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A lição mais importante que Biden pode aprender com a economia de Trump

Índices de desemprego podem cair a níveis mais baixos e os déficits de orçamento do governo podem ficar mais altos do que se acreditava antes, sem que uma espiral inflacionária seja desencadeada

12 jan 2021
10h10
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A despeito de todos os problemas que o desdém do presidente Donald Trump em relação a especialistas de elite tenham causado nos último quatro anos, sua disposição para ignorar a ortodoxia na economia em uma área crucial se justificou, oferecendo uma lição para os anos de governo de Biden e além.

Durante o período de Trump na presidência, ficou claro que a economia americana é capaz de superar o que os tecnocratas já pensaram ser o seu limite: especificamente, os índices de desemprego podem cair a níveis mais baixos e os déficits de orçamento do governo podem ficar mais altos do que antes comumente se acreditava, sem que uma espiral inflacionária seja desencadeada.

Alguns dos principais economistas liberais alertaram que os cortes de impostos financiados por déficits de Trump criariam uma mera "excitação", uma explosão de crescimento de vida curta. O Gabinete de Orçamento do Congresso previu que os benefícios econômicos da lei de impostos de Trump, sua marca registrada, seriam, em parte, atenuados por taxas de juros mais altas que desencorajariam o investimento privado.

E o Federal Reserve (Fed), o banco central americano, tomou medidas em 2017 e 2018 para evitar que a economia se aquecesse demais — orientado por modelos que sugeriam que uma melhora no mercado de trabalho poderia, por fim, provocar uma alta inflacionária.

Esses alertas não se concretizaram.

Antes da pandemia, o índice de desemprego estava menor que 4%, a inflação estava baixa e os salários cresciam em ritmo constante, especialmente entre as classes média e baixa. A renda ajustada pela inflação das famílias americanas de classe média cresceu 9% entre 2016 e 2019.

As taxas de juros mais elevadas resultantes dos cortes de impostos não compensados que tinham sido previstas não se materializaram; o Gabinete de Orçamento do Congresso projetou na primavera de 2018 que o rendimento das obrigações do Tesouro com vencimento em dez anos seria de 3,5% em 2019. Na verdade, ele atingiu meros 2,1%, o que tornou os empréstimos do governo mais viáveis.

E o FED cortou as taxas de juros a partir de 2019, apesar de um índice de desemprego muito baixo, aceitando implicitamente a premissa de que havia agido muito agressivamente em relação a elevações de juro para evitar uma inflação que nunca veio.

Trump deu uma série de sinais contraditórios em relação tanto a déficits quando a políticas de taxas de juros ao longo dos anos. De maneira intermitente, ele prometeu acabar com a dívida pública, mesmo enquanto suas políticas a elevavam; apoiou elevações de taxas de juro em 2015, acusando o Fed de mantê-las baixas para ajudar o presidente Barack Obama; e alguns dos indicados de Trump para o Federal Reserve eram falcões monetários (não aqueles que conseguiram obter a confirmação do Senado).

Mas a experiência de sua presidência — particularmente a pujante economia anterior à pandemia — mostrou o que é possível. Pode não ter sido a melhor economia da história do país, como ele alegava repetidamente, mas era facilmente a mais forte desde o fim dos anos 1990 — e, antes disso, seria necessário voltar ao fim dos anos 1960 para encontrar condições similares.

Se Trump foi capaz de ignorar a ortodoxia econômica e atingir os melhores resultados econômicos em anos, vale a pena questionar o valor dessa ortodoxia.

Será que, talvez, o sucesso da "Trumponomics" nos diga que estávamos fazendo algo errado há décadas?

A moderação e seus problemas

Para entender o quão profundamente arraigado o senso comum centrista em relação à política econômica permeou a geração passada, considere um curioso incidente de agosto de 1994. Alan Blinder, o então recém-nomeado vice-presidente do Federal Reserve, deu um discurso em um simpósio anual de funcionários de bancos centrais em Jackson Hole, Wyoming, no qual descreveu a tentativa de reduzir o desemprego como um importante papel do Fed.

Um falatório exaltado de seguiu. Havia uma indignação nos corredores diante do foco de Blinder no desemprego, e não em evitar inflação, algo que os funcionários de bancos centrais tinham como seu objetivo principal. Isso acabou nos meios de comunicação, incluindo contundentes ataques.

"Dito de maneira simples, Blinder é 'mole' com a inflação", escreveu o colunista Robert J. Samuelson, da revista Newsweek. Sem a devida convicção anti-inflação, "faltam a Blinder as qualidades morais ou intelectuais necessárias para liderar o Fed".

"Fui apedrejado por sugerir que deveríamos buscar um índice de desemprego inferior a 6%", afirmou recentemente Blinder, economista formado em Princeton.

Uma visão generalizada entre as elites administrativas a respeito de políticas econômicas após a inflação galopante dos anos 1970 e início dos anos 1980 dizia que o desemprego elevado era um custo necessário para manter os preços estáveis. Dizia também que o governo não pode gastar muito mais do que arrecada sem tomar o espaço do investimento privado — enfraquecendo a economia, com o tempo — e que os responsáveis pelas políticas econômicas deveriam agir preventivamente para evitar esses riscos.

Esse consenso intelectual esteve por trás de muitas decisões de grande importância. Entre elas: a pauta de redução de déficit do governo Bill Clinton; os aumentos de taxas de juro do Fed de Alan Greenspan, durante o segundo mandato de George W. Bush; e a determinação do governo Obama de não aumentar o déficit com seu maior legado, a reformulação do sistema de saúde.

Essa visão foi formada pela confiança na "Curva de Philips", que descreve a relação entre entre índice de desemprego e inflação. Conforme era aplicada por toda uma geração de funcionários de bancos centrais, a curva era tida como um útil guia para formulações de políticas. Se o índice de desemprego baixasse demais, segundo sua lógica, a inflação seria inevitável: então, os bancos centrais tinham de evitar que isso acontecesse.

Quando diretores do Fed elevaram as taxas de juro em dezembro de 2015, por exemplo, o consenso entre eles era que o índice de desemprego ideal a longo prazo — o objetivo que eles buscavam — era 4,9%.

Se o mercado de trabalho continuasse a melhorar, afirmou a então presidente do Fed, Janet Yellen, na reunião na qual foi decidido aquele aumento nas taxas de juro, "seria interessante revisar o ritmo do crescimento do emprego para, de alguma maneira, reduzir o risco de superaquecimento".

Ainda assim, da primavera de 2018 até o início da pandemia, os Estados Unidos tiveram um índice de desemprego de 4%, no máximo, sem dar sinais óbvios de inflação e dando muitos sinais de que trabalhadores menos qualificados estavam conseguindo encontrar trabalho. A realidade se revelou melhor do que as previsões que as autoridades consideravam possíveis em 2015.

Economistas se referem ao período do início dos anos 1980 até a crise financeira de 2008 como "a grande moderação", porque as recessões foram raras e brandas. Após mais alguns anos de retrospecção, porém, aquele período parece menos bem-sucedido.

"Não há nada de particularmente moderado ou particularmente positivo a respeito da grande moderação", afirmou Larry Summers, economista de Harvard e ex-secretário do Tesouro.

Na verdade, os quatro anos mais recentes de atuação do Fed deixaram claro não somente o quanto as coisas mudaram, mas também o quanto elas precisavam mudar. Yellen (agora indicada à secretária do Tesouro pelo presidente eleito Joe Biden) realizou o primeiro de uma série de aumentos nas taxas de juro no fim de 2015, e o atual presidente do Fed, Jerome Powell, deu continuidade à política.

Mas a lógica teimava em não funcionar. A inflação continuou registrando índices abaixo do objetivo de 2% do banco central, mesmo com o desemprego continuando a cair. Não ficou muito claro quais eram os problemas dos aumentos de juros, como expressado nos ataques de Trump a Powell. Provavelmente, eles refletiram uma confiança em modelos econômicos antigos e a mesma memória muscular de combate à inflação que provocou as críticas contra Blinder, um quarto de século atrás.

Trump foi contra décadas de tradição segundo a qual presidentes não pressionavam o Fed, que busca se manter independente em relação à política. Mas isso não significa que o presidente estivesse errado quanto às taxas de juros.

Lições para o próximo governo

As pessoas que darão forma à política econômica do próximo governo parecem ávidas para estimular uma retomada econômica pós-pandemia refletindo as lições (macroeconômicas) dos quatro anos mais recentes.

Yellen tem um histórico como economista do trabalho e, nos anos 1990, como funcionária do Fed, insistiu a Greenspan para que aumentasse preventivamente as taxas de juros, com base nos riscos de inflação previstos pela Curva de Philips. Naquela fatídica reunião que decidiu o aumento de juros, em 2015, ela levantou uma intrigante possibilidade. Para a inflação permanecer consistentemente baixa, afirmou ela, "uma reconsideração mais radical do potencial de produtividade da economia seria sem dúvida necessária".

Essa reconsideração mais radical está agora, em grande parte, em curso — e inclui Yellen.

"Permitir o aquecimento do mercado de trabalho pode trazer benefícios substanciais", afirmou Yellen em um discurso na Brookings Institution, em 2019. Ela afirmou que uma economia superaquecida — na qual o desemprego é baixo e os empregadores competem por trabalhadores — favorece a ascensão social. Ela acrescentou: "Estamos vendo que, na expansão atual, os menos favorecidos no mercado de trabalho — trabalhadores menos qualificados e minorias — estão experimentando os maiores ganhos salariais e diminuições no desemprego".

Powell, que presidirá o Fed durante todo o primeiro ano do mandato de Biden e depois será reconduzido ao cargo ou substituído, em fevereiro de 2022, também passou a defender avidamente e publicamente que esses erros do passado devem ser evitados.

Nos anos mais recentes, o Gabinete de Orçamento do Congresso, que cumpre um papel crucial de prever os efeitos fiscais e econômicos de diferentes políticas, reexaminou sua posição em relação a taxas de juros futuras de maneira que reduziram a previsão de custo da dívida pública.

No começo de 2017, quando Trump assumiu a presidência, por exemplo, o organismo projetou que, até 2020, o governo precisaria pagar juros de 3,2% para tomar empréstimos de dez anos. A taxa atual está pouco acima de 1%, mesmo após a elevação ao longo da semana mais recente. Mesmo que isso reflita a recessão provocada pela pandemia, no começo de 2020, essa taxa era de 2%. A previsão mais recente do Gabinete de Orçamento do Congresso diz que os juros permanecerão abaixo dos 3% até 2029.

Biden incorporou essas lições ao formular sua pauta, como deixou claro em entrevista coletiva na sexta-feira, quando confirmou que seus planos de gastos chegarão à casa dos trilhões de dólares, ao incluir respostas à pandemia e planos de longo prazo.

"Com as taxas de juro baixas como estão", afirmou Biden, "todo grande economista acha que deveríamos manter um déficit orçamentário para gerar crescimento econômico".

Uma das grandes reviravoltas desse período é ver que o plano de Biden para restaurar a grandeza da economia dos EUA parece se fixar na aplicação das lições de macroeconomia da era Trump./ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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Estadão
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