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Vladimir Brichta  Foto: Fabio Audi / Velvet

Vladimir Brichta: "Ficar viúvo e depois lutar pela guarda da minha filha me fez entender que ser pai era uma coisa muito importante, muito valiosa"

Aos 50 anos, o ator revisita a própria relação com a paternidade e ensaia responder um pouco mais às próprias expectativas

Imagem: Fabio Audi / Velvet
  • Roberta Malta
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28 out 2026 - 10h23
(atualizado às 11h39)

Quando entro no camarim, Vladimir Brichta já está se preparando para a sessão de fotos. Chegou antes do horário combinado, experimentou todos os looks da produção e agora tira o brilho do rosto. Antes que eu faça a primeira pergunta, quer saber do meu pé, imobilizado por uma bota ortopédica. O que aconteceu, como foi a cirurgia, quanto tempo falta para a recuperação. Só depois aceita falar de si.

O assunto é “O Menor Palco do Mundo”, seu primeiro monólogo, que estreia em outubro no Teatro Vivo, com direção de Luiz Felipe Reis. Pergunto se existe um lugar onde se sente mais à vontade como ator. Vladimir não escolhe entre teatro, cinema ou TV, mas a voz muda de tom quando fala da experiência de estar em cena. “Viver aquilo junto com as pessoas tem algo de mais religioso do que fazer um trabalho e deixá-lo disponível no streaming.” Também não abre mão do processo de criação que esse tipo de arte permite. “Uma escova pode virar um tapete voador. O teatro tem um espaço para a imaginação que acho uma das coisas mais bonitas do nosso trabalho.”

Bastou ler a sinopse, escrita pelo australiano Kim Crotty, para se interessar pelo projeto. Baseado em eventos reais, o texto narra a trajetória de um pai que, após um erro que o levou à prisão, passa a inventar histórias para se manter presente na vida dos filhos, durante visitas, cartas e telefonemas. A imaginação vira o elo entre eles. Num primeiro momento, Vladimir não reconheceu nada de sua vida naquele personagem. “Eu nunca fui preso. Nunca errei como pai”, pensou. Bastaram alguns encontros com a equipe para perceber que o texto era sobre as escolhas que um homem faz ao longo da vida. “Ele está confrontando a si mesmo e o risco que suas escolhas trouxeram.” Aos poucos, a ficção abriu espaço para a vida real.

Impossível não pensar nos próprios filhos. No ano passado, Vicente, seu caçula de 19 anos, saiu de casa. Agnes, que tem 28, já havia seguido o mesmo caminho. Felipe, de 25, filho de sua mulher, Adriana Esteves, e seu enteado desde os 6 anos, também já estava com um pé dentro e outro fora. Aos 50 anos, completados em março, o ator deparou-se com o ninho vazio. Para entender a nova fase, ligou para o pai, Arno. Do outro lado da linha, a resposta de Arno foi breve: “Já passei por isso.”

Vladimir ainda pretende retomar o assunto para entender como o pai se sentiu quando a casa esvaziou. Porém, a curta troca já foi suficiente para fazê-lo lembrar de sua própria experiência com a parentalidade.

Após a separação dos pais, foi Arno quem o criou sozinho em Salvador, enquanto a mãe, Carmem, recebia os filhos para férias e feriados em Itacaré. Anos mais tarde, o exemplo do pai ganharia um novo significado quando Vladimir precisou enfrentar seu próprio desafio como pai. Em setembro de 1999, aos 23 anos, ele ficou viúvo quando sua companheira, Gena, morreu antes de a filha, Agnes, completar 2 anos. Na época, precisou dividir o tempo entre o luto, os ensaios da peça “A Máquina”, de João Falcão, e a criação da menina, contando com a ajuda da própria mãe, que assumiu os cuidados diários com a neta.

Veio então o convite para estrelar a peça no Rio. Agnes passou a alternar temporadas entre a casa do pai e a da avó materna, em Aracaju, até que, numa dessas visitas, a exsogra se recusou a devolvê-la. Seguiu-se uma longa disputa pela guarda. “Ela alegava que eu era ator, homem e jovem. Portanto, não teria condições de criar uma criança”, ele conta. Vladimir ficou meses sem ver a filha até que finalmente a trouxe para o Rio.

Ficar viúvo e depois lutar pela guarda da minha filha me fez entender que ser pai era uma coisa muito importante, muito valiosa.

No mesmo período, a carreira deslanchava. “A Máquina” tornou-se um sucesso, veio o contrato com a TV Globo e ele se mudou de vez para o Rio de Janeiro. Aqueles anos moldaram ainda mais sua maneira de entender a paternidade. Enquanto mergulhava nessas reflexões, o passado da própria família reapareceu de forma inesperada.

Pouco antes de começar os ensaios de “O Menor Palco do Mundo”, uma prima encontrou cartas que o pai de Vladimir escreveu da prisão, onde esteve durante a Ditadura Militar, para os avós do ator. Numa delas, descrevia a visita do filho mais velho e se encantava com a pureza do olhar de uma criança dentro daquele ambiente. Em outra, anunciava que um novo bebê estava a caminho. Era Vladimir, concebido enquanto o pai estava preso. “Provavelmente fui feito com paixão e urgência”, brinca.

Ao reler aquelas cartas, o ator encontrou mais uma conexão inesperada com o pai que interpretaria no monólogo. Assim como seu pai, o protagonista do texto também tenta proteger os filhos da dureza do mundo recorrendo à imaginação. “Meu pai falava da pureza do olhar da criança, e é exatamente esse elemento usado no monólogo para construir o vínculo com os filhos”, diz. Aquele homem preso já não parecia tão distante dele quanto na primeira leitura.

Outra configuração de família

Na vida real, a família tem outra configuração. Ao lado de Adriana, com quem é casado há 20 anos, construiu uma dinâmica que define como “os meus, os seus e os nossos”. Agnes cresceu tendo Adriana como principal referência feminina. Felipe manteve uma relação próxima com o pai, Marco Ricca. Vicente, filho do casal, tornou-se, nas palavras dele, “a interseção” da família. Os três compartilham o desejo de viver da atuação.

O trabalho nunca ficou restrito a tablados e sets de filmagem. Não foram poucas as vezes em que os filhos ajudaram o casal a decorar textos de novelas. Hoje, as conversas ganharam outro tom. Agnes pede conselhos, enquanto Felipe prefere dividir as experiências. Vicente, que começou a estudar interpretação enquanto cursa Cinema, envia gravações das cenas e pede uma avaliação sem concessões. A tarefa nem sempre é simples. “Eu realmente desconfio de que sejam todos muito talentosos, com características distintas. Mas um distanciamento frio eu não teria. Se eu fosse fazer uma audição e colocassem meus filhos junto de outros atores, eu seria afetado pela passionalidade mesmo.”

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A maneira como fala da própria vida ajuda a entender essa dinâmica. Vladimir quase nunca fala no singular. Ou as histórias vêm acompanhadas de um “a gente” ou os verbos aparecem no plural. Quando conta uma conquista, se lembra de quem estava ao lado dele. Quando fala da carreira, ela quase sempre vem acompanhada da amizade. Wagner Moura e Lázaro Ramos estão ao seu lado desde os primeiros anos de teatro. É com eles que divide dúvidas sobre personagens, inseguranças, escolhas profissionais e até a educação dos filhos. A amizade, diz, nunca deixou de ser um espaço de troca.

Depois de uma vida inteira construída no plural, estreia seu primeiro monólogo justamente quando tenta reservar um pouco de espaço para si. “Depois dos 50, talvez eu não seja uma pessoa melhor para os outros, mas vou ser uma pessoa melhor para mim.” Sozinho no palco, mas com a plateia cheia.

O ninho vazio me afetou profundamente. Não é o mesmo vazio vivido no espetáculo que estreia em outubro, mas também fala da relação entre proximidade e distância com os filhos. Isso é o que torna essa história tão pessoal.

STYLING MARINA FRANCO / ASSISTENTE DE STYLING VICTORIA STUCCHI

Vladimir Brichta
Vladimir Brichta
Foto: Fabio Audi / Velvet

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Vladimir Brichta
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Foto: Fabio Audi / Velvet
Fonte: Velvet Conteúdos da revista Velvet
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