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Paula Azevedo  Foto: Pedro Arieta / Velvet

Paula Azevedo, diretora-presidente do Instituto Inhotim: "Queremos quebrar essa impressão de que o museu é um espaço do ‘não’. Tem que ser um espaço do ‘sim’"

O museu apareceu como o único brasileiro na lista do The New York Times de recomendações de locais em todo o mundo a serem visitados em 2026

Imagem: Pedro Arieta / Velvet
  • Diego Olivares
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6 jul 2026 - 04h59

Em 2011, cinco anos depois da inauguração do Instituto Inhotim, localizado em Brumadinho (MG), a paulistana Paula Azevedo viajou com os três filhos, então crianças, para conhecer o local. Quando colocaram os pés naquele que está entre um dos maiores museus a céu aberto do mundo, os pequenos de 12, 9 e 7 anos se espantaram. Em vez de salas fechadas e silenciosas, sob medida para a contemplação passiva, encontraram obras de arte espalhadas por mais de 140 hectares de muita natureza, convidando à interação. “Foi uma quebra de paradigma. A gente sempre visitou museus, e era aquela coisa de ensinar que não se pode encostar, não pode falar alto, não pode correr, não pode isso, não pode aquilo”, lembra Paula. “Quando chegamos no Inhotim, eles até duvidaram que se tratava de um museu. Depois, nas vezes em que nos preparávamos para visitar outro, perguntavam se era igual”.

Paula Azevedo com a filha, em frente à obra de Oiticica, na primeira visita, em 2011
Paula Azevedo com a filha, em frente à obra de Oiticica, na primeira visita, em 2011
Foto: Acervo Pessoal / Velvet

Aceleramos o tempo para o presente. Agora aos 51 anos, Paula Azevedo ocupa o cargo de Diretora-Presidente do Instituto Inhotim há quase três anos, e ainda carrega como premissa muito daquela sensação inicial de quando era apenas uma visitante pela primeira vez no lugar. “Queremos quebrar essa impressão de que o museu é um espaço do ‘não’. Tem que ser um espaço do ‘sim’. Aqui a gente diz muito mais ‘sim’ do que ‘não’”, define.

Foi com essa vocação para a afirmação positiva que ela assumiu o posto em um momento de grande transformação de Inhotim. Sob o comando de Paula, o museu deixou de ser gerido e mantido financeiramente por seu fundador, o empresário e colecionador de arte Bernardo Paz, para se tornar uma instituição sustentada por leis de incentivo e verbas de patrocínio, como a grande maioria dos aparelhos culturais brasileiros. “Bernardo viu que o seu sonho tinha ficado maior do que ele próprio. Agora não se trata mais do sonho de uma pessoa, mas de muitas”, resume.

O visitante se programa, tem alta expectativa daquela viagem. Ele investe financeiramente, tempo e planejamento, então a gente quer atendê-lo da melhor maneira.

Com a autoconfiança de quem construiu a carreira passando por cargos de direção no Museu de Arte Moderna de São Paulo, Instituto Tomie Ohtake e Instituto de Arte Contemporânea, ela fala de forma segura sobre o que encara como uma missão: “Quero deixar o legado de um museu institucionalizado, modernizado, organizado. Hoje o Inhotim tem políticas, tem diretorias com atribuições muito claras dentro de cada área de atuação. Temos um conselho com membros de sete estados brasileiros”, enumera.

Vista aérea de “Bisected Triangle”, de Dan Graham, de 2002
Vista aérea de “Bisected Triangle”, de Dan Graham, de 2002
Foto: Brendon Campos / Velvet

Cuidar de pessoas

O novo momento se reflete em números e reconhecimento internacional. Em 2025, o total de visitantes atingiu seu recorde, com mais de 360 mil pessoas. Na sequência, o museu apareceu como o único brasileiro na lista do jornal The New York Times de recomendações de locais em todo o mundo a serem visitados em 2026, justamente no ano em que Inhotim completa duas décadas.

Tais feitos crescem em relevância quando se leva em conta que Inhotim fica não apenas fora do eixo Rio-São Paulo, mas a 60 Km do centro de Belo Horizonte, a capital mais próxima. “Somos um destino, não um museu de passagem”, compara Paula, que enxerga esse contexto como oportunidade em vez de obstáculo. “É por isso que a gente tem tanto cuidado em cuidar desse visitante”, diz.

De acordo com a diretora, cuidar de pessoas é aquilo que ela faz de melhor, e estar em Inhotim lhe dá a oportunidade de fazer a diferença na vida de uma comunidade inteira. “Somos um microcosmo. Temos mais de 500 funcionários e geramos mais de 900 empregos diretos e indiretos. Então, temos força social e econômica”.

Na sua gestão, além do programa que garante a todos os moradores de Brumadinho entrada livre no museu em qualquer dia da semana, ganharam força as ações voltadas à educação, como o LAB Mães, que visa fortalecer a autonomia, a criatividade e o empreendedorismo das mulheres da cidade, e formação continuada de jovens que são convidados a desenvolver ações em favor do meio ambiente, a partir dos acervos artístico e botânico do Instituto Inhotim e do território local.

Há também a Experiência Brumadinho, cuja primeira edição aconteceu em março, um evento em que os produtores da região de diversas áreas (gastronomia, cerâmica, expressão artística, entre outras) ocupam parte do espaço e oferecem seus serviços aos visitantes.

Robert Irwin, sem título, de 2019
Robert Irwin, sem título, de 2019
Foto: Brendon Campos / Velvet

Multiplicidade

Enquanto finca um dos pés de maneira bastante efetiva em território mineiro, Paula mantém o outro em São Paulo, sua cidade natal e residência principal. “O fato de eu estar em São Paulo e vestir a camisa do Inhotim é muito relevante”, justifica, ressaltando que muitos parceiros comerciais reais ou em potencial ainda estão concentrados nas grandes metrópoles. “Costumo dizer que meu tempo circulando pelo Brasil representando o Instituto tende a ser mais útil do que ficar parada num escritório.”

Embora declare de maneira categórica não possuir nenhuma aptidão em particular que a tenha feito pensar em seguir carreira como artista propriamente dita, Paula sempre manteve um olhar atento para o fazer artístico, quase como uma devoção. Foi algo que sempre procurou passar aos filhos, que não seguiram carreira na área, mas levam esses ensinamentos. O mais velho trabalha em Finanças em Nova York, o do meio estuda Psicologia, no Mackenzie, em São Paulo e é músico, e a caçula está se graduando em Relações Internacionais e Economia na University of Southern California, em Los Angeles.“Eles aprenderam a ser mais sensíveis por meio da arte. Visitam o Inhotim menos do que gostariam, mas acompanham de perto meu trabalho e se sentem muito orgulhosos”, destaca.

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Perguntada sobre qual das 902 obras expostas no Inhotim mais se identifica, ela pede um tempo para pensar, até que vem à sua cabeça “Viewing Machine”, do nórdico Olafur Eliasson. A peça é um caleidoscópio gigante que permite ao visitante observar pelos dois lados da máquina: para um ponto do entorno no qual aponte sua vista e para a própria imagem, refletida em diferentes posições graças aos ângulos da estrutura espelhada. “Tem um lado simbólico, porque primeiro você coloca o foco onde quer. Isso representa onde escolho colocar minha energia”, analisa. “Ao mesmo tempo, tem essa provocação de você se ver refletido de muitas formas. E é isso, a gente é uma multiplicidade de personalidades, de acertos e erros, e de tentativas de ser cada dia um pouco melhor”.

Sua obra favorita, a “Viewing Machine”, de Olafur Eliasson
Sua obra favorita, a “Viewing Machine”, de Olafur Eliasson
Foto: Daniela Paoliello / Velvet

Sem medo do “não” e pronta para o próximo “sim”, Paula vem conseguindo deixar sua marca na arte brasileira.

A arte é um espaço de liberdade, de pensamento livre. Isso eu ensinei aos meus filhos e foi muito importante na maneira como eles cresceram sensíveis.

20 ANOS DE INHOTIM

Para celebrar os 20 anos desde sua inauguração, o Inhotim preparou uma programação especial que se estende durante todo o calendário de 2026.

• Foi inaugurada, em abril, a primeira panorâmica da trajetória de Dalton Paula no Brasil, que reúne obras de diferentes fases de sua carreira na arte contemporânea. O artista desenvolve uma prática comprometida com a história e a arte negra, articulando memória e formação.

• A comemoração se intensifica após o meio do ano, com direito a uma exposição imersiva que promete contar a história do museu e dos personagens que fizeram parte dessa trajetória, com abertura prevista para 12 de setembro.

• No mesmo final de semana, entre 11 e 13 de setembro, acontece o Anoitecer Inhotim, evento de arrecadação de fundos para o Instituto.

• Em outubro, novas obras chegam ao acervo, incluindo a instalação Missão/Missões (Como Construir Catedrais), feita por Cildo Meireles em 1987 e que passará a figurar na galeria dedicada ao artista, um dos espaços favoritos do público que visita Inhotim.

• Além dessa atração, haverá o retorno da instalação sonora The Murder of Crows, de Janet Cardiff e George Bures Miller, composta por 98 alto-falantes, originalmente exposta no museu de 2009 a 2015.

• Também em outubro, no dia 18, acontece a grande festa de aniversário do Instituto, com show de um grande nome da música, ainda a ser anunciado.

Fonte: Velvet Conteúdos da revista Velvet
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