputar contratos de concessões, que exigem investimentos bilionários tanto para a construção quanto em valores de outorgas para o governo.

Agora, a ordem é atuar como uma parceira de companhias vencedoras na área de construção. Hoje, a OEC tem 22 projetos em andamento, sendo o maior deles a usina hidrelétrica de Laúca, em Angola. No Brasil, são 11 obras, como o Prosub, programa de submarino nuclear, e o terminal de gás de Babitonga, em Santa Catarina.

O cenário do setor é bem diferente do visto na década passada. De 2012 a 2020, a participação da infraestrutura no PIB brasileiro caiu 50%. A coordenadora de projetos de construção do FGV Ibre, Ana Castelo, acredita que o cenário terá uma melhora nos próximos anos com as novas concessões do governo federal.

Ela enxerga uma chance para a Novonor abocanhar parte deste mercado, embora saliente que a recuperação de imagem ainda está longe de ser concluída. "A empresa vai ter um grande trabalho a fazer. É possível retomar, mas ela precisará mostrar que suas regras são transparentes e que o sistema de compliance é forte."

Recuperação judicial

Para seguir os planos, contudo, é crucial pagar aos credores da recuperação judicial. Apenas assim a Novonor voltará a ter mais linhas de crédito - apesar de Nuñez afirmar que a empresa não está tendo problemas para obter financiamentos.

Para fechar as contas, a Novonor precisará vender uma série de empresas. A sua joia na coroa é a Braskem, que vale R$ 30 bilhões e tem a Petrobras como sócia. Depois de várias tentativas de venda no mercado, a companhia deverá sair do negócio via Bolsa, nos próximos meses.

Outras empresas, como a Ocyan, de óleo e gás, assim como a OTP, que congrega as concessões rodoviárias da empresa, já contrataram bancos para buscar compradores. A empresa já vendeu a Odebrecht Ambiental e a Atvos (antiga Odebrecht Agroindustrial).

Ao mesmo tempo que planeja o futuro, a Novonor ainda enfrenta questões do passado. Um dos exemplos é o pagamento do acordo de leniência de R$ 2,7 bilhões celebrado em 2018 - o maior entre as construtoras envolvidas na Lava Jato.

Há duas semanas, o Estadão mostrou que um grupo de empreiteiras está em busca de renegociações dos valores de acordos, alegando o difícil momento econômico e a dificuldade desses negócios em firmar contratos com o governo.

Nuñez, no entanto, afirma que a Novonor seguirá com o pagamento e que não há renegociações em andamento. Até agora, a empresa pagou cerca de R$ 150 milhões, ou 5,5% do total da multa. Outro ponto que Nuñez afirma estar resolvido é a separação das disputas envolvendo a família Odebrecht, que controla a Novonor, e a operação do negócio. "Isso não impacta o nosso dia a dia."

Estadão
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