Denise Stoklos volta com consagrada peça “Mary Stuart” no Teatro Vivo em São Paulo
A obra traz o embate de duas grandes mulheres da história pelo poder, misturando-se às experiências da própria artista.
O Teatro Vivo, em São Paulo, recebe a partir deste sábado, 20 de junho, o retorno de um dos mais consagrados solos do teatro brasileiro: “Mary Stuart”, com a grande atriz Denise Stoklos. Ela celebra 75 anos de vida com a montagem, também escrita e dirigida por ela, e que completa 39 anos em cartaz. A obra traz o embate de duas grandes mulheres da história pelo poder, misturando-se às experiências da própria artista, propositora da metodologia cênica do “Teatro Essencial”. A nova temporada é curtíssima, com sessões sexta e sábado, 20h, e domingo, 18h, até 19 de julho.
“Mary Stuart” estreou originalmente em Nova York, em 1987, no icônico Teatro La MaMa, palco da cena experimental estadunidense, quando comemorava-se o quarto centenário da execução da rainha da Escócia que dá título à obra. Na época, a montagem figurou nas recomendações do prestigiado The New York Times, o que o colocou no patamar de espetáculo global.
Desde então, a peça é sucesso por onde passa, até então encenada em oito diferentes idiomas, em mais de 33 países. O espetáculo é a pedra fundamental do que sua criadora batizou de “Teatro Essencial”: uma estética rigorosa que abdica dos artifícios materiais para potencializar ao limite os recursos intrínsecos do intérprete: o corpo, a voz e o pensamento.
Em cena, desprovida de trocas de figurino e amparada apenas por uma cadeira e paredes vazias, Stoklos dá vida à dualidade trágica entre Mary Stuart (1542-1587), a monarca escocesa aprisionada e condenada à morte, e sua prima Elizabeth I (1533-1606), a rainha da Inglaterra e Irlanda que ficou com o poder absoluto. Mais do que isso, a atriz paranaense de Irati insere a si mesma na narrativa, transformando o embate histórico em uma reflexão sobre as estruturas contemporâneas de poder.
A odisseia da peça “Mary Stuart” demonstra a solidez da carreira de Stoklos, que já atuou em idiomas como o Russo, o Ucraniano e o Alemão, além do Inglês, Português, Francês, Italiano e Espanhol. “Aprendi cada um deles para fazer bem a peça”, revela.
Denise conta que o projeto se basearia em uma peça da autora italiana Dacia Maraini, concebida para duas atrizes. Contudo, ao aceitar o convite de Ellen Stewart (1919-2011), fundadora do Teatro La MaMa, viu-se diante de um estúdio vazio e de uma intuição avassaladora que lhe dizia que tratava-se de um solo.
"Eu estava sozinha. Cheguei com três meses de antecedência em Nova York, depois que a Ellen me viu no Uruguai e me convidou para uma residência artística. Ela me cedeu uma sala de ensaio maravilhosa, onde eu ficava morando. E aí comecei a pesquisar esse tema. Quando vi, já não tinha textos da Dacia, porque eu achava que não serviam para o que eu queria falar. E fui colocando os meus textos. E o formato foi ficando solo, já que não era mais uma conversa entre uma rainha e sua criada, mas eu fazendo as duas rainhas e eu atriz dando o meu depoimento também muitas vezes, entrando na peça como uma narradora”, recorda.
Tal ousadia lhe deu grandes frutos. A estreia foi ovacionada pela crítica internacional, ganhando chancela na primeira página do jornal The New York Times. Depois, no prestigiado Festival de Edimburgo, na Escócia, a montagem da brasileira figurou entre os 15 melhores espetáculos, com direito a uma crítica contundente do jornal britânico The Observer, que a consagrou como a performance mais arrebatadora do maior festival de teatro do mundo. No Brasil, ela venceu os prêmios APCA, Shell, Mambembe e APETESP.
A erudição técnica de Denise Stoklos não nasceu do acaso, mas foi forjada na efervescência cultural e política dos anos 1970. Nascida no Paraná, onde cursou Ciências Sociais e Jornalismo, ela fundava os próprios grupos teatrais para encenar textos autorais: “Porque eu tinha medo de montar um Brecht e montar errado”, lembra. Mas, logo Curitiba ficou pequena, e ela migrou para o eixo Rio-São Paulo.
Sob as mãos de mestres como Ademar Guerra (1933-1993), Zbigniew Ziembinski (1908-1978) e Luiz Antônio Martinez Corrêa (1950-1987), Denise experimentou o teatro engajado sob a vigilância da ditadura militar. O cansaço diante do sufocamento das artes no contexto de um regime de exceção a fez partir rumo à Europa.
Em Londres, ao cruzar o caminho de Desmond Jones (1937-2024), papa da mímica e do teatro físico, descobriu a precisão matemática da mímica. Mais tarde, nos Estados Unidos, sob a tutela de Leonard Pitt, operou a fusão definitiva entre o gesto e a palavra. Quando Antonio Abujamra (1932-2015) a dirigiu no solo “O Orgasmo Adulto Escapa do Zoológico”, a musculatura de seu teatro já estava pronta para ganhar o mundo. Tanto que foi esta peça que a levou para Nova York, após uma apresentação no Uruguai onde foi assistida por Ellen Stewart, que a convidou para a residência norte-americana. Com a carreira consagrada nos palcos, Denise acabou distante do audiovisual. Ela explica o porquê. "Porque eu acreditava que era no teatro que esse tipo de trabalho do ator acontece, esse sacerdócio que vem trazer o reflexo para a plateia.
O teatro não vem conduzir a plateia para lugar nenhum, mas ele vem atiçar a plateia para que ela se encontre consigo mesma e se renove. E isso eu entendia que só acontecia na profundidade do palco, no encontro com uma plateia viva, um ator vivo, o público vivo. E que talvez seja isso que faça o teatro nunca morrer e torne o teatro a arte do futuro, diante de tanta tecnologia por aí, porque ele conserva a essência do humano”.
Às vésperas de celebrar o quadragésimo aniversário da peça em 2027, Denise Stoklos enxerga o ato de remontar constantemente “Mary Stuart” como um processo de lapidação contínua. Para ela, o texto ganha novas camadas de profundidade à medida que sua própria existência acumula vivências. "Como essa peça reflete sobre a questão do poder, algo atemporal e sempre muito presente nas nossas vidas, o espetáculo acaba se tornando sempre atual”, analisa. “E cada vez que eu o revisito, é claro que venho com novas informações da minha própria vivência como atriz e que vai se incorporando ao trabalho. E, com isso, vou trazendo mais profundidades, mais elementos de comunicação. E, assim, o solo vai se requintando cada vez que é montado novamente”, pontua.
Longe de se acomodar na própria lenda, a inquietação da criadora se desdobra em novos projetos. No ano passado, ao lado de Alessandra Maestrini, dirigiu Gabriela Duarte no solo “O Papel de Parede Amarelo e Eu”. Agora, paralelamente às apresentações de “Mary Stuart” na capital paulista, Denise finaliza os ensaios de seu novo espetáculo solo, focado na obra do escritor paranaense Dalton Trevisan (1925-2024), previsto para estrear no começo do segundo semestre sob a direção de Alessandra Maestrini. Denise conta que a montagem resgata uma ligação afetiva: “Minha irmã [a psicanalista Dayse Stoklos], atuou durante anos como colaboradora secreta do Dalton, fornecendo-lhe fragmentos de histórias do cotidiano”, revela.
Serviço
“Mary Stuart” com Denise Stoklos
Quando: De 20/06 a 19/07/2026, sextas e sábados, 20h, domingos, 18h.
Onde: Teatro Vivo (Av. Dr. Chucri Zaidan, 2460, Morumbi, CPTM Morumbi, São Paulo)
Quanto: R$ 60 (meia) a R$ 120 (inteira) https://bileto.sympla.com.br/event/121038/d/387280/s/2563278 Duração: 50 minutos
Classificação etária: 14 anos
Obs. Não haverá sessão nos dias de jogo do Brasil na Copa do Mundo.