Ney Matogrosso, 84 anos: "Ando sobre o planeta Terra consciente de que estou caminhando sobre um organismo vivo, inteligente e que me carrega por este universo"
A amizade com o homem por trás da grande estrela da música transforma a minha maneira de encarar o mundo, com mais simplicidade e verdade
"Peraí, vou te mandar uma foto da Pretinha", me diz Ney Matogrosso em uma conversa telefônica sobre a gata que ele tem há nove anos. Ele faz isso o tempo todo e eu também retribuo com imagens de alguma planta que floresceu e outros elementos do meu dia a dia. A gente se conhece de vista há mais de 20 anos, mas foi há cerca de uma década que ficamos mais próximos, o que considero um grande privilégio. Para contar como essa intimidade foi construída, é preciso voltar algumas décadas…
Quando conheci o Ney, eu era uma menina na MTV nos anos 2000. Não cheguei a conversar, só o via nos bastidores e ele sorria para mim. Eu ficava empolgada de estar tão perto de alguém como ele. Em 2005, entrei na Globo e fui trabalhar no “Vídeo Show”. Ele estava na passagem de som (ritual que obedece até hoje, pessoalmente, a cada apresentação) e fui entrevistá-lo no palco. Quando o vi de calça jeans e camiseta branca, percebi que era a primeira vez que o encontrava sem o figurino. Era como se aquele ser humano estivesse nu na minha frente! Fiquei emocionada, meu coração disparou, mas lembro dele muito calmo, sereno. Fui respirando junto e baixando o meu tom de voz. Isso foi inesquecível para mim.
Às vezes eu me pego refletindo sobre a evolução de nossa amizade. Há uns 13 anos, ele participou de meu documentário “Na Trilha da Canção” e, há 10 anos, do programa “Calada Noite”, ambos no GNT. Trocamos números de WhatsApp e ficamos conversando muito. Deu um match. Fui eu quem fiz a ponte com meu irmão, Esmir Filho, que foi convidado pela Paris Filmes para dirigir o filme sobre a vida de Ney, “Homem com H”. Ele já gostava muito do trabalho do Esmir, tinha assistido às suas produções e topou na hora. “Tudo que está no filme é verdade. Tem muito sexo? Sim, mas a minha vida era assim. Nós estamos falando dos anos 1970, é um filme sobre a minha vida e eu não queria ocultar nada”, ele diz.
“Na internet, tem gente que me xinga. Aí eu nem esquento: coloco meu dedinho em cima, fica vermelho o comentário e eu o apago”.
Rebelde que sabe seguir regras
Ney é um cinéfilo. Gosta de debater sobre filmes, refletir sobre as coisas que falamos e retorna com novas ideias, posteriores à conversa. É o que todo mundo viu nas telas do cinema: um homem ousado, o único da família que contestou as regras. “Aquela cena de meu pai me batendo para eu chorar… Eu não me submeteria. Qualquer criança nesse momento chora logo para poder acabar com aquilo, mas eu não queria estar submisso a nada”, conta, com voz firme.
A rebeldia contra as determinações do pai, com quem se reconciliou posteriormente, ficou mais mansa na maturidade, quando entendeu a personalidade do progenitor. “Quem é que volta normal de uma guerra? Aquela violência de meu pai pode ser resultado disso que ele viveu lá, sabe? É lógico.”
Em outras áreas de sua vida, contudo, ele sabe seguir regras, nunca chega atrasado e sabe respeitar os limites das pessoas e dos ambientes. “Gosto de ser educado. Isso não tem nada a ver com obedecer”, contesta.
Aprendo muito com ele sobre a liberdade, sobre reorganizar sentimentos, com sua maneira simples de encarar a vida e ser leal ao que acredita. Isso é muito inspirador, estar aberto ao novo, manter-se pronto ao “sim”. Aliás, Ney diz que 2025 foi o ano em que ele mais disse “sim”: para o lançamento do filme, para a homenagem da escola de samba Imperatriz Leopoldinense, no Carnaval carioca, e para uma agenda completa de shows, nos quais ele trabalha muitíssimo. Sua banda está com ele há mais de 15 anos, na mesma formação, e todos se entendem com o olhar. “Passar o som todos os dias dá uma intimidade muito grande entre os músicos e nos deixa seguros”, reflete. A sintonia se vê no recente show gravado para o Tiny Desk Brasil, em que todos parecem felizes com o resultado do espetáculo.
Porém, esse vigor musical também está em uma disponibilidade de se abrir para o novo em parcerias. Os duetos podem ser emblemáticos, como o icônico disco Vagabundo, com Pedro Luís e a Parede, um marco dos anos 2000, ou inesperados, como as canções do espetáculo de ballet “Entre a Pele e a Alma”, da Focus Cia. de Dança. Para aceitar os convites, o único critério é gostar da música. “Não importa nem o gênero musical. Gravo com muita gente que nem conheço”, se diverte.
"Ando sobre o planeta Terra consciente de que estou caminhando sobre um organismo vivo, inteligente e que me carrega por este universo. Tenho um respeito muito grande pela natureza. Sempre convivi com animais desde quando morava lá em Mato Grosso. Já tinha cachorros, criei coruja, lagartos… eu sinto necessidade desse contato".
Melão e sono disciplinado
A alma dele segue jovem e hippie. Tudo isso se vê nos cuidados com a saúde e na impressionante disposição para quase três horas de espetáculo. “Não estou preocupado se tenho mais energia que as pessoas no geral. Eu me preparo para isso. Faço ginástica diariamente, seja em que circunstância for, canto quatro músicas na passagem de som, que é o meu aquecimento vocal e físico, e já entro no palco dançando e cantando”.
Diz que cuida da alimentação e, antes de subir ao palco, só come melão, porque uma vez jantou antes de se apresentar com o Secos e Molhados e passou muito mal. Hoje em dia, começou a tomar alguns suplementos, como colágeno, para se manter flexível. Não marca compromissos de manhã e garante que dorme bem. “Nunca fui de noitada”, diz que prefere se recolher e escutar os barulhinhos da natureza. Esse jeito de não perder a essência me impressiona, porque a fama é complicada e as pessoas acabam se perdendo mesmo no caminho.
Não tem uma vez que vou ao Rio que não dou uma passada na casa dele. Quando ele vem para São Paulo, também vem à minha casa ou levo meus filhos para o verem no hotel. Falamos sobre vida, sobre cinema e sobre amor, porque ele sabe de todos os meus segredos e eu sei os dele. E existe um respeito pela minha maneira de pensar, já que sou uma mulher hétero de uma outra época. Ele pára para pensar no que digo, tem um fascínio pela mulher, pelo nosso entendimento de vida.
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Em casa, ele diz que tenta se policiar em relação à tecnologia. As fotos da Pretinha, não sou só eu que recebo nas conversas via Whatsapp — ele volta e meia posta a gatinha nas redes sociais. Mas também tem parcimônia nesse uso tecnológico. “Não é tudo que eu fotografo que eu publico, não. Vivo tirando fotos das minhas flores, que adoro, e estou com muitas aqui em casa”, ele fala sobre o hobbie de cuidar de plantas. Se está há três horas no celular, se arrepende. “Não fico feliz quando percebo que perdi muito tempo vendo bobagem. Mas é uma companhia para alguém que vive sozinho”.
Em uma trajetória que sempre foi muito associada à coragem, Ney tem ficado apreensivo de ver o estado em que o mundo está. Diz que não adianta ter medo, porque esse sentimento paralisa, mas faz o paralelo com “Como dois e dois”, música de Roberto Carlos que está em seu repertório. “Em vez de cantar ‘meu amor, tudo vai mal, tudo’, eu canto ‘tudo vai mal no mundo’”, explica.
O Brasil se inspira em sua coragem, ousadia, liberdade e dignidade. O artista, desde o começo da carreira, está separado da pessoa (e foi por isso que aquela camiseta branca com calça jeans me emocionaram tanto há 20 anos). Como na letra da canção, parece que Ney, quando canta, não corre perigo. “Digo, não digo, não ligo, deixo no ar, eu sigo apenas porque eu gosto de cantar”, ele magnetiza o público no palco e deixa tudo certo como dois e dois são cinco.