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Damián Ortega  Foto: VANSBUMBEERS

Damián Ortega faz da liberdade e curiosidade o centro de retrospectiva no MASP

Exposição reúne obras que revelam o humor e a experimentação que compõem mais de três décadas da trajetória do artista mexicano

Imagem: VANSBUMBEERS
  • Miriam Gimenes
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19 mai 2026 - 11h54

Durante um almoço com Yudi Rafael, curador assistente de sua exposição recém-inaugurada no MASP, o artista mexicano Damián Ortega interrompeu a conversa com uma pergunta inesperada: “O que quer dizer ‘morreu na contramão atrapalhando o tráfego’?”. O verso, retirado de Construção, de Chico Buarque, revela um traço latente de sua personalidade, a curiosidade quase obsessiva que permeia tanto sua fala quanto suas obras. Ortega costuma atribuir seu ‘portunhol’ ao hábito de ouvir incessantemente as canções do cantor e compositor carioca, uma escuta que, assim como sua produção artística, transforma linguagem, objetos e cotidiano em matéria de investigação. Tudo, sempre, permeado por humor, herança de seu início de carreira como cartunista em publicações mexicanas. 

Foto: VANSBUMBEERS

Damián Ortega: Matéria e Energia, que fica em cartaz até 13 de setembro na Capital, traz mais de três décadas de trabalho do artista nascido na Cidade do México e apresenta, em 35 obras entre esculturas, instalações, fotografias e vídeos, a combinação de ironia, observação e pensamento crítico que marca sua trajetória. Nelas, deixa claro seu interesse pelas estruturas invisíveis das coisas, sejam automóveis, ferramentas, montanhas de entulho ou objetos, expostas pela primeira vez em São Paulo. “O que é muito significativo é que é uma retrospectiva, é uma revisão do trabalho, o que chamam de survey show, que é uma exposição de meia carreira. Falta a outra metade”, brinca Ortega. “Sendo um artista vivo, é algo que continua se construindo.”

Para Yudi Rafael, trazer Ortega ao MASP também faz parte de um movimento de aproximação com diferentes gerações da arte latino-americana. “Ele é uma figura emblemática, cuja prática se tornou icônica não só para o México, mas para uma compreensão da arte latino-americana contemporânea”, afirma o curador. Ao lado de nomes como Gabriel Orozco e Francis Alÿs, Ortega integra uma geração que ajudou a reposicionar a arte latino-americana no circuito internacional a partir dos anos 1990.

UMA EXPLOSÃO

Em muitas das obras expostas, Ortega desmonta ou repensa objetos para revelar aquilo que normalmente permanece oculto. Um Fusca modelo 1989 suspenso e fragmentado em centenas de peças, Cosmic Thing (2002), talvez seja o exemplo mais conhecido dessa investigação. “Gosto da relação construtiva, de ver algo e pensar como foi feito”, explica. “Ao expandir um objeto, surge a possibilidade de ver o interior, as entranhas, o mecanismo.” A operação é física e simbólica: revela o que sustenta as coisas para além de sua aparência.  A repercussão internacional desta obra - talvez a que mais atraia olhares na mostra - marcou um ponto de virada em sua trajetória no início dos anos 2000. Segundo relato compartilhado pelo artista com Yudi Rafael durante a abertura da exposição, a venda dela para uma instituição estrangeira permitiu que ele passasse uma temporada no Rio de Janeiro. A versão apresentada no MASP é uma cópia de exibição.

 Para Ortega, as ferramentas são ‘extensões do corpo humano’
Para Ortega, as ferramentas são ‘extensões do corpo humano’
Foto: VANSBUMBEERS

A repercussão internacional desta obra - talvez a que mais atraia olhares na mostra - marcou um ponto de virada em sua trajetória no início dos anos 2000. Segundo relato compartilhado pelo artista com Yudi Rafael durante a abertura da exposição, a venda dela para uma instituição estrangeira permitiu que ele passasse uma temporada no Rio de Janeiro. A versão apresentada no MASP é uma cópia de exibição.

“Não só é uma obra de arte, mas a evocação que implica para tanta gente”, comenta o artista sobre o carro, que desperta memórias afetivas tanto em brasileiros quanto em mexicanos. Não por acaso, era diante dela que visitantes interrompiam o percurso para pedir fotos ao artista. “É engraçado, porque ando pelo México e as pessoas nem me reconhecem”, disse, surpreso.

Outra instalação que mostra o movimento presente na obra do mexicano é Controller of the Universe (2007). Composta por serrotes, pás, marretas, machados e outras ferramentas, a obra parece uma explosão e revisita um conhecido mural do também mexicano Diego Rivera. Para Ortega, as ferramentas são ‘extensões do corpo humano’ e carregam gestos e movimentos manuais. “Há ferramentas para escavar, para quebrar um muro, e nisso existe uma corporalidade”, explica. O artista compara esses objetos a instrumentos musicais, que acabam se tornando parte do corpo de quem os utiliza. Ali as ferramentas mostram a força do trabalho que está por trás de cada peça. 

Para ele, os materiais falam e, independentemente da forma que assumam em suas criações, refletem as tensões do presente. “Estamos vivendo um momento surpreendentemente complexo”, afirma. A arte, segundo Ortega, funciona como um espaço de reconhecimento individual diante das transformações coletivas do mundo contemporâneo. “A arte é esse canal para reconhecer uma pessoa, reconhecer um momento, uma época, mas sempre a partir de uma experiência individual.”

Foto: VANSBUMBEERS

Se há desperdício em excesso no mundo capitalista, como o artista faz questão de observar, seu trabalho propõe justamente outro olhar para esses materiais. “A escultura não é só um volume. É um espaço vazio também”, diz. “Há sólido e há vazio. E justamente esse diálogo gera uma tensão. É como o silêncio no meio de duas notas.” Essa lógica também aparece em Alma Mater (2008), instalação formada por fragmentos de tijolos, argila e rochas que remete tanto à estrutura interna da Terra quanto à composição de um átomo.

OLHAR DE CRIANÇA

O espírito curioso que leva Ortega a transformar tanto um rabisco em papel quanto uma instalação monumental em investigação artística, segundo ele, nasceu na infância e nunca desapareceu. “Minha pobre mãe se surpreendeu muitas vezes quando a gente abria o liquidificador e o ferro de passar para ver o que tinha dentro”, relembra, aos risos. “Foi lindo não perder essa curiosidade e essa vontade de descobrir coisas.”

Ao longo da retrospectiva - que inclui até uma escultura feita com tortillas -, o artista parece menos interessado em oferecer respostas do que em despertar perguntas. Suas obras convidam o visitante a recuperar algo que, para ele, não deveria se perder com o tempo: a capacidade de olhar o mundo com espanto, como fazem as crianças. Questionado sobre qual palavra gostaria que o público levasse da exposição, fica em dúvida entre duas ideias que dão o tom da mostra. “Não sei se escolho curiosidade ou liberdade. Mas gostaria muito que fossem ambas.” 

Damián Ortega: Matéria e Energia tem patrocínio master da Vivo e é realizada por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura. 

Fonte: Velvet Conteúdos da revista Velvet
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